Goiânia – Exercer a função de curador, ou administrar uma coleção de arte, na função de colecionador, são ofícios outorgantes que concedem poderes a um conjunto de artistas e obras específicas.
Transitar por esse melindroso território implica em contornar imprevistos e conseguir trabalhar com o que está ao alcance, principalmente financeiro, em redes de contato e, claro, o bom senso.
A criatividade e o jogo de cintura para alinhar, atrair e arrematar o olhar e o interesse do espectador está intimamente relacionado à pesquisa histórica e a veracidade dos fatos.
Dito isso, tentarei ilustrar nessa breve crítica, duas situações peculiares sobre os ofícios em questão.
Na primeira situação incluirei o livro “Figuras e Semelhanças” sobre Siron Franco com textos de Dawn Ades, pela Editora Index, de 1995. O Sumário separa os capítulos intitulados “Peles” e “Madonas”, respectivamente às diferentes séries de pinturas produzidas pelo artista. No capítulo “Peles”, a seleção de uma dúzia de pinturas (das quais a imagem que ilustra meu texto poderia estar entre elas), retratam ‘elegantes mulheres’ (ADES: 1995; pg121) vestidas por “segundas peles – chapéus, luvas e abrigos”, que também seguram esguias piteiras concebendo uma atmosfera sensual e misteriosa, num ensaio metamorfo, onde “se vê o contorno do busto delineado em meio à pele de um animal que se confunde com sua cutis” (ADES: 1995; pg121). “Peles” é, em sua maioria, uma série de pinturas, tipo animal print, que integra “símbolos iconográficos de algarismos” que fazem alusão aos números de calibres das armas de fogo e das estatísticas de morte de animais silvestres. No seguinte capítulo, a referência artística muda drasticamente de semblante. Em “Madonas”, uma figura que, “embora use um capuz arrematado por uma minúscula franja de renda negra, é assexuada. No entanto, numa outra pintura é chocante ver a madona sexuada, nua sob um véu de renda; mas talvez, a iconoclastia, aqui evidente, seja em função da intrusiva ideia que geralmente é destituida de qualquer indicação visual nesse sentido”. (ADES: 1995; pg145). “Madonas”, por vezes retratadas tal como um sincretismo mórbido às imagens sacras do artista, Frei Confaloni, ao contrário das “Peles” e das ‘elegantes mulheres’, são figuras monstruosamente canonizadas como santas profanas.
Na segunda situação, passados 31 anos da edição do livro, a abertura da mostra “Expressões – pinturas inquietantes para refletir”, de Siron Franco, na Vila Cultural Cora Coralina, uma sequência de obras dispostas na parede de fundo carmim tem como referência na legenda o título “Madonas”. Distribuidas de forma aleatória, as ‘elegantes mulheres’ e as santas profanas são misturadas, mas não se interagem entre si. Apesar da transição, transformação ou transmutação do processo criativo do artista, o repertório das obras intriga o atento espectador e distorce o significado das figuras.
O conflito ou confusão entre terminologias, definições acadêmicas, científicas ou biológicas resulta num emaranhado aleatório e indefinido nesse território melindroso da diversidade.
A obra de Siron, pertencente ao empresário e colecionador José Meireles, é reconhecida pelo mercado de arte da década de 80/90 como a mais desejada série de pinturas, as famigeradas: “Figuras Imaginárias”. Tais ‘elegantes mulheres’, ora híbridas, ora zoomorfas, se diferem sutilmente do abstracionismo das “Peles” e do capuz santificado das “Madonas”.
Embora a curadoria e o colecionismo adotem distintos títulos à uma série específica do artista, podemos concordar que essa decisão persista devido à um montante de obras, cujo descaso, ou carência seletiva curatorial, não lhe atribuam importância suficiente para ser reservado um espaço próprio, seja num capítulo de livro, seja numa mostra de arte.
O XXY da questão é que, ao resignar um título, gênero, identidade, síndrome ou diagnóstico divergente para sanar de imediato uma classificação equivocada, o resultado será sempre uma solução paliativa e provisória que reincidirá em uma nova falta.
Embaralhadas entre “Peles” e “Madonas”, essas figuras elegantes não se transformaram em outras senão as célebres ‘imaginárias mulheres de Siron’. As “Figuras Imaginárias” traçam por si só sua característica clássica, imutável e irretocável. São, em sua maioria, figuras femininas em seus casacos de pele, fumando seus cigarros e posando com seus charmosos chapéus. Musas inspiradoras, que mereciam ser colocadas no seu devido lugar de destaque, se caso os outorgantes fossem capazes de sustentarem, equitativamente, o XX da questão.