Logo

História de quem mostrou como fazer boas composições e viver da arte

WhatsAppFacebookLinkedInX
21.11.2021 - 14:24:45

Profissional multimídia, atuando em diversas frentes de trabalho e sempre se destacando, pela sua alegria e simpatia, o escritor, jornalista e publicitário Iúri Rincon Godinho nos brinda com uma nova e interessante obra, de grande importância na construção da história de Goiânia e de Goiás.
 
Músico como todo adolescente e já buscando conhecer melhor cada área, ele participou da efervescência musical que tomou conta da cidade nos anos 1960 e 1970, com grandes festivais, primeiro contemplando os estudantes universitários e depois reunindo os secundaristas. Ganhou experiência e reuniu um farto material para se deliciar em relatar esses fatos e seus bastidores.
 
Com estilo próprio de escrever, informal, como se estivesse conversando com você, vai relatando os acontecimentos, dando sua visão de como tudo se desenrolou, opinando e abrindo um universo de informações ao leitor, que vai se encantando com sua narrativa e se envolvendo nos fatos descritos.
 
Ele coloca detalhes que enriquecem sua narração, despertando a curiosidade do leitor e tornando a leitura mais atrativa. É um formato agradável, que nos leva numa viagem no tempo para viver aquela lembrança que descreve com tanta facilidade e leveza, permitindo-nos conviver com pessoas e situações as mais diversas.
 
Assim é o livro “Fernando, João, Marcelo e a geração que fez da música goiana sucesso popular”, que Iúri acaba de lançar por sua editora, a Contato Comunicação.
 
Pesquisador atento e que vivenciou muito do que descreve, como compositor e participante de festivais de música, suas descrições ficam muito interessantes. Elas nos situam em determinado momento da cidade e que hoje nos parecem tão distantes, como o fato de ir ao posto da Telegoiás na rua 3, centro, para telefonar ao Rio de Janeiro, diante da dificuldade de fazer um telefonema para outros estados e cidades.
 
Em sua exposição, vai identificando os personagens que surgem e faz muitas referências históricas, como à Rádio Mundial, segunda emissora criada no país, em 1924, e que se chamava Rádio Clube do Brasil, na qual ouviu a música que João Caetano acabava de gravar.
 
O leitor passa a conviver com a rotina de cada um, ao falar do início da carreira desses músicos e sua participação no Festival Secundarista de Música Popular Brasileira (Comunica-Som). É a partir desse certame que começam a deslanchar suas carreiras musicais, ao abrir mais espaço e dar maior visibilidade aos vencedores da iniciativa, com divulgação nacional da música e dos músicos goianos.
 
Os pormenores vão chamando a atenção, ao relatar o surgimento do Comunica-Som, as conversas, os contatos, como se desenrolaram as atividades e como se deram as finais de cada edição, as gravações dos vencedores, a participação de músicos convidados etc.
 
O livro reúne fatos, momentos e situações de três décadas em Goiás, de 1960 ao final dos anos 1980, e fatos marcantes nessas mudanças, como a participação do cantor e compositor Ivan Lins, um apoio de grande significado, e a vinda do músico Antônio Adolfo para Goiás, passando uma temporada em Goiânia e buscando difundir entre os goianos o trabalho independente que realizava.
 
O capítulo à parte se refere ao Peninha, que não era músico e teve relevante presença nesse deslanchar de Goiás na área musical. Seu interesse começou curtindo, de longe, as canções tocadas nas casas que vendiam discos; depois, seu trabalho nessas lojas, a montagem de discoteca, seu envolvimento no setor, sua ida aos EUA e seu aprendizado na área. Na sequencia, sua volta a Goiânia e sua participação nesse momento, na implantação da rádio Araguaia, a primeira emissora FM da cidade, que muito valorizou, incentivou os músicos de Goiás e foi responsável pela explosão de sucesso desses artistas goianos.
 
O leitor entra em contato com o meio produtor de discos, o início dos estúdios na cidade, pequenos na época, e como cada um foi conquistando seu espaço.
 
O cantor João Caetano foi o primeiro a se apresentar no ‘Fantástico’, da TV Globo, programa que estava completando seu primeiro ano no ar e que era um sucesso estrondoso nas noites de domingo, e depois em novelas, com a música ‘Guardião’.
 
1982, como relatou, foi um ano inesquecível para os músicos goianos, com muitos lançamentos de CDs e compactos, e shows, marcando a ascensão definitiva de Fernando Perillo, Marcelo Barra e João Caetano, os primeiros a gravar LPs nesses 10 anos, 1971 a 1982. Mesmo assim, ainda eram sucesso só em Goiás.
 
Conforme Iúri, eles mostraram ser possível compor música boa e viver dessa arte, quando resgata a participação fundamental do maestro José Eduardo Morais, que estava em patamar acima e colaborou na ascensão da música goiana. Era instrumentista prestigiado no Rio de Janeiro, onde morava e trabalhava na TV Globo, sendo um músico mais de bastidores, pois não cantava e residia longe de Goiânia.
 
O trabalho se fixa na trajetória de Fernando, Marcelo e João, inclusive as turnês internacionais que fizeram, e na participação de José Eduardo. Ressalta também o universo de iniciativas na área, a partir dos pioneiros festivais universitários em Goiânia, que serviram de modelo, e passando por iniciativas no interior, como o Gremi, de Inhumas, GO, e a Festa do Compositor Goiano, de Paulo Magalhães, na capital goiana, que era mais informal, sem uma estrutura rígida como a dos festivais.
 
Recomendo. É leitura para quem gosta de história e da história, e quer mais informações da área, que vai encontrar aos montes.
 
Anotei dois pequenos senões, que não interferem no resultado final: na p. 65, cita a avó como sogra e na p. 68, se refere à AGT como Associação Goiana de Teatro, e não como seu nome original, com o A significando Agremiação.

 
*Jales Naves, jornalista e escritor, presidiu a Associação Goiana de Imprensa (AGI) em dois mandatos consecutivos (1985-1991) e integra a Academia de Letras e Artes de Caldas Novas (Cadeira nº 30), o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (Cadeira nº 34) e o Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Jales Naves

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]