Estreou com pouco alarde na Apple TV e rapidamente virou um fenômeno nas redes sociais apenas pelo boca a boca a série O Segredo de Widow’s Bay. A trama se passa em uma pacata cidadezinha chamada Widow’s Bay, que fica em uma ilha e está sendo lentamente esquecida: população idosa, economia estagnada. O novo prefeito Tom Loftis (Matthew Rhys) quer mudar essa realidade, transformando a vila em um destino turístico.
Para isso, ele só precisa superar alguns percalços, como o velho hospital, que você pode passar na porta, mas não pode parar, ou coisas acontecem; ou o velho hotel que pegou fogo em uma festa de Ano-Novo e onde é possível ouvir os comensais à meia-noite; ou as inúmeras embarcações pesqueiras que desaparecem na neblina na calada da noite; ou o fato de que ninguém que nasce na ilha consegue sair dela; e a lista continua.
Um pouco Arquivo X, um pouco A Missa da Meia-Noite e bastante Shaun of the Dead, o coquetel de humor, terror e sobrenatural da série é o que prende: seu maior trunfo é conseguir encher um único episódio com cenas cômicas excelentes junto com um terror congelante, com invejável facilidade.
A série evita o pecado de cair no ridículo ao mesmo tempo em que, a cada episódio, amplia um pouco da sua história e da mitologia local. Da mesma forma, os roteiros executam com perfeição uma escalada de conflitos (ou uma espiral de loucura), em que as coisas começam certamente banais e não sobrenaturais e vão se tornando, ao avançar da temporada, mais sofisticadas e definitivamente sobrenaturais.
Bebendo de ricas fontes como Stephen King e H. P. Lovecraft, a série tem os dois pés firmes no gênero weird e é bem-sucedida ao não se levar a sério demais, ao mesmo tempo em que não zomba da inteligência da audiência nem do bom senso dos personagens que, felizmente, correm na direção oposta quando veem um maluco vestido de Jason dobrando a esquina.
Além do roteiro excelente e da escalada de tensões, o elenco ajuda muito a carregar a série nas costas, em particular Matthew Rhys como Tom. O prefeito não é um herói: ele é só um cara e, pelo menos no começo da trama, alguém que não acredita nas maldições da ilha. Servindo como inserção da audiência, o medo e a insegurança do personagem são tão palpáveis quanto os nossos.
Brilham, junto com ele, Stephen Root, conhecido e confiável ator coadjuvante de diversas produções da HBO, que aqui ganha mais espaço como Wyck, o velho sábio e resmungão que tenta alertar Tom dos perigos. Kate O’Flynn, como Patricia, completa o trio e assume a liderança em potenciais premiações de coadjuvante ao interpretar uma esquisitona com um passado trágico que podia facilmente ser um saco de pancadas e alívio cômico, mas que ganha ela mesma um excelente arco de personagem com profundidade.
Enfim, nada é o que parece em Widow’s Bay, tanto diegeticamente quanto fora da tela. Já renovada para a segunda temporada, ainda faltam dois episódios para a temporada terminar, o que significa que você tem tempo de maratonar e ficar em dia antes do final.
