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24.02.2026 - 09:00:43

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso.

Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. “É preciso fazer do sintoma um estilo” — já disse algum psicanalista —, e meu estilo é o da pergunta, o da contradição. Não gosto do “é”, prefiro o “talvez”, o “e se”, o “mas”. Afinal, a vida é tentar gerir, da melhor forma possível, forças contraditórias que nos puxam em direções opostas, é a busca de sínteses sempre provisórias e precárias em meio a uma realidade complexa e que resiste a simplificações.

Isso resulta, sei bem, em uma postura e um jeito de pensar que não está na moda — acho que nunca esteve, mas os algoritmos reforçam a preferência pelos binarismos e pelas exclusões, premiando quem afirma categoricamente, quem simplifica, quem lacra e encerra o debate, em vez de abri-lo e torná-lo mais complexo.

O resultado é uma arena pública paradoxalmente cada vez mais repleta de opiniões, mas cada vez mais débil, pois já praticamente não há escuta — só falamos e falamos em um diálogo de surdos cada vez mais barulhento. Resta só o ruído, todo o sinal perdido na cacofonia.

Tenho sentido, por isso, vontade de falar menos — menos quantidade e, quem sabe, oremos, mais qualidade. Por isso, doravante, essa coluna se torna quinzenal. Espero, assim, conseguir planejar mais e dedicar um tempo um pouco maior à construção dos textos. Não quero reagir no reflexo ou improvisar. Precisamos desacelerar o pensamento e as conversas.

A coluna passa também a ter um foco mais específico: ciência e meio ambiente. Com isso, muda de nome e passa a se chamar, a partir da semana que vem, “Laboratório Público”, com o subtítulo: “Ciência, política e meio ambiente”.

Quando comecei, há quase três anos, a partir do generoso convite de A Redação, mesmo nunca me restringindo a esse assunto, meus interesses gravitavam essencialmente em torno do cinema — daí o nome “Projetor”. De lá para cá, comecei um doutorado em ciências ambientais, retomei velhas afinidades e ideias e mergulhei de cabeça na reflexão e no debate sobre a ciência e seu papel na sociedade — tema que, tenho certeza, é dos mais importantes de nossa época.

O foco, portanto, vem naturalmente, e me ajuda a disciplinar um pouco a variedade ampla de interesses e a afastar o risco do generalismo e da superficialidade. Textos sobre outros assuntos, imagino, não deixarão de existir, mas se tornarão mais eventuais e aparecerão no Substack, assim como a newsletter quinzenal Entrelinhas. Ela virá em semanas alternadas com a coluna, trazendo leituras, filmes e outros itens interessantes que cruzem meu caminho.

O foco estará menos em divulgar ciência, e mais em mostrar e discutir, de diferentes maneiras, seu papel social e cultural.

O mundo em que vivemos é impensável sem a ciência. Ele foi criado por ela, por sua filha dileta, a tecnologia, e por sua irmã gêmea, uma política estruturada em torno da tecnocracia e da ideia da gestão racional do bem comum. Por isso, ciência e política não podem ser adequadamente compreendidas em separado: elas se produzem mutuamente.

Isso é mais que dizer que a política influencia os rumos da ciência ou mesmo que “a corrompe” (uma ideia bastante em voga); é mais que dizer que o conhecimento científico orienta a tomada de decisões na esfera pública. É dizer algo difícil de entender e absorver e que, no entanto, é fundamental para o debate contemporâneo: não se produz conhecimento sem produzir organização política, e não se muda organização política sem transformar o conhecimento.

Aceitar essa ideia dá um nó na cabeça porque fomos ensinados a achar que a ciência é um mero espelho do mundo: ela observa a realidade lá fora e registra fatos. A política, por sua vez, seria uma esfera separada que, funcionando bem, se apropria desses fatos para gerir a algaravia das opiniões e conflitos humanos.

Essa visão foi e ainda é fundamental para manter em pé o mundo em que vivemos, mas ela está ruindo. Seus efeitos colaterais se acumulam — tecnologias que geram bônus privados e ônus socializados, desigualdade social, impactos ambientais e na saúde, e também cada vez mais desconfiança da própria ciência e da tecnocracia que toma as decisões em nome do dito “bem comum”. As várias formas de negacionismo e autoritarismo que testemunhamos são reações a esse arranjo corroído — reações compreensíveis, ainda que equivocadas e perigosas.

Isso não quer dizer que precisemos de menos ciência ou menos política. Ao contrário, precisamos de mais política e precisamos da ciência no lugar certo: ciência como produtora de conhecimento que informa decisões, mas sem substituir o debate democrático sobre valores. Para isso, precisamos sobretudo entender que essas duas esferas da vida humana são inseparáveis e jogar luz sobre suas relações com mais transparência — transparência de métodos e das relações na produção do conhecimento, transparência e participação nas tomadas de decisão tecnocráticas.

A questão ambiental, desde meados do século passado, foi o que abriu essa caixa-preta, expondo os impactos complicados da introdução apressada e pouco transparente de tecnologias em nosso mundo — agrotóxicos, energia nuclear, petróleo, etc. Foi por meio dela que se escancaram as contradições e a hipocrisia entre os propalados benefícios das tecnologias e os ônus seletivos impostos sobre partes da sociedade.

Por isso, faz muito sentido que a coluna incorpore a questão ambiental à reflexão sobre ciência e sociedade. Nem sempre a conversa passará pelo meio ambiente, mas será inevitável trazê-lo ao debate volta e meia.

A questão fundamental de nosso tempo é, afinal, o que queremos dizer quando falamos nesse tal “bem comum” em nome do qual tantas decisões são tomadas sem a devida transparência? E quem pode falar em nome dele? A ciência é parte dessa conversa, mas não sua porta voz, como não devem ser os tecnocratas.

Nossa missão atual reside justamente em tentar reinventar a engenharia pela qual ciência e política constroem nosso mundo comum: com uma ciência que não substitui a democracia ou a enfraquece e que, por isso, é mais humilde, mais lenta e mais aberta, uma ciência que sai da torre de marfim e se coloca sem medo na arena pública para ouvir e ser ouvida em pé de igualdade. Em vez de uma ciência que pretende encerrar os debates, uma ciência que não tem medo de expor suas controvérsias e hesitar — o que não significa tratar toda dúvida como equivalente ou negar consensos bem fundamentados como o das mudanças climáticas.

Enfim, em vez de uma ciência que dá respostas definitivas, uma ciência por meio da qual olhamos juntos para o mundo, dizendo: “talvez”, e nos perguntando: “e se?”

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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