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(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Entre bancas e madrugadas, histórias atravessam gerações no Setor Oeste

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20.02.2026 - 18:07:39

Carolina Pessoni

Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e sextas-feiras, das 8h às 13h, a Rua 29, na esquina com as ruas 1 e 4, se transforma no território da Feira Dom Bosco, uma das feiras livres mais tradicionais da capital.

Instalada atrás do prédio da antiga Assembleia Legislativa de Goiás, a Dom Bosco integra o circuito de feiras regulamentadas pelo município e mantém a lógica que marcou a formação urbana de Goiânia: comércio a céu aberto, contato direto entre vendedor e cliente, circulação de alimentos frescos e relações que se constroem ao longo de décadas. Ali, mais do que mercadorias, circulam histórias.

Cores da Feira Dom Bosco mudam a paisagem do Setor Oeste semanalmente (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

Embora não exista um levantamento histórico formal publicado especificamente sobre a origem da Dom Bosco, o registro de sua rotina semanal e de bancas com mais de cinco décadas de funcionamento, indica sua importância como referência local de trabalho e sociabilidade na região

Mais de meio século de história
Nilza Aparecida Martins trabalha na Feira Dom Bosco há 55 anos — sempre no mesmo ponto, sempre com os mesmos produtos: queijos e doces. A escolha não foi casual. Veio do pai, também feirante, de quem herdou o ofício e a tradição.

“Se tornou uma tradição de família. Começou com meu pai e todos os filhos seguiram o mesmo caminho, vendendo queijo”, resume, ao explicar por que nunca mudou de atividade.

Entre um “bom dia” e um sorriso estampado no rosto, Nilza cumprimenta vários de seus fiéis clientes pelo nome. Em mais de meio século atrás do balcão, construiu uma clientela que atravessa gerações. “Tem freguês aqui de mais de 50 anos”, afirma.

Nilza Aparecida Martins tem clientes fiéis em sua banca, que já completou 55 anos na feira (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

Para ela, o trabalho na feira sempre foi tranquilo, mas muito gratificante. Foi ali que estruturou a vida, criou os dois filhos e manteve viva a tradição iniciada pelo pai. Os filhos não seguiram no ofício, mas a banca permanece como continuidade direta de uma história familiar iniciada décadas atrás.

A poucos metros dali, Rosângela Rodrigues soma 39 anos de atuação na Dom Bosco. Ela lembra que a feira começou em outra rua e, posteriormente, foi transferida para o ponto atual. Trabalha às terças e sextas na feira e também aos sábados em outros bairros da cidade.

Desde o início, vende frutas. O abacaxi foi a escolha inicial, influenciada pela experiência do marido, que ajudava os pais na venda de melancia, abacaxi e laranja antes do casamento. Depois de casados, optaram por manter o abacaxi como principal produto.

Abacaxis e melancias são as especialidades da banca de Rosângela Rodrigues há quase 40 anos (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

A melancia passou a integrar a banca durante a pandemia, quando as feiras foram suspensas e ela precisou adaptar a rotina. Passou a fazer entregas em domicílio para manter os clientes. “Eles pediam melancia e, quando pudemos voltar com a feira, mantivemos na nossa banca”, conta.

A estratégia permitiu preservar a clientela formada ao longo de décadas. “Formei os filhos com feira. São dois, um casal”, afirma. Ela recorda as madrugadas de trabalho e os filhos pequenos dormindo debaixo da banca. “Foram feirantes enquanto bebês”, brinca. Hoje, ambos têm negócios próprios e não seguiram a atividade dos pais.

Na Feira Dom Bosco, a rotina se repete há décadas: descarregar caixas, organizar bancas, receber fregueses antigos pelo nome. Em meio ao comércio cotidiano, permanecem histórias de trabalho contínuo, tradição familiar e adaptação, marcas que ajudam a compreender o papel das feiras livres na história urbana de Goiânia.

Organização pós-feira
Todas as feiras livres e especiais de Goiânia recebem atenção permanente da Prefeitura, por meio da Companhia de Urbanização (Comurg), que executa a limpeza programada e o recolhimento de resíduos orgânicos nas centenas de feiras espalhadas pela capital. Entre os pontos de atuação está a tradicional feira Atheneu Dom Bosco, no Setor Oeste.

Equipe da Comurg entra em cena para organizar a rua após o fim da feira (Foto: Luciano Magalhães)

Quando o último cliente se despede, entram em cena as equipes da Comurg. Onde antes havia o colorido das bancas e o aroma do pastel recém-frito, surgem sacos, caixas e restos orgânicos que exigem ação imediata. É nesse momento que o trabalho firme e dedicado dos garis da Comurg transforma o cenário: varrem, recolhem e devolvem ao espaço público a dignidade que permite que tudo recomece no dia seguinte.

A equipe de varrição com homens e mulheres manejam vassouras como se regesse uma sinfonia de limpeza, transformando o caos de papéis e cascas em um espaço limpo. Em seguida, os caminhões da coleta orgânica passam para levar embora a matéria. Essa logística evita que o lixo espalhado entupa bueiros e garante que a alma da rua permaneça livre de fardos.

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por Carolina Pessoni

*Jornalista formada pela UFG, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing também pela UFG

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