Carolina Pessoni
Goiânia – Há igrejas que marcam a paisagem. Outras marcam gerações. No coração do Setor Sul, diante da tradicional Praça do Cruzeiro – região central de Goiânia -, a Paróquia São José reúne essas duas características. Sua arquitetura singular, os afrescos monumentais, os mosaicos repletos de simbolismos e a intensa participação comunitária transformaram o templo em uma das construções religiosas mais emblemáticas de Goiânia.
A história da igreja, entretanto, não pode ser contada sem mencionar um personagem que acompanhou praticamente toda a sua trajetória: o padre norte-americano João James Daiber. Essa relação entre sacerdote e comunidade acaba de ganhar um novo registro histórico com o lançamento do livro John James Daiber – Sacerdote, Missionário, Servo de Deus por Excelência. A Vida Dedicada à Evangelização, escrito pelo pesquisador e paroquiano Natal Augusto Leal da Cunha.
Frequentador da Paróquia São José desde a década de 1970, Natal conviveu com Padre João por quase meio século. O resultado desse trabalho é uma obra construída a partir de documentos, fotografias, registros da Arquidiocese de Goiânia, arquivos da própria paróquia e dezenas de depoimentos de pessoas que compartilharam a vida com o sacerdote.

Paroquiano e pesquisador, Natal Augusto Leal da Cunha, publicou livro sobre o padre João Daiber (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
“Eu conheci o padre em 1972 e convivi com ele durante 47 anos. O livro foi sendo construído em cima de documentos, fatos e testemunhos. Quanto mais eu pesquisava, mais descobria coisas que ele nunca contou sobre si mesmo”, relata o autor.
Um americano em Goiás
A história de João Daiber começa longe de Goiânia. Nascido na região da Filadélfia, nos Estados Unidos, ele estudou latim com desempenho excepcional, passou por seminários norte-americanos e europeus, foi ordenado sacerdote na Bélgica e chegou a acompanhar, ainda jovem, os desdobramentos do Concílio Vaticano II, marco que promoveu profundas transformações na Igreja Católica.
Seu destino inicial não era o Brasil. Segundo Natal, Daiber fazia parte de um movimento incentivado pelo Papa João XXIII, que solicitou aos bispos norte-americanos o envio de missionários para a América Latina. Após uma série de circunstâncias envolvendo dioceses dos Estados Unidos e bispos que atuavam em Goiás, o sacerdote acabou sendo enviado para a região.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Primeiro trabalhou em Santa Helena de Goiás. Em seguida, chegou a Goiânia. A partir de 1969, passaria a escrever uma história inseparável da Paróquia São José.
Igreja construída passo a passo
Embora a paróquia tenha sido criada em 1966 por Dom Fernando Gomes dos Santos, o templo que hoje domina a paisagem da Praça do Cruzeiro ainda não existia. As primeiras celebrações aconteciam em espaços provisórios, enquanto a comunidade buscava recursos para erguer sua sede definitiva.
A pedra fundamental foi lançada em maio de 1973. A inauguração ocorreu no ano seguinte, mas a construção se estenderia por mais de uma década. Natal acompanhou parte desse processo. “Eu vi o trator limpando o cerrado aqui. Vi a praça sendo asfaltada. Quando me mudei para o Setor Sul, em 1974, a igreja tinha acabado de começar”, recorda.

Lançamento da pedra fundamental da Paróquia São José (Foto: Reprodução)
A obra enfrentou desafios burocráticos, mudanças urbanísticas e dificuldades financeiras. O terreno destinado originalmente à Igreja precisou ser regularizado após anos de pendências tributárias. Houve adaptações no projeto em razão da transformação da área em zona comercial.
Em dezembro de 1977 foi elaborado pelo arquiteto Antônio Lúcio Ferrari Pinheiro o projeto complementar da obra, de forma circular acoplada à igreja e o prédio da secretaria em formato de círculo. Foram acrescidos dois corredores de entradas nas laterais e o círculo interno, com uma cruz de 18 metros de altura ao centro.
Mesmo assim, a construção avançou graças ao envolvimento dos paroquianos. Integrantes do Movimento de Cursilhos de Cristandade, famílias pioneiras de Goiânia e voluntários da comunidade participaram de campanhas, festas beneficentes e arrecadações que ajudaram a viabilizar o projeto.

Cruz de 18 metros de altura é um dos símbolos da igreja (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Bíblia em concreto, pedra e azulejo
O que diferencia a Paróquia São José de muitos outros templos da cidade é a riqueza de sua linguagem simbólica. Nada ali foi concebido por acaso.
Documentos reunidos no livro mostram que Padre João participou ativamente da concepção dos elementos que compõem a igreja. A intenção era transformar a arquitetura em uma grande catequese visual.
O círculo, repetido em diferentes pontos do complexo, simboliza a unidade, a perfeição e a eternidade. No hall de entrada, o símbolo da paz ocupa o centro desse círculo. Os 11 pilares externos representam os 11 apóstolos que permaneceram com Cristo após a Ressurreição. As vigas que percorrem a nave simbolizam a Igreja acolhendo seus fiéis.

Os 11 pilares externos da igreja representam os apóstolos (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Sob o presbitério foi construída uma cripta inspirada na tradição da Basílica de São Pedro, em Roma. Nas paredes laterais, o artista Wilson Jorge produziu afrescos monumentais representando passagens bíblicas e uma Via-Sacra em tamanho natural. Além deles, imagens de São José e de Nossa Senhora Virgem de Guadalupe compõem o cenário.
No fundo do hall externo encontra-se uma das obras mais impressionantes do conjunto, outra obra de Wilson Jorge: um gigantesco painel em azulejos que reúne cenas da Criação, da Redenção e da história da Igreja.
O próprio material histórico da paróquia compara o conjunto às antigas catedrais europeias, que ensinavam a fé por meio das imagens. Uma verdadeira “Bíblia ilustrativa”, como descrevem os registros da comunidade.
O padre discreto
Durante a pesquisa para o livro, uma característica chamou a atenção de Natal. Apesar da extensa formação acadêmica e religiosa, Padre João raramente falava sobre a própria trajetória.
Entre os documentos encontrados pelo autor estavam certificados, diplomas e registros que revelavam uma formação intelectual muito superior àquela que a maioria dos paroquianos imaginava. “Ele era extremamente preparado. Quando encontrei os documentos, descobri coisas que ninguém sabia. Mas ele nunca falava sobre isso”, conta.

Padre João Daiber (Foto: Reprodução)
A discrição se refletia também no estilo de vida. Durante décadas, o sacerdote manteve uma rotina intensa que incluía missas, aulas em seminários, atividades na Arquidiocese, acompanhamento de movimentos religiosos e atendimento à comunidade.
Segundo Natal, sua agenda costumava ficar comprometida com um ano de antecedência. “Ele cumpria rigorosamente tudo o que anotava. Era uma pessoa de uma disciplina impressionante.”
Mesmo após sofrer um grave acidente vascular cerebral, passou quase nove anos convivendo com limitações físicas sem abandonar completamente a vida pastoral.
Patrimônio ultrapassa paredes
Ao longo dos anos, Padre João ajudou a criar comunidades, apoiar congregações religiosas, incentivar obras sociais e formar sacerdotes. Muitos seminaristas passaram pela Casa Paroquial da São José. Diversos padres foram ordenados ou tiveram parte da formação ligada à comunidade.

Painel em azulejos do artista Wilson Jorge, que reúne cenas da Criação, da Redenção e da história da Igreja (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Seu vínculo com Goiânia tornou-se tão profundo que recebeu o título de cidadão goianiense e teve uma rua batizada com seu nome. Mas talvez sua maior herança permaneça visível todos os dias, diante da Praça do Cruzeiro. Nas linhas modernas da igreja, nos afrescos coloridos, nos símbolos cuidadosamente distribuídos pela arquitetura e na memória das pessoas que ajudaram a construir aquele espaço.
Ao registrar essa trajetória em livro, Natal Augusto Leal da Cunha oferece mais do que a biografia de um sacerdote. É a oportunidade de olhar novamente para uma das igrejas mais conhecidas de Goiânia e perceber que, por trás de suas paredes, existe uma história que acompanha o próprio crescimento da cidade, traduzido em fé, arte, comunidade e permanência.