Logo
"Fonte das Quatro Nanas" (foto: reprodução)

Nanas da Niki

WhatsAppFacebookLinkedInX
31.05.2026 - 08:46:40
A “Fonte das Quatro Nanas” é uma obra da artista francesa, Niki de Saint Phalle doada, em 1999, para a Pinacoteca de São Paulo.
O filme com seu nome, “Niki” (2024), dirigido por Cèline Sallette foi baseado na história real da vida da artista abordando os abusos cometidos por seu pai, sua passagem por clínicas psiquiátricas, os tratamentos com eletrochoque, o casamento com o escritor Harry Mathews e o encontro com o meio artístico europeu.
A transformação, ao longo do tempo, de todo seu processo criativo que deu voz à uma catarse pessoal, crítica social e à um certo tipo de violência performática, culminou para emergir numa explosão colorida, alegre, feminina, mítica e onírica.
Niki é um surpreendente modelo de superação traumática, que fez a escolha por uma produção fértil e brilhante à se vitimizar na sombra dos sofrimentos e angústias da vida. Ela compreendeu que a dor foi apenas um trampolim para impulsionar seu imaginário, sua força libertária, disruptiva e cheia de vida.
“Existe também uma dimensão arquetípica muito forte nessas entidades femininas.
Muitas leituras associam as Nanas às antigas deusas-mãe pré-históricas, como a Vênus de Willendorf: figuras fecundas, ancestrais, ligadas à fertilidade, ao corpo e à terra” (Wikipédia)
A palavra ‘nana’, em francês coloquial equivale mais ou menos à garota, mina, ou moça. No inglês, ‘nana’ é como a ‘nonna’, do italiano, que significa vovó.
O termo onomatopéico: “nana nenem”, se estende ao verso da carinhosa cantiga de ninar, que permeia o universo materno.
Há ainda a divinidade Nanã, que é conhecida na mitologia yorubá como a orixá mais antiga e sábia, da cultura afro-brasileira.
Se valer da investigação de um singelo termo para identificar a profunda pesquisa desta artista, pode estar co-relacionada ao inconsciente coletivo e a sincronicidade ideológica de sua intrigante trajetória, visto que a artista se consagrou como uma “Gaudí francesa”. Um histórico artístico, cuja obra se integrou à arquitetura em instituições, parques, instalações escultóricas além de outras fontes com formatos orgânicos, assimétrias, mosaicos místicos e inconformistas.
Transcender a dor e transmutá-la em bem-estar é trabalho para poucos. Conquanto, há um descuidado circuito de ideias tendenciosas que insistem em propagar um terrorismo, o medo, a insegurança, a feiura, a militância conflituosa entre raças, gêneros, religiões e políticas, o que inverte, deliberadamente, os princípios básicos e nobres da arte.
Já diziam os céticos: “a Arte vem beneficiando mais o artista, que o artista beneficiando a Arte”. No entanto, o verdadeiro sentido deveria ser exatamamente o oposto.
Afinal, transformar o trágico em algo benéfico é bem mais difícil que o contrário. Ainda bem que a Niki (e outras seletas mulheres pelo mundo, inclusive as brasileiras presentes na Bienal de Veneza) persistem em manterem as “Nanas” nos seus devidos lugares de honra de deusas-mãe.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Tatiana Potrich

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.09.2026
Sebrae premia profissionais da comunciação em noite dedicada ao jornalismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Prêmio Sebrae de Jornalismo realizou a solenidade de premiação em reconhecimento a produções jornalísticas que abordam temas ligados ao empreendedorismo e aos pequenos negócios. O Jornal A Redação conquistou o 2º lugar na etapa estadual da 13ª edição do prêmio, no evento que ocorreu na noite desta terça-feira (15/9), na […]

Meia Palavra
16.09.2026
‘The Ghost in the Shell’ finalmente dá tratamento fiel a clássico cyberpunk

Terminou na semana passada a adaptação em 10 episódios de The Ghost in the Shell, baseada no mangá de mesmo nome, publicado por Masamune Shirow nos anos 1980. A obra foi extremamente influente e ganhou uma adaptação na qual o diretor Mamoru Oshii tomou amplas liberdades, em forma de filme animado, em 1995, que, por […]

Laboratório Público — Ciência, política e meio ambiente
15.09.2026
Sem apocalipse ou redenção

A Inteligência Artificial ganhou novamente as manchetes essa semana com dois fatos em sequência: a demissão de Jacob Coxon da Anthropic, empresa responsável pelo Claude, e o texto de Dario Amodei, fundador da mesma empresa, alertando para a necessidade de diminuir o ritmo de avanço da IA. Coxon já trabalhara na OpenAI, a fundação responsável […]

Noite e Dia
14.09.2026
Gusttavo Lima reúne milhares de goianienses no ‘Buteco Para Sempre’; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Gusttavo Lima se apresentou em Goiânia no último sábado (12/9) para comandar o festival Buteco Para Sempre, no estacionamento do Estádio Serra Dourada. O evento também contou com shows de Leonardo, Diego & Victor Hugo, Calcinha Preta e João Bosco & Vinícius. No repertório, o público entoou músicas antigas e novas […]

Curadoria Afetiva
13.09.2026
Práticas terapêuticas

A imagem que ilustra meu texto deste domingo são as obras esculpidas em argila pela caprichosa arquiteta, Fernanda Ogata. Seu design e delicadeza, que descendem da ancestralidade japonesa, destacam o impecável resultado de suas peças e a exímia habilidade nipônica, do fazer artesanal. Não há como não vangloriar também, a influência da tropicalidade brasileira explícita […]

Noite e Dia
11.09.2026
Beco da Codorna: quando a arte encontrou um lugar no coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há lugares que parecem existir à margem da cidade, escondidos entre fachadas, galerias e grandes avenidas. No Centro de Goiânia, alguns deles são os becos. Espaços estreitos, muitas vezes destinados originalmente a serviços e circulação, que ao longo das décadas ganharam diferentes usos e, em alguns casos, passaram a integrar a […]

Noite e Dia
10.09.2026
Evento para convidados abre Festival da Cachaça de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Um encontro para convidados marcou a abertura da primeira edição do Festival da Cachaça de Goiás, nesta quarta-feira (9/9). Realizado no Flamboyant Hall até domingo (13), o evento reúne uma série de programações ao longo de cinco dias, com entrada gratuita e atividades voltadas tanto para profissionais da cadeia produtiva quanto […]

Meia Palavra
09.09.2026
‘A Morte de Robin Hood’ mistura redenção com a desconstrução de um personagem clássico

Antes de ver este filme, a principal crítica que vi da audiência foi a de que era o filme “mais chato do mundo”, o que diz mais sobre o estado do público hoje do que sobre o filme em si. Em A Morte de Robin Hood, acompanhamos os momentos finais do famoso fora da lei, […]