Revirando o passado, deparei-me com essa foto analógica de 2003. Meu cantinho criativo com bancada de ourives, laminador de metais, balança romana, coleção de rolhas, fotos, enciclopédias e caderno “Ilustrada”, do Jornal Folha de São Paulo, nas mãos.
Acompanhei cotidianamente, às segundas-feiras as crônicas da impávida Fernanda Torres, às terças do sapiente Marcelo Coelho, às quartas do analítico Contardo Calligaris, às quintas do poeta Ferreira Gullar e às sextas do ácido Luiz Felipe Pondé. Meus ‘professores’ de leitura periódica e análise crítica da sociedade, nos áureos vinte poucos anos da minha vida.
Tão potentes e inspiradores foram os citados colunistas que atualmente me projetei neste lugar de escrita, sendo efetivada na “Coluna Curadoria Afetiva”, no primeiro Jornal de Goiás pensado para mídias digitais, o “ARedação”.
Foi revirando e rememorando essa idade pulsante que tive uma epifania: ‘para cada canalhice de um cara, há sempre uma piranhice de uma garota’, mas, antes que a carapuça sirva, queridos leitores, esclareço que me refiro à série “Girls” (2012) da HBO, que estreou o sex symbol, Adam Drive, no ápice de sua juventude.
Os dilemas intelectuais da adolescência tardia ganham um contexto cômico, permeado de sacanagens, solidariedade, imoralidade, futilidade, senso crítico e uma sutil perversidade. De fato, trata-se de um elenco predominantemente hétero, branco e de classe média, o que incitará um ranço em uma parte da militância partidária.
O caso aqui é que os diálogos e a profundidade literária do roteiro da série representam bem a Geração Y, os Millennials.
Mesmo que ainda reflitam os efeitos colaterais das extravagâncias da classe, é justo pontuar que, apesar dos desejos carnais nato de cada indivíduo, o contexto civilizatório dos anos 80 aos 2000 inspirou mais complacência, bom humor, ironia construtiva e estoicismo do que os mimimis e memes do corrente século XXI.
A própria série, que sofreu polêmicas e cancelamento na época por maximizar temas como abortos, homossexualidade, incesto, liberdade sexual, romantização da troca de casais e distúrbios psíquicos como alcoolismo, drogas e TOC, repercutiu num ostracismo injusto, na minha opinião.
Há algo extremamente interessante nessas histórias novaiorquinas, cujas encenadas verdades nos são, ou nos foram, quase que familiares e rotineiras num dado momento da vida.
O mais intrigante, talvez, do propósito real da série, seja a intenção de não levar tudo tão a sério, afinal a vida são fases aleatórias, com poucos poderes para mantermos tudo sob controle o tempo todo.
Por isso, “Girls”, ‘female children’, ou garotas, são o reflexo de uma fase em maturação, um desabrochar de ideias, intuições e intenções, porque, entre a canalhice e a piranhice, há de se levar muita coisa em consideração, principalmente os picos hormonais.
Mas que também se leve em conta a sensatez que a maturidade, ou a idade, traz, pois cada momento é passageiro e nos cabe a responsabilidade de assumir as consequências das experiências vivenciadas que perpetuaram como lições processuais e definitivas, sendo todos indivíduos exercendo a cidadania em uma sociedade.
Good luck, Girls!

Mto boa a reflexao.Na maturidafe tudo tem um olhar diferente.O que era vital na juventude,morreramos por aquilo,hje ja nao tem nenhuma ou quase importância alguma