Logo

Falsos Ídolos

WhatsAppFacebookLinkedInX
17.06.2022 - 11:00:10

Relata a Bíblia que os fariseus, apoiando-se na reputação revolucionária que angariava Jesus Cristo, tentaram encurralá-lo com uma pergunta capciosa: seria lícito ou não pagar imposto a Roma? Caso respondesse afirmativamente ele cairia em contradição, pois pregava que o seu verdadeiro reinado não era aquele. Se replicasse negativamente poderia ser enquadrado em atividade subversiva e assim condenado como traidor do Império. Jesus Cristo então aponta para uma moeda, que continha a efígie e inscrição do Imperador, concluindo: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E assim nasceu a separação entre Estado e Igreja.

Nos tempos desta fatídica passagem bíblica as figuras de governante e deidade se embaralhavam em uma só. Cleópatra não era somente Rainha do Egito, mas a reencarnação da deusa Ísis. Xerxes não foi apenas xá Aquemênida, e sim o “Deus-Rei de toda a Pérsia”. Roma por sua vez havia estabelecido o culto imperial através da apoteose (a prática de deificar antigos imperadores) e estes eram incluídos no panteão de divindades romanas a serem veneradas através desta sanção estatal.

A natureza divina dos monarcas foi o debate central durante o período de formação da Igreja e a resposta cristã foi profundamente transformadora: não confundamos o soberano com o princípio da soberania em si, pois quem detém o poder está subordinado a algo de maior estatura, seja ao celestial ou ao próprio indivíduo. O rei então perdia sua qualidade de deus e passava a comungar com o resto dos mortais todas as dores e revezes da falibilidade humana.

A partir do século XVIII eclodiam as revoluções seculares na Europa e esta distinção se turva novamente. O pensamento iluminista foi apartando o Ocidente de impulsos religiosos enquanto buscava, corretamente, explicações científicas para os mais diversos fenômenos que nos cercam. Mas ele não livrou-nos do ímpeto essencialmente humano de venerar algo, apenas deslocando o objeto da adoração de volta para a Terra, desta vez materializando-o no Estado. A secularização positivista reconsagrou aquilo que é mundano de fato e, ao contrário do arrependido Victor Frankenstein, apaixonamo-nos pela nossa criatura.

A diferenciação entre poder teológico e poder político não é meramente estética ou superficial, mas de profundas consequências para entendermos a nossa relação com o Estado, com a lei e com a realidade. Se estas lideranças se concentram no mesmo ente, um pecado não é unicamente questão de fé a ser tratada com seu pároco, e sim crime contra a ordem constituída. As ideologias coletivistas tentam se livrar da consciência judaico-cristão por entenderem que seus princípios constituem obstáculo fundamental à criação de um “paraíso” na Terra, e sabem que competem com o cristianismo não só por votos, mas por almas.

Na China comunista Mao Tsé-Tung era cultuado mesmo após matar 60 milhões de pessoas com o seu programa “Grande Salto para a Frente”, e seu projeto não se bastava em reestruturar as relações produtivas daquele país. A “Revolução Cultural Chinesa” iniciada em 1966 buscava expurgar qualquer elemento antimaoísta da nação, fossem eles resquícios “capitalistas” ou a intrincada tradição daquele povo. Seu texto sagrado era “O Livro Vermelho” e uma grande Inquisição foi instaurada, resultando na prisão, humilhação, tortura e execução daqueles percebidos como infiéis. Espetáculos chamados “sessões de luta” eram conduzidos em praças públicas e a população era instigada a confessar seus sacrilégios contra o regime. Criticar Mao não era um direito democrático, mas uma blasfêmia.

Este fervor religioso era protegido na União Soviética pelo artigo 58 de seu Código Penal, que fundia os conceitos de pecado e crime ao tipificar a conduta de “pensamento e ação antirrevolucionária”. Sob Stálin a verdade se tornou mera conveniência, pois não se buscava mais alcançá-la por meio de uma incessante busca filosófica, e sim pelo consenso construído entre partido, mídia e academia. Na Coreia do Norte estátuas e fotos da dinastia Kim estão espalhadas pelo país e todos devem se curvar perante a cada uma delas.

O Brasil se aproxima de um novo ciclo eleitoral e devemos nos atentar para doutrinas de fé travestidas de posicionamento político legítimo. O Mausoléu de Lênin segue ereto na Praça Vermelha em Moscou e seu corpo, mumificado e exposto, recebe milhões de visitas todos os anos.

Não veneremos falsos ídolos.
 
*Jales Naves Júnior é advogado

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Jales Naves Júnior

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]