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Ladrões de luar

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10.12.2021 - 12:01:31
 
Olhava para cima dia desses e contemplava o esforço de um ipê cansado, coitado, para desabrochar poucas flores amarelas. Ele fica na rua de casa, a sudoeste, na calçada da Biblioteca Bernardo Élis. A casinha quase abandonada, fechada há décadas, com seu telhado em estilo alpino, foi nos ermos gerais de Petrônia a morada do célebre escritor. Me perguntava se não terá sido o Imortal a plantar o velho ipê. Seu tronco retorcido, cansado da lida, emoldurado por duas reluzentes torres de 37 andares cada, denuncia as podas descuidadas da companhia elétrica. 
 
Moro nessa mesma rua faz 17 anos. Tem apenas quatro quadras, duas de cada lado, e liga basicamente nada a lugar algum. Aqui o passado e o futuro tentam conviver. O poste à minha calçada ainda é de madeira e me parece perigosamente incapaz de segurar os fios que se embaraçam quanto mais modernidade chega com as empresas de telecomunicações. Um contraste curioso o poste de aroeira a segurar, valente, os cabos de fibra ótica.
 
O asfalto é áspero, de uma brita grossa. Foi custeado pelos próprios moradores, segundo me contou um vizinho que fez parte da vaquinha. Se esfarela aos poucos ano após ano e meu receio de que o programa de recapeamento de ruas da cidade não passaria por aqui evidentemente se confirmou. Agora, como antes, os serviços da municipalidade são bissextos. Este ano o asfalto foi rasgado em toda sua extensão para alargar galerias de água e esgoto, atendendo à necessidade de um espigão de 40 andares que se projeta no céu à minha frente.  
 
Ao sul, um conjunto de três edifícios, ao menos 30 andares cada, me roubou o nascer da lua. Vieram assim que uma mudança na lei permitiu a alteração no gabarito de construção. A oeste foi-se embora mais recentemente o meu crepúsculo, estorvado por nova trinca de edifícios recém-ocupados. Também produto de alteração da lei, perpetrada pelos poderes municipais em nome do desenvolvimento de Goiânia. 
 
Esse mesmo progresso, mais recentemente, aproveitando a permissão dos códigos, promoveu a instalação de um par de cursinhos preparatórios para o Enem na avenida alimentadora. Trouxe o estresse do trânsito, barulho e engarrafamento. A fila dos carros nos horários de chegada e de saída dos alunos já estrangula o tráfego numa artéria importante da cidade. Antes da pandemia e agora, com o relaxamento das restrições, mães sem alternativa para estacionar me bloqueiam a garagem todo dia, invariavelmente, ao fim da aula. 
 
As alterações legislativas que me levaram a paz trouxeram também um novíssimo código tributário. Com ele, um aumento no IPTU de quase 60% de um ano para outro. No último quinquênio, a tranquilidade da minha travessa foi-se embora e deixou um reajuste de 170% no imposto. Daí leio que o Direito Tributário impõe o princípio da não-surpresa. É! Não estou surpreso. Já estou suficientemente esfolado para me surpreender com tais assaltos.
 
Leio também que prolonga-se o debate a respeito da revisão do Plano Diretor de Goiânia, com o Executivo e o Legislativo debruçando-se sobre meios criativos de nos trazer ainda mais modernidade e desenvolvimento.
 
Retomo a atenção para o ipê retorcido do mestre Bernardo. Vejo cair uma flor e me apavoro.
 
*Realle Palazzo-Martini é jornalista
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por Realle Palazzo-martini

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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