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Adam Sandler e George Clooney em 'Jay Kelly' (Foto: divulgação)
Adam Sandler e George Clooney em 'Jay Kelly' (Foto: divulgação)

‘Jay Kelly’ emociona, mas final agridoce deixa gosto amargo na audiência

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18.12.2025 - 09:55:49

Ao lado de Sonhos de Trem e Vivo ou Morto, o novo longa de Noah Baumbach, Jay Kelly, completa a tríplice tentativa da Netflix de emplacar produções próprias na temporada de premiações e, em particular, no Oscar. E esta tem pedigree: não basta ter na direção e roteiro o homem por trás de sucessos como História de um Casamento e Frances Ha, ela traz à frente do seu elenco George Clooney como o titular Jay Kelly e Adam Sandler como seu agente (e talvez único amigo) Ron. Uma receita de sucesso, certo?

A trama acompanha Kelly, um ator que se tornou indissociável de uma carreira de extremo sucesso, mas que entra em uma crise após ser confrontado por um antigo amigo de juventude por supostamente ter sido um oportunista e uma má pessoa. Ao mesmo tempo, Kelly é confrontado pela distância abismal que construiu em relação às próprias filhas.

Ele então embarca em uma viagem que serve de literal jornada de autodescobrimento atrás de uma das filhas que está de férias na Europa (não antes de ter um encontro fatídico com a outra filha mais velha que vive nos EUA), na intenção de confirmar que ele não é uma má pessoa, que ele é amado, e que pode consertar os erros do passado.

Este não é primeiro e certamente não será o último filme sobre artistas em crise. O filme cumpre com sucesso suas convenções de dramédia, mesclando bem momentos cômicos com suas partes mais melodramáticas, mas não espere nada tão profundo: isto aqui não é , embora o filme seja referenciado de alguma forma até mesmo com a inclusão de um festival de cinema italiano na trama.

O filme tenta também tornar a saga de Kelly em uma alegoria para a aceleração da vida comum, sobre como nos dias de hoje nós vivemos pra trabalhar e não temos tempo para viver. Um paralelo forçado: existe uma diferença descomunal entre ser um trabalhador precarizado e uma estrela poderosíssima de Hollywood.

O ponto mais forte fica na atuação. Clooney e Sandler carregam tranquilamente o filme nas costas, em particular Sandler, sempre brilhante em papéis dramáticos. Assim, o filme vale mais como um estudo ou olhar aproximado desses personagens do que como um drama que tenta importar algo relevante sobre o mundo moderno e o estrelato.

O longa sem dúvida vai emocionar, mas patina nessa comparação sem noção entre a celebridade isolada e o homem ordinário explorado e não consegue decidir sobre o desfecho do seu protagonista: Jay é, afinal de contas, falho e ruim, mas com um coração de ouro? Ou é um crápula que será punido por essas falhas? Ele vai perder o seu prestígio? Vai perder suas filhas? O vencedor estará verdadeiramente só?

Jay Kelly peca por não se comprometer com a coragem de um final triste, cedendo para o agridoce. Jay falha e se arrepende, mas ao final do dia ainda consegue reter, de fato, um amigo, na pessoa do seu agente. Além disso, ele falha, mas segue eternizado como artista memorável com uma vasta obra, um legado garantido. O filme questiona se valeu a pena, mas ao posicionar Kelly como um gigante, distancia o personagem muito de um reles mortal: a relevância da sua obra nunca é questionada. Seria ele só mais um artista torturado pagando o amargo preço para a Musa?

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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