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O Brasil rumo a Marte e ao hexa nas gigantes do streaming

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28.10.2021 - 11:43:30

Em “Gêneros Literários”, a pesquisadora Angélica Soares apresenta o problema dos gêneros literários sob o ponto de vista de suas transformações históricas, que oscilam entre as noções de fixidez clássica e hibridismo romântico, entre a normatividade e a descritividade. Dos apontamentos de Angélica Soares se constata que a incessante mobilidade social em suas diversas expressões científicas, tecnológicas e culturais incidem sobre os gêneros artísticos e literários em geral, promovendo mudanças de manifestação dos gêneros tradicionais e dos híbridos da modernidade.

A chegada do ser humano à lua em julho de 1969 representou um marco decisivo do ponto de vista científico e tecnológico para a civilização. Nas artes significou todo um campo temático que se consolidava em definitivo, uma vez que obras literárias e cinematográficas anteriores ao histórico evento da corrida espacial entre União Soviética e Estados Unidos já tratavam de aventuras humanas além das fronteiras da Terra. O número de produções literárias e cinematográficas desde o épico pouso lunar atinge na atualidade cifras impressionantes, que tendem a aumentar cada vez mais, pois o etos das viagens espaciais parece irreversível.

Assim, a partir da correlação entre esse novo dado cultural e o estudo dos gêneros literários e artísticos, pode-se estabelecer, no âmbito do hibridismo dos gêneros defendido pelos românticos do século 19 e teóricos posteriores, a definição conceitual de um novo gênero que se poderia denominar de “exopoética” ou “astropoética”, numa correlação semântica com a área da biologia que estuda as possibilidades de vida fora da Terra e que recebe a denominação de exobiologia ou astrobiologia.

Assim, o gênero exopoético, ou astropoético, seria representado por toda e qualquer produção literária e de outras artes que trate das aventuras humanas para além do pontinho azul perdido na imensidão do espaço e que chamamos de Terra. A literatura, em sua ficcionalidade científica, e o cinema, que de forma intersemiótica adapta diversas obras literárias ligadas a esse tema, revisitam os gêneros tradicionais, reelaborando-os no contexto da exopoética espacial, produzindo um sem número de obras dos mais diversos níveis de qualidade.

As gigantes do streaming, nova formatação de entretenimento que surgiu na esteira da extraordinária revolução tecnológico das últimas décadas, têm trazido a mancheias séries e filmes do gênero exopoético. Duas obras recentes destacam o Brasil, embora de maneira diversa, em suas narrativas de cunho astropoético.
 
O Oitavo passageiro de marte
Entre as estreias fílmicas do catálogo do serviço de streaming Netflix deste ano consta um filme do gênero exopoético dirigido por um brasileiro. Trata-se de “Passageiro Acidental”. Produção germânico-americana, a peça cinematográfica é dirigida por Joe Penna. O roteiro é coassinado por Penna, que divide os créditos com Ryam Morrison. Joe Penna, nascido Jônatas de Moura Penna, reinventou-se.

Nascido em São Paulo, no ano de 1987, Penna foi um dos pioneiros na função de youtuber no Brasil. Dono do canal MysteryGuitarMan, migrou para o mundo do cinema, desempenhando atualmente a função de cineasta. Até onde se sabe, a vida de youtuber não é fácil. Ter de produzir conteúdos que despertem o interesse e se tornem bem remunerados não é tarefa para qualquer um. Ao que parece, Penna realizou a façanha de migrar de plataforma criativa com maestria.

O roteiro de “Passageiro Acidental” é instigante. Em um futuro próximo, quando a humanidade já colonizou Marte, uma missão científica é enviada da Terra ao planeta vermelho. Após algum tempo no espaço, a tripulação descobre que um engenheiro de terra embarcou acidentalmente. Vítima de um acidente antes do lançamento, o passageiro acidental é encontrado e tratado de seus ferimentos. No entanto, logo se instaura o nó dramático. O suporte de vida é calibrado para o número exato de tripulantes da missão.

Após todas as tentativas de ajuste falharem, um dos membros do voo espacial terá de ser sacrificado. O espectador está diante de um laboratório maltusiano, com todas as implicações éticas decorrentes da sinistra realidade. Joe Penna traz para o plano de uma verossimilhança mais objetiva a narrativa exopoética da ficcionalidade científica de um clássico do gênero: “Alien, O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott, produção norte-americana de 1979. O monstro espacial de Scott também é um passageiro acidental.

A exemplo da subtenente Ripley, icônico papel interpretado por Sigourney Weaver, que tem de lutar contra o monstro que dizima a sua tripulação, os personagens do antigo youtuber brasileiro, por sua vez, têm de lutar contra os monstros interiores, no sacrifício de interesses próprios e da própria subsistência em benefício de uma humanidade necessária. “Alien, O Oitavo Passageiro” cumpre em relação a “O Passageiro Acidental” uma estranha alegoria, pois surge antes do que é alegorizado. Se a internet perdeu um grande youtuber, o cinema, por sua vez, ganhou um excelente diretor e roteirista.
 
A Copa do Catar, o Brasil e os Aliens
A Copa do Catar, prevista para ocorrer entre novembro e dezembro de 2022, será a 22ª edição do mais importante torneio de futebol do mundo. Tradicionalmente, a Copa do Mundo acontece em junho e julho. No entanto, as condições climáticas do Catar nesse período do ano tornam a prática do futebol inviável. O torneio da Fifa aparece nas cenas iniciais de mais uma produção exopoética, o filme “A Guerra do Amanhã”, que foi lançado pelo serviço de streaming da Amazon Studios.

A premissa do filme dirigido por Chris McKay e escrito por Zach Dean gira em torno de uma guerra que ocorre no futuro entre a civilização humana e uma raça alienígenas de feras espaciais carnívoras e violentas, espécie de pit bulls cósmicos que se soltaram de uma nave acidentada na Terra há muito tempo. Após longa hibernação, as feras despertaram no ano de 2051, destruindo grande parte da vida na Terra com a voracidade de gafanhotos.

Em 2022, todos assistem à final da Copa do Mundo do Catar, disputado entre a Seleção Brasileira de futebol e um time não identificado que se veste de azul marinho. O jogo está empatado. Nos minutos finais, o adversário do Brasil cobra um escanteio. Após o bate e rebate na área brasileira, a seleção canarinho consegue um excelente contra-ataque em que o jogador brasileiro de nome Peralta – possível brincadeira com o jeito driblador e moleque de Neymar – caminha em direção ao gol adversário totalmente livre e sem impedimento.

Quando se aproxima da grande área, abre-se um portal de onde saem soldados armados que aproveitam a oportunidade para comunicar ao mundo a sinistra realidade que o aguarda daí a alguns anos. Pouco antes da abertura do portal, o herói que salvará o mundo no futuro, interpretado por Chris Pratt, diz à filha que aqueles jogadores, os brasileiros, eram os melhores do mundo, excepcionais naquilo que faziam, o que serve de discurso motivacional para a garota na sequência do filme.

Assim, segundo o roteiro de “A Guerra do Amanhã”, o Brasil estará na finalíssima da Copa do Catar. Pena que o portão dimensional não tenha sido aberto alguns anos antes, mais precisamente em 2014, exatamente antes de a Alemanha cobrar o escanteio, no Mineirão, que abriria a fatídica goleada de 7 a 1. 
 
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.

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por Gismair Martins Teixeira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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