Zurique, Suíça – Nessa época, as minhas saudades ficam mais leves. Não desaparecem, marcam presença na noite de Natal, mas tornam-se bastante suportáveis devido ao Advento. Em latim Adventus, que significa “o que está por vir” ou, simplesmente, o há-de-vir. É o período de quatro semanas que antecede o Natal, durante o qual são realizados nos países de cultura germânica, de forma intensa e acolhedora, rituais e comemorações pré-natalinas.
Já em Novembro, quando os dias começam a ficar mais escuros e frios, diversas festas de origem pagã, tomam conta do nosso dia-a-dia. A primeira é um desfile de crianças ao anoitecer, carregando um pequeno lampião feito por elas próprias. Para fazê-lo, usam um legume, que poderia ser descrito como um rabanete gigante.
A festa chama-se “Räbeliechtliumzug”. Não se assustem com esse palavrão… “Räbe” é o nome do rabanete, “licht”, significa luz e “umzug” é desfile. Ou seja, “desfile com luz de rabanete”, nada mais óbvio. Alemão é pura objetividade, quase poesia concreta.
Nos primeiros anos, ficava completamente frustrada e desesperada por não poder ajudar meus filhos a esculpir seus lampiões, como outras mães na escola, que produziam na maior rapidez pequenas obras de arte. Na primeira vez, meu filho pediu que esculpisse um pinguin, um peixe e uma girafa.
Minhas mãos suavam frio, diante do seu olhar cheio de expectativa. O pinguim parecia uma baleia, o peixe, um peixe mesmo e a girafa, algo como uma cadeira com rabo. Para disfarçar minha falta de talento, rabisquei algumas estrelinhas em volta dos animais e ele saiu todo orgulhoso com seu lampião, passeando entre os coleguinhas.
Esse desfile, é uma festa muito bonita, arcaica. No meio da escuridão, pequenos vultos carregam suas luzinhas, balançando no vento frio da noite. Algumas cenas são dignas do melhor romantismo do século XVIII.
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| (Foto: divulgação/Räbelichtli) |
Os lampiões, esculpidos com todo o cuidado, acesos por uma vela, atravessam ruas, praças, parques, florestas. Em algumas regiões, são milhares de criança.
No final, acende-se uma grande fogueira, faz-se um piquenique e as crianças cantam músicas anunciando a chegada do inverno, agradecendo a colheita do outono.
Depois disso, é o momento de se fabricar suas próprias velas. Algumas são feitas com cera de abelha e cheiram deliciosamente a mel. Em barracas de lona – montadas pelas associações de bairros e escolas – é possível criar velas de vários tamanhos e cores, que serão guardadas para o próximo Natal.
Também, nesse momento, o mais importante é a celebração coletiva. Os organizadores, normalmente pais das crianças, fazem bolos, chás e passam a tarde fugindo do frio em volta dos potes de cera quente.
É um trabalho que exige muita paciência. Um barbante amarrado no dedo é mergulhado repetidamente na cera até que atinja o tamanho e a forma desejada.
De tempos em tempos, é preciso fazer uma pausa, sair da barraca e pendurar a vela para esfriar. Nesse momento, as crianças brincam de correr na neve, os adultos aproveitam para bater papo e também brincam de enfeitar suas velas com folhas, gravetos, flores. Mais uma vez, o trabalho simples e manual serve para enganar o frio e a escuridão precoce.
Essas festas são apenas um presságio do verdadeiro Advento. Exatamente quatro domingos antes do Natal, prepara-se uma guirlanda de ciprestes, decorada com fitas, pinhas, enfeites natalinos e quatro grandes velas. São as quatro velas do Advento. É o ritual mais importante de todos – a cada domingo uma delas será acesa, enquanto todos sentam-se a sua volta para cantar, ler estórias ou simplesmente conversar.
O corpo e o espírito vestem-se para atravessar o inverno. Visita-se amigos e parentes, bolos e biscoitos são assados e oferecidos em saquinhos aos vizinhos e conhecidos, toma-se vinho quente com canela, frequenta-se feiras de Natal cheias de especiarias. E no último domingo, quando a última vela é acesa, fecha-se um ciclo de quatro semanas de festas e confraternizações.
Dezembro é também o mês do “Calendário do Advento”. Tanto adultos quanto crianças ganham um calendário especial, cheio de pequenas surpresa. Atrás de cada data, esconde-se minúsculas imagens de estrelas, animais, jogos ou ainda, pequenos objeto de verdade, poemas, receitas, chocolates.
O calendário é normalmente ilustrado com cenas natalinas bem tradicionais. Mas algumas pessoas mais criativas fabricam seus próprios modelos, feitos com saquinhos de pano, caixas de fósforo, rolinhos de papel ,meias… Enfim, tudo é permitido
A verdadeira surpresa porém acontece no dia 6 de dezembro, quando o Papai Noel ou “Samichlaus”, sai de sua casinha na floresta, acompanhado de um burrinho e seu ajudante.
Ele não traz presentes – isso é trabalho para o Menino Jesus no dia 24 – ele carrega apenas um saco de estopa cheio de antigas guloseimas, tangerinas, nozes, maçãs e chocolates. E para que nenhuma criança fique de fora, uma associação de voluntários, especialmente treinados, visita a pedido dos pais, cada criança em sua casa.
No início das comemorações, centenas deles fazem um desfile no centro da cidade, orgulhosos de seu trabalho – uma tradição passada de pai para filho. Na frente, caminha o Rei dos Papais Noéis, o mais idoso deles, de barbas verdadeiramente longas e brancas.
(Foto: C. Di Guimarães©)
