Carolina Pessoni
Goiânia – Em uma Goiânia que ainda aprendia a reconhecer a força de sua própria cena alternativa, um grupo de jovens decidiu parar de esperar validação externa e criar os próprios caminhos. Foi assim que nasceu a Monstro Discos, em 1998, impulsionada pela mesma inquietação que já havia dado origem ao Goiânia Noise Festival poucos anos antes: a necessidade de dar palco, voz e permanência às bandas independentes da cidade.
Mais do que uma gravadora, a Monstro se consolidou como uma espécie de organismo cultural. Selo, produtora, distribuidora, loja, espaço de encontro e resistência musical. Um projeto que cresceu junto com a cena underground goiana e que ajudou a colocar Goiânia no mapa nacional da música independente.
“A Monstro surge numa demanda da cena que estava borbulhando nos anos 1990. Já existia o Goiânia Noise. Eram bandas lançando, bandas surgindo no cenário nacional e a gente queria encontrar uma forma de fazer as coisas acontecerem”, relembra o sócio fundador Léo Bigode.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
No início, a ideia era simples: lançar compactos em vinil e fitas k7 de bandas independentes. O primeiro trabalho foi um compacto da banda Mechanics. O foco estava longe de qualquer lógica comercial grandiosa. O objetivo era criar circulação para artistas que dificilmente encontrariam espaço nas grandes gravadoras da época.
“Não era nem foi a intenção lançar só bandas de Goiânia”, destaca o outro sócio fundador, Léo Razuk. “A ideia sempre foi valorizar o trabalho das bandas e criar espaço para essa música circular.” Para Léo Bigode, o maior impulso para o negócio foi realmente o “amor à causa”. “Óbvio que quando a gente lança um produto, um show ou um festival, a gente quer lucratividade, mas isso nunca foi o mais importante”, explica.
A paixão pela música independente fez a Monstro crescer de forma quase orgânica. O selo passou a produzir festivais, distribuir discos nacionalmente e estabelecer conexões com artistas e produtores de várias regiões do país. Ao longo dos anos, o catálogo acumulou nomes importantes da música brasileira, como Ratos de Porão, Júpiter Maçã, Odair José, Casa das Máquinas, além de bandas goianas que ajudaram a consolidar a identidade roqueira da capital, como Black Drawing Chalks e Violins.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
A relação com os festivais também se tornou um dos pilares da trajetória da produtora. O Goiânia Noise seguiu como um dos principais eventos ligados à marca, mas vieram também projetos como o Bananada (comandado pela Monstro entre 2001 e 2010), o Anti-Música, o Cidade Rock e eventos esporádicos que ajudaram a movimentar continuamente a cena cultural alternativa da cidade.
“O Goiânia Noise surgiu antes mesmo da Monstro como selo, mas sempre fez parte do nosso portfólio”, explica Léo Razuk. “O calendário sempre foi muito amplo, porque a gente entendia que precisava movimentar a cena constantemente.”
Hoje, quase três décadas depois, a Monstro segue lançando artistas de diferentes partes do Brasil, apostando principalmente no vinil, mídia que voltou a ganhar força entre colecionadores e novos públicos. Entre os trabalhos recentes estão o disco ao vivo de Ana Cañas cantando Belchior, relançamentos de Rogério Skylab e o LP da banda Violator.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
“Na mídia física, a gente tem optado sempre pelo vinil, porque é o formato que tem melhor aceitação do público atual”, afirma Razuk. “O CD ainda vende, mas numa proporção menor.”
Razuk lembra que a aproximação com a região começou antes mesmo da sede atual, quando a Monstro ocupava um espaço na Alameda Botafogo e começou a perceber o potencial de circulação cultural do Centro. “As feiras de calçada foram muito legais porque arrebanhamos mais público”, afirma.
Uma das transformações mais simbólicas da Monstro talvez tenha acontecido justamente durante a pandemia. O isolamento social fez crescer a procura por discos, CDs e objetos ligados à memória afetiva da música. O selo, que até então funcionava principalmente como escritório e distribuidora, percebeu ali a oportunidade de virar também loja física e sebo.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
“A pandemia despertou muito esse sentimento de nostalgia. As pessoas descobriram que cultura não é um bem supérfluo, é essencial”, afirma Léo Razuk. Segundo ele, as vendas de calçada feitas aos finais de semana ajudaram a mostrar um novo caminho para a Monstro. “Aquilo mostrou pra gente a viabilidade desse negócio como loja”, recorda.
Em 2023, a Monstro encontrou uma nova casa no Centro de Goiânia: um imóvel de portas abertas para a rua, com loja no térreo e escritórios no piso superior. A escolha pela região central não foi apenas logística. Foi também afetiva, estética e simbólica. “No novo endereço queríamos ficar no Centro. Gostamos da atmosfera da região. O Centro é um lugar de muita circulação de pessoas”, conta Léo Razuk.
Para Léo Bigode, a relação vai ainda mais fundo. “Eu sou de uma geração que viveu muito o Centro. A gente não ia para shopping, a gente ia para o Centro. O Centro respira cultura de rua, cultura urbana.”

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Essa conexão aparece também na própria identidade da Monstro. Distante da lógica dos espaços elitizados, a produtora encontrou na região central um território coerente com sua trajetória construída à margem dos grandes circuitos comerciais. “A gente nunca pensou em ter a Monstro em um bairro nobre ou elitizado, porque não tem a cara do que a gente faz”, resume Bigode.
Hoje, entre prateleiras tomadas por vinis, CDs, fitas cassete e pôsteres, a Monstro Discos mantém viva não apenas a história do rock independente goiano, mas também a ideia de uma cidade mais coletiva e cultural. Uma Goiânia que ainda pulsa forte entre as calçadas, os encontros e os discos garimpados no coração do Centro.

A Monstro tem uma trajetório sensacional!