Em uma temporada cheia de animes de sucesso que retornaram no primeiro bimestre como Frieren e Jujutsu Kaisen, uma novidade estreante me chamou a atenção embora tenha voado abaixo do radar para a grande maioria da audiência. O Incidente Darwin, disponível na Amazon Prime, conta a história de Charlie, um humanzé: você não leu errado, ele é um híbrido criado em laboratório entre um humano e uma chimpanzé, fruto de uma pesquisa científica proibida.
Agora adolescente e morando em uma pacata cidade no interior do Missouri, nos EUA, Charlie vai para a escola pela primeira vez, o que naturalmente vai desencadear uma série de eventos. Paralelamente, um grupo de ativistas pelos direitos dos animais decide dar um passo decisivo para a ação direta, se tornando efetivamente um grupo terrorista e querendo ter Charlie como membro por sua condição única.
As consequências e implicações disso vão pautar toda a temporada. Os temas e estratégias escolhidos pela trama para usar o fantástico para abordar questões importantes é o que mais se destaca na série, bem além da sua narrativa e trama principal, que são bem simplórias.
Charlie, por exemplo, sofre bastante preconceito e tem um comportamento distante, diferente do convencional. Não sabemos o que ele pensa e muitas vezes suas ações podem parecer estranhas. O subtexto aqui é a forma como Charlie é usado como um substituto para a diferença: Charlie pode ser lido como uma minoria racial; como uma pessoa com deficiência; como autista ou pessoa neurodivergente; como queer ou trans e assim por diante. Sua diferença leva a conflitos e questões de tolerância, adequação e inadequação muito relevantes para o debate público de hoje.
Outro aspecto interessante é do próprio grupo ativista retratado. Embora sejam vilões unidimensionais e convencionais dentro desse tipo de narrativa, há o tema relevante do direito a protestar: até que ponto ações pacíficas são eficientes para avançar causas sociais? Ao mesmo tempo, quando a ação direta é justificada? E, principalmente: é realmente possível alcançar uma mudança estrutural e consolidada sem o uso da violência? Novamente, temas relevantes para o debate atual em que caminhos democráticos e legalistas não têm tido sucesso em impedir o avanço do autoritarismo e da perda de direitos no cenário global.
E há, por fim, toda a questão filosófica e existencial da coisa, que é até pouco explorada, mas que ainda assim se faz presente. Por não se enxergar como humano, Charlie questiona o que é a humanidade com um distanciamento impossível para nós. Isso leva a confronto de conceitos profundos como o Ser e se existe uma natureza humana, assim como questões sociológicas, como o limite da agência.
Porém, como apontei anteriormente, a inclusão desses temas faz com que toda a história e sua execução sejam muito mastigadas. Personagens, diálogos e eventos na série são um tanto banais ou previsíveis. Muitos dos diálogos são fracos e não naturais. Neste ponto, apenas a natureza insondável de Charlie se mantém como um chamariz.
De toda forma, fica a recomendação de uma série com uma premissa e abordagem totalmente diferente, e que se permite essa liberdade em ser diferente para tocar em temas sensíveis. É perfeita, principalmente, para quem ainda tem preconceito com o formato anime, que é tão diverso quanto qualquer outro.
