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Os pavões encantados do Palácio das Esmeraldas

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08.08.2022 - 08:00:19

Goiás teve e continua tendo grandes mulheres, que ergueram e sustentaram o setor humanitário de seus maridos governadores do Estado. 

Dona Gercina Borges Teixeira foi a primeira habitante do Palácio das Esmeraldas, recém-inaugurado com a construção de Goiânia, esposa do governador Pedro Ludovico Teixeira. Amante da natureza, tinha paixão pela flora e gostava de animais e pássaros.

Nos lindos jardins em formação dos arredores palacianos, dona Gercina teve como destaque a criação de pavões, aves descendentes dos faisões, admiradas pela beleza exótica, notadamente a exuberância de suas caldas ao fazer o cortejo às amadas pavoas. Na área social chegou a presidir a LBA – Fundação Brasileira de Assistência, criada pela primeira-dama do Brasil, dona Darcy Vargas.

Mas o destaque foi a segunda primeira-dama, dona Ambrosina Coimbra Bueno, que passou a habitar esse paço a partir de 1947 e continuou dando excelente trato a esses animais, que adornavam os quintais de seu novo lar oficial.

Dona Ambrosina criou a OVG – Organização das Voluntárias de Goiás, um grupo de mulheres que se reunia para costurar enxovais para bebês, roupas de cama e uniformes escolares, que posteriormente eram doados. Esses foram os primeiros benefícios produzidos e distribuídos à população, com o objetivo de investir na cidadania e na promoção social das pessoas.

No entanto, o que a diferenciava dona Ambrosina era o espírito liberal, aliás por demais, de seu marido, governador Jerônimo Coimbra Bueno (da UDN), que, ao assumir o Governo, dispensou todo tipo de segurança pessoal, inclusive os guardiões do Palácio das Esmeraldas, jagunços e soldados à sua porta.

Com os portões palacianos escancarados, atendia a todos que o procuravam em manga de camisa e aberto ao diálogo, ao ponto de convidar adversários que criticavam sua administração a ajudá-lo a encontrar soluções. Essa foi sua ingenuidade política, de liberal fora da época, passou a ser vítima desses políticos, aos quais conferiu confiança, mas que o traíram sem escrúpulo para enfraquecer sua gestão.

Esse estilo inovador, incomum à época pós ditadura, foi alvo da excessiva liberdade de imprensa. O apelidaram de Biriba (não sei definir esse adjetivo) e outros conceitos pejorativos.

Pela sua liberalidade não respondia às críticas. Essa mansidão de caráter incomodava os vorazes críticos, que, sem respostas do governador, passaram as ofensas a atingir sua família.

A par disso, um jornalista chamado D’Almeida Fischer se empolgou pela falta da censura costumeira à época aos seus atrevidos escritos, extrapolou e começou a criticar dona Ambrosina. Chegou a falar que a primeira-dama estava engordando de tanto comer os pavões do Palácio das Esmeraldas.

Mexeu com ele, tudo bem. Mas com a família, aí o buraco era mais embaixo e a serenidade ia para o brejo.

Ficou fulo da vida com as críticas desse escriba, que não era goiano e, embravecido, estufou o peito e com seu porte atlético, com 1,90m, arregaçou as mangas da camisa e saiu sozinho, bufando, a pé, em linha reta pela Avenida Goiás, do Palácio, rumo ao Goiânia Palace Hotel, onde o crítico se hospedava, para esgoelá-lo face às ofensas à sua mulher.

Quando avisaram ao jornalista que lá vinha o bravo governador, esse perdeu a macheza, jogou a mala pela janela, que se abriu ao contato com o solo esparramando roupas pela calçada. Saltou, em seguida, do segundo andar da hospedaria, e fugiu capengando com a mala fechada, mas com pedaços de camisas para fora. Deve estar correndo manquitola até hoje.

Evaporou-se. Nunca mais pisou em plagas goianas.

É a história que se repete. Mexeu com quem quis, recebeu o troco que não quis.
  
*José Osório Naves, jornalista e escritor, presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Goiás em três mandatos consecutivos (1965-1974)
 

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por José Osório Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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