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(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

Mural de D.J. Oliveira atravessa gerações e é marco em Goiânia

Obra reúne arte, fé e uma rara história de reconstrução conduzida pelo próprio artista

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26.06.2026 - 18:05:06

Carolina Pessoni

Goiânia – Há obras que ajudam a contar a história de uma cidade, outras conseguem preservar, ao mesmo tempo, a memória de um artista, de uma instituição e de uma tradição. É o caso de “O Sonho de Dom Bosco”, painel monumental instalado na fachada do Instituto Maria Auxiliadora, na Praça do Cruzeiro, no Setor Sul – região central de Goiânia. Assinada pelo artista plástico D.J. Oliveira, a obra tornou-se um dos mais importantes murais da capital e sintetiza uma característica marcante de sua produção: transformar grandes superfícies em narrativas carregadas de simbolismo.

Quem observa o painel talvez não imagine que a versão atual é resultado de uma das histórias mais singulares da arte goiana. A primeira obra foi concluída em 1983, em técnica de afresco. Segundo o biógrafo, gestor e produtor cultural PX Silveira, a execução despertou grande curiosidade entre os goianienses. “O D.J. Oliveira era muito conhecido e todos esperavam com grande expectativa para ver o que ele estava fazendo por detrás da lona que cobria o andaime onde trabalhava”, relata.

Poucos anos depois, no entanto, D.J. Oliveira constatou que o mural apresentava problemas irreversíveis decorrentes da estrutura da parede onde havia sido executado. Após exames técnicos, o próprio artista condenou a permanência do afresco e tomou uma decisão incomum: destruir sua criação para reconstruí-la utilizando um material mais resistente. A escolha provocou intenso debate na época. Enquanto restauradores defendiam a possibilidade de recuperação da pintura original, D.J. sustentava que a deterioração comprometia definitivamente a obra.

Para PX Silveira, a decisão foi radical, mas coerente com o compromisso do artista com a qualidade e a permanência de seu trabalho. “Depois de pronto, o painel sofreu com uma infiltração que vinha do interior da fachada. D.J. Oliveira optou por uma ação radical: ao invés de reparar os locais atingidos, resolveu raspar todo o painel e começar tudo de novo, mas dessa vez na técnica da cerâmica”, explica.

 

Fachada do Colégio Maria Auxiliadora (Foto: Reprodução)

 

A discussão ganhou espaço na imprensa goiana entre 1993 e 1996 e envolveu especialistas, representantes do poder público e profissionais da área de conservação. Ao fim, prevaleceu a proposta do artista e o mural seria refeito, preservando integralmente a composição original, mas executado em azulejos vitrificados, capazes de oferecer maior durabilidade.

A reconstrução durou quatro anos e só foi possível graças ao apoio de patrocinadores mobilizados para viabilizar o projeto. Inaugurada em 23 de setembro de 1996, a nova versão passou a ocupar cerca de 160 metros quadrados da fachada da escola, composta por aproximadamente 3.600 peças cerâmicas pintadas individualmente pelo artista. As imagens permaneceram as mesmas, a principal mudança ficou por conta da paleta de cores, que substituiu os tons terrosos da primeira versão pelos azuis que caracterizam o painel até hoje, quase 30 anos depois.

Silveira conta que cada uma das pequenas peças cerâmicas foi pintada por D.J. Oliveira e levada ao forno antes de seguir para Goiânia. “A pintura foi feita nas pequenas peças de cerâmica, que eram queimadas a mais de 800 graus em um forno apropriado que ele tinha em seu ateliê, em Luziânia. Depois eram trazidas para Goiânia e assentadas na fachada. E, de novo, criou-se a expectativa pelo trabalho finalizado, visto que o D.J. só deixou ver a obra depois de pronta”, afirma.

Para o pesquisador, a mudança da técnica também trouxe ganhos estéticos. “De um painel em policromia na primeira versão, ele se tornou um painel monocromático, o que proporcionou um resultado ainda melhor que o anterior, pois são muitos os elementos que compõem a obra, concorrendo entre si, mas dessa vez sem o tumultuar das cores”, analisa.

 

Detalhe do painel em que animais ferozes são transformados em cordeiros (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

A obra representa o sonho que Dom Bosco afirmou ter vivido aos nove anos de idade, episódio que se tornou a base de sua missão educativa e da espiritualidade salesiana. Na composição criada por D.J. Oliveira, animais ferozes transformam-se em cordeiros dóceis, numa metáfora para a formação humana por meio da educação, da acolhida e da fé.

“O painel retrata o sonho de Dom Bosco de forma artística. Podemos dizer que é uma das grandes pérolas entre as obras de D.J. Oliveira e é de extrema importância para nossa escola”, destacou a diretora institucional do Instituto Maria Auxiliadora, irmã Mônica, em entrevista ao jornal A Redação em 2023.

Segundo ela, a execução da versão definitiva exigiu um trabalho artesanal de grande complexidade. A obra foi realizada em convênio com uma fábrica de revestimentos, e todas as peças foram desenhadas e pintadas manualmente pelo artista.

“O painel retrata o pensamento educativo de Dom Bosco. Nos desenhos é possível ver animais ferozes transformados em cordeiros dóceis. Mostra a evangelização dos jovens, estando ao lado deles com bondade, firmeza e doçura. É o retrato da educação salesiana”, afirmou na ocasião.

Mestre dos murais
Poucos artistas contribuíram tanto para a identidade visual de Goiânia quanto D.J. Oliveira. Nascido em Bragança Paulista (SP), em 1932, ele chegou à capital goiana na década de 1950 e construiu aqui uma trajetória que o transformou em um dos principais muralistas brasileiros. Professor, gravador, desenhista e pintor, participou da formação de diversos artistas e espalhou obras por edifícios públicos, instituições religiosas e espaços culturais, tornando os murais uma de suas maiores marcas.

 

DJ Oliveira (Foto: Reprodução)

 

Sua produção sempre esteve ligada à integração entre arte e arquitetura. Em vez de criar obras destinadas apenas a galerias, D.J. levou a pintura para o cotidiano das pessoas, fazendo dos edifícios suportes para grandes narrativas visuais. Ao longo da carreira, produziu milhares de metros quadrados de murais, explorando técnicas como afresco, têmpera e pintura sobre cerâmica.

Para PX Silveira, “O Sonho de Dom Bosco” reúne algumas das principais características da linguagem desenvolvida pelo artista ao longo de sua carreira. “É uma obra muito característica da narrativa que D.J. Oliveira conseguia estabelecer em seus trabalhos, apresentando diversos pequenos momentos e situações em um só grande painel, em perfeita harmonia compositiva. Nesta obra ele dá mostra de toda sua técnica, seja no afresco ou na pintura sobre cerâmica, e do seu poder de concisão narrativa, com um tratamento de figuração peculiar e original que lhe são próprios”, avalia.

“O Sonho de Dom Bosco” ocupa um lugar especial nesse conjunto não apenas por sua dimensão artística, mas pela história que carrega. Quase três décadas após sua reinauguração, o painel continua recebendo diariamente o olhar de estudantes, ex-alunos, moradores e visitantes. Mais do que ornamentar a fachada do Colégio Maria Auxiliadora, ele permanece como um dos grandes marcos da arte pública goiana, uma obra que transformou um sonho em memória permanente da cidade.

 

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por Carolina Pessoni

*Jornalista formada pela UFG, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing também pela UFG

2 comentários

  1. Muita memória afetiva envolvida nesse mural. Estudei no colegio que também é um marco histórico em minha vida!

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