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Uma Cartografia de Influências

Como livros e filmes desenharam minha imaginação — do mistério à travessia

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17.02.2026 - 08:50:45

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões.

Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de obscuridade. Em histórias como “O Cão dos Baskerville” e “A Banda Pintada”, o medo vinha sempre acompanhado da promessa de inteligibilidade: mesmo o que parece sobrenatural pode ser decifrado por uma mistura adequada de razão e imaginação. Ali, nasceu uma certa obsessão pela investigação, que aparece nos filmes e na escrita, como forma de indagar o mundo, e na ciência, como caminho para iluminá-lo, ainda que de forma precária e provisória.

Poucos anos depois, Os Goonies, filme de Richard Donner, fez minha mente explodir ao mostrar que a aventura podia irromper no quintal de casa. Ao lado de O Menino no Espelho, livro de Fernando Sabino, ensinou que o cotidiano é apenas a superfície de algo mais vasto. Se Holmes sugeria que é possível ordenar o caos, Os Goonies e Sabino mostraram que o mundo comum é atravessado por passagens secretas.

Com J. R. R. Tolkien vieram a escala mítica e a espessura do tempo. O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion ampliaram o horizonte: não apenas o mistério, mas o mundo e o humano vistos a partir das forças míticas que os compõem: bem e mal, luz e trevas, amor e ódio. Ao mesmo tempo, relatos como A Expedição Kon-Tiki, A Incrível Viagem de Shackleton, O Rio da Dúvida e Cem Dias entre Céu e Mar mostravam que a aventura não era apenas fantasia: ela podia ser radicalmente real. A travessia do Pacífico numa jangada de balsa, sobreviver ao frio antártico ou à Amazônia profunda, a solidão do Atlântico Sul a remo eram versões concretas dos mesmos impulsos míticos.

Na adolescência, os filmes de Alfred Hitchcock, sobretudo Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai, aguçaram o gosto pelo olhar e pela observação. Se Conan Doyle falou sobre as possibilidades da razão diante do mistério, Hitchcock mostrou que o desejo e a obsessão distorcem qualquer certeza. 

Aos 25 anos, a leitura de Grande Sertão: Veredas foi um abalo sísmico. João Guimarães Rosa conseguiu ser simultaneamente localíssimo e universal. Riobaldo transforma o sertão em problema metafísico: o mal existe? o diabo existe? O romance retoma, em outra chave, a velha pergunta do mistério, mas agora sem a garantia de solução racional. A investigação torna-se travessia interior.

Algo semelhante ocorre em Zen e a Arte de Manutenção das Motocicletas, de Robert Pirsig: viagem e reflexão se entrelaçam. A estrada concreta e a discussão sobre “qualidade” mostram que pensar é também percorrer distâncias. Talvez por herança paterna, talvez por afinidade íntima, esse híbrido de narrativa e ensaio se tornou um modelo secreto: mover-me fisicamente para pensar melhor.

Com o tempo, as tragédias ganharam densidade. Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, e Macbeth, de William Shakespeare, exploram o ponto em que o desejo se converte em ruína. Se antes o mistério era externo — um crime, um tesouro, um planeta — aqui ele é moral: do que somos capazes?

Essa pergunta ecoa em Solaris, de Stanislaw Lem. O oceano vivo que materializa culpas e traumas transforma a exploração científica em confronto íntimo. O desconhecido não está apenas no cosmos, mas na memória e na linguagem. A ciência encontra seus limites, a razão, sua insuficiência.

Por fim, há os filmes de amor marcados pela incomunicabilidade: Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-wai, e Blue Valentine, de Derek Cianfrance. Neles, o enigma já não é policial, épico ou metafísico, mas afetivo. O outro permanece indecifrável, o encontro, precário.

O fio que costura tudo talvez seja esse: uma fascinação persistente pelo mistério — ora solucionável, ora insolúvel — e pela travessia. Do detetive ao navegador, do hobbit ao jagunço, do astronauta ao amante, há sempre alguém tentando atravessar um território opaco. Se essas obras formam um mapa, ele aponta para isso: investigar, viajar, amar e narrar são modos diferentes de enfrentar o mesmo enigma fundamental de estar no mundo.

 

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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