Na raiz dos problemas ambientais que enfrentamos estão a lógica de curto prazo inerente ao mercado e as assimetrias de poder econômico e político, que possibilitam impor ônus a muitos para que poucos extraiam benefícios de certas ações.
Há também, entretanto, um terceiro problema — de ordem política e discursiva — que contribui para a resistência da sociedade em empreender esforços para mudar os padrões produtivos e de consumo que levam aos desequilíbrios ambientais. As questões ambientais são muitas vezes enquadradas de maneiras que as colocam distantes da vida cotidiana das pessoas e, sobretudo, de sua capacidade, como indivíduos, para agir e promover mudanças.
Um exemplo que tem mostrado isso de forma cada vez mais clara é o das mudanças climáticas. Não há dúvida sobre sua gravidade, mas o foco quase exclusivo do debate público nos aspectos globais dessas transformações — e, consequentemente, na necessidade de um enfrentamento também em escala global do problema — imobiliza e aliena as pessoas. Se o problema é global e precisamos reduzir as emissões para que a temperatura não suba mais que 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, é fácil chegar à conclusão de que, como indivíduos, não nos resta muito a fazer, exceto nos conformarmos.
Na política do clima, essa abordagem leva também à ênfase nas ações de mitigação, isto é, aquelas mudanças nos padrões de produção e consumo que geram redução de emissões — transição energética, com diminuição dos combustíveis fósseis, tecnologias que sejam mais eficientes no consumo da energia, contenção do desmatamento etc.
Embora esteja começando a mudar, isso faz com que os recursos financeiros mobilizados se concentrem nessas ações: no estímulo ao uso de fontes alternativas de energia, em carros elétricos, ônibus menos poluentes e assim por diante.
E a verdade é que, embora tudo isso seja importante, muda pouco a maneira pela qual as mudanças do clima são sentidas pelas pessoas em seu dia a dia e, uma vez mais, não as conecta ao problema.
Por isso, tenho insistido que o debate político, em especial nas cidades, precisa mudar sua ênfase e passar a priorizar o debate sobre adaptação. As mudanças do clima já chegaram, e quem as sente de maneira mais direta são as pessoas mais vulneráveis — trabalhadores que usam o transporte público e sentem de perto os efeitos do calor, gente que trabalha a céu aberto e é mais afetada por esse calor e pela poluição do ar com a intensificação das queimadas, moradores de áreas de risco ameaçados pelas chuvas mais intensas e pelo escoamento concentrado que gera inundações cada vez mais catastróficas.
Discutir como podemos nos adaptar às mudanças do clima conversa diretamente com essas pessoas — em oposição ao debate global sobre mitigação, que soa sempre distante e elitizado. Mais que isso, traz esse debate para o plano local e para o cotidiano, ligando o problema a mudanças que as pessoas reconhecem em suas vidas e empoderando-as para tomarem parte na política e nas decisões necessárias.
Enquanto o debate global é visto como arena exclusiva do saber de cientistas e ativistas, o engajamento local abre imediatamente a porta para o conhecimento dos cidadãos — pois ninguém melhor que eles para falar sobre como enfrentar e aliviar seus próprios problemas —, colocando esse conhecimento em pé de igualdade e em possibilidade de diálogo franco e honesto com o saber técnico-científico.
Há temor por parte dos cientistas e ambientalistas de que essa mudança de ênfase — da mitigação para a adaptação — enfraqueça a briga pela transição energética e pela responsabilização dos grandes emissores, sobretudo a indústria do petróleo. Penso que, ao contrário, quanto mais as pessoas, via discussão sobre impactos locais e adaptação, se conectarem ao problema climático, mais esse outro lado da equação tende a se fortalecer.
Em artigo científico recém-publicado com colegas da Universidade Federal de Goiás, compilamos todo o conhecimento hoje existente sobre o efeito das queimadas na Amazônia sobre a saúde. Para além de seu impacto sobre o aquecimento global, com emissões anuais de milhões de toneladas de gases que provocam o efeito estufa, os incêndios florestais na região são um grande problema nacional de saúde pública. O material particulado emitido no Arco do Desmatamento viaja milhares de quilômetros e afeta diretamente a qualidade de vida de pessoas em quase todo o Brasil e grande parte da América do Sul.
Para se ter uma ideia, uma pesquisa liderada pela Universidade Monash, na Austrália, concluiu que 0,53% de todas as internações hospitalares por todas as causas no Brasil — cerca de 73.500 hospitalizações por ano — podem ser atribuídas aos poluentes resultantes das queimadas somente na Amazônia, sem contar aquelas que ocorrem no Cerrado e em outros biomas. São centenas de milhões de reais em despesas para o Sistema Único de Saúde anualmente.
A discussão sobre adaptação às mudanças climáticas necessariamente leva à questão da saúde, que mobiliza as pessoas de forma muito mais direta. É autoevidente a conexão entre a bronquite da criança e a poluição do ar durante a seca. Nessa direção, torna-se muito mais fácil fazer do clima um tema de interesse das pessoas.
Os problemas ambientais de um modo geral ganharam a esfera pública numa perspectiva global. A Terra é um sistema integrado e fechado que estamos desestabilizando. Mas, enquanto não formos capazes de virar essa chave e trazer esses problemas para a mais local das esferas, saindo do discurso apocalíptico e validando os conhecimentos das pessoas para sua abordagem, o curto prazo econômico e as assimetrias de poder continuarão fomentando padrões insustentáveis de produção e consumo.

concordo e digo mais as pessoas deixam de plantar, deixam de cuidar da água que escorre das torneira, do seu lixo diario, da sua saude propria comendo comida de verdade em vez de comer pacotinho prontos, faceis mas danosos ao corpo