Logo
Obra da década de 80/90, de Siron Franco - coleção particular de José Meireles

O XXY da questão

WhatsAppFacebookLinkedInX
21.06.2026 - 08:47:04

Goiânia – Exercer a função de curador, ou administrar uma coleção de arte, na função de colecionador, são ofícios outorgantes que concedem poderes a um conjunto de artistas e obras específicas.

Transitar por esse melindroso território implica em contornar imprevistos e conseguir trabalhar com o que está ao alcance, principalmente financeiro, em redes de contato e, claro, o bom senso.

A criatividade e o jogo de cintura para alinhar, atrair e arrematar o olhar e o interesse do espectador está intimamente relacionado à pesquisa histórica e a veracidade dos fatos.

Dito isso, tentarei ilustrar nessa breve crítica, duas situações peculiares sobre os ofícios em questão.
Na primeira situação incluirei o livro “Figuras e Semelhanças” sobre Siron Franco com textos de Dawn Ades, pela Editora Index, de 1995. O Sumário separa os capítulos intitulados “Peles” e “Madonas”, respectivamente às diferentes séries de pinturas produzidas pelo artista. No capítulo “Peles”, a seleção de uma dúzia de pinturas (das quais a imagem que ilustra meu texto poderia estar entre elas), retratam ‘elegantes mulheres’ (ADES: 1995; pg121) vestidas por “segundas peles – chapéus, luvas e abrigos”, que também seguram esguias piteiras concebendo uma atmosfera sensual e misteriosa, num ensaio metamorfo, onde “se vê o contorno do busto delineado em meio à pele de um animal que se confunde com sua cutis” (ADES: 1995; pg121). “Peles” é, em sua maioria, uma série de pinturas, tipo animal print, que integra “símbolos iconográficos de algarismos” que fazem alusão aos números de calibres das armas de fogo e das estatísticas de morte de animais silvestres. No seguinte capítulo, a referência artística muda drasticamente de semblante. Em “Madonas”, uma figura que, “embora use um capuz arrematado por uma minúscula franja de renda negra, é assexuada. No entanto, numa outra pintura é chocante ver a madona sexuada, nua sob um véu de renda; mas talvez, a iconoclastia, aqui evidente, seja em função da intrusiva ideia que geralmente é destituida de qualquer indicação visual nesse sentido”. (ADES: 1995; pg145). “Madonas”, por vezes retratadas tal como um sincretismo mórbido às imagens sacras do artista, Frei Confaloni, ao contrário das “Peles” e das ‘elegantes mulheres’, são figuras monstruosamente canonizadas como santas profanas.
Na segunda situação, passados 31 anos da edição do livro, a abertura da mostra “Expressões – pinturas inquietantes para refletir”, de Siron Franco, na Vila Cultural Cora Coralina, uma sequência de obras dispostas na parede de fundo carmim tem como referência na legenda o título “Madonas”. Distribuidas de forma aleatória, as ‘elegantes mulheres’ e as santas profanas são misturadas, mas não se interagem entre si. Apesar da transição, transformação ou transmutação do processo criativo do artista, o repertório das obras intriga o atento espectador e distorce o significado das figuras.
O conflito ou confusão entre terminologias, definições acadêmicas, científicas ou biológicas resulta num emaranhado aleatório e indefinido nesse território melindroso da diversidade.
A obra de Siron, pertencente ao empresário e colecionador José Meireles, é reconhecida pelo mercado de arte da década de 80/90 como a mais desejada série de pinturas, as famigeradas: “Figuras Imaginárias”. Tais ‘elegantes mulheres’, ora híbridas, ora zoomorfas, se diferem sutilmente do abstracionismo das “Peles” e do capuz santificado das “Madonas”.
Embora a curadoria e o colecionismo adotem distintos títulos à uma série específica do artista, podemos concordar que essa decisão persista devido à um montante de obras, cujo descaso, ou carência seletiva curatorial, não lhe atribuam importância suficiente para ser reservado um espaço próprio, seja num capítulo de livro, seja numa mostra de arte.
O XXY da questão é que, ao resignar um título, gênero, identidade, síndrome ou diagnóstico divergente para sanar de imediato uma classificação equivocada, o resultado será sempre uma solução paliativa e provisória que reincidirá em uma nova falta.
Embaralhadas entre  “Peles” e “Madonas”, essas figuras elegantes não se transformaram em outras senão as célebres ‘imaginárias mulheres de Siron’. As “Figuras Imaginárias” traçam por si só sua característica clássica, imutável e irretocável. São, em sua maioria, figuras femininas em seus casacos de pele, fumando seus cigarros e posando com seus charmosos chapéus. Musas inspiradoras, que mereciam ser colocadas no seu devido lugar de destaque, se caso os outorgantes fossem capazes de sustentarem, equitativamente, o XX da questão.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Tatiana Potrich

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.09.2026
Sebrae premia profissionais da comunciação em noite dedicada ao jornalismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Prêmio Sebrae de Jornalismo realizou a solenidade de premiação em reconhecimento a produções jornalísticas que abordam temas ligados ao empreendedorismo e aos pequenos negócios. O Jornal A Redação conquistou o 2º lugar na etapa estadual da 13ª edição do prêmio, no evento que ocorreu na noite desta terça-feira (15/9), na […]

Meia Palavra
16.09.2026
‘The Ghost in the Shell’ finalmente dá tratamento fiel a clássico cyberpunk

Terminou na semana passada a adaptação em 10 episódios de The Ghost in the Shell, baseada no mangá de mesmo nome, publicado por Masamune Shirow nos anos 1980. A obra foi extremamente influente e ganhou uma adaptação na qual o diretor Mamoru Oshii tomou amplas liberdades, em forma de filme animado, em 1995, que, por […]

Laboratório Público — Ciência, política e meio ambiente
15.09.2026
Sem apocalipse ou redenção

A Inteligência Artificial ganhou novamente as manchetes essa semana com dois fatos em sequência: a demissão de Jacob Coxon da Anthropic, empresa responsável pelo Claude, e o texto de Dario Amodei, fundador da mesma empresa, alertando para a necessidade de diminuir o ritmo de avanço da IA. Coxon já trabalhara na OpenAI, a fundação responsável […]

Noite e Dia
14.09.2026
Gusttavo Lima reúne milhares de goianienses no ‘Buteco Para Sempre’; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Gusttavo Lima se apresentou em Goiânia no último sábado (12/9) para comandar o festival Buteco Para Sempre, no estacionamento do Estádio Serra Dourada. O evento também contou com shows de Leonardo, Diego & Victor Hugo, Calcinha Preta e João Bosco & Vinícius. No repertório, o público entoou músicas antigas e novas […]

Curadoria Afetiva
13.09.2026
Práticas terapêuticas

A imagem que ilustra meu texto deste domingo são as obras esculpidas em argila pela caprichosa arquiteta, Fernanda Ogata. Seu design e delicadeza, que descendem da ancestralidade japonesa, destacam o impecável resultado de suas peças e a exímia habilidade nipônica, do fazer artesanal. Não há como não vangloriar também, a influência da tropicalidade brasileira explícita […]

Noite e Dia
11.09.2026
Beco da Codorna: quando a arte encontrou um lugar no coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há lugares que parecem existir à margem da cidade, escondidos entre fachadas, galerias e grandes avenidas. No Centro de Goiânia, alguns deles são os becos. Espaços estreitos, muitas vezes destinados originalmente a serviços e circulação, que ao longo das décadas ganharam diferentes usos e, em alguns casos, passaram a integrar a […]

Noite e Dia
10.09.2026
Evento para convidados abre Festival da Cachaça de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Um encontro para convidados marcou a abertura da primeira edição do Festival da Cachaça de Goiás, nesta quarta-feira (9/9). Realizado no Flamboyant Hall até domingo (13), o evento reúne uma série de programações ao longo de cinco dias, com entrada gratuita e atividades voltadas tanto para profissionais da cadeia produtiva quanto […]

Meia Palavra
09.09.2026
‘A Morte de Robin Hood’ mistura redenção com a desconstrução de um personagem clássico

Antes de ver este filme, a principal crítica que vi da audiência foi a de que era o filme “mais chato do mundo”, o que diz mais sobre o estado do público hoje do que sobre o filme em si. Em A Morte de Robin Hood, acompanhamos os momentos finais do famoso fora da lei, […]