Carolina Pessoni
Goiânia – Quem passa pela Praça Cívica talvez veja apenas mais um prédio recuperado. Mas o antigo Fórum e sede da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), entregue restaurado no último sábado (28), carrega uma história recente de risco estrutural e um processo minucioso de resgate que vai além da estética.
Construído em 1936 e inaugurado em 1942, o edifício, que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Estado, ficou vazio por anos após laudos apontarem risco de incêndio e comprometimento da estrutura. Não se tratava de uma simples degradação pelo tempo. O que havia ali, segundo técnicos, era o acúmulo de intervenções feitas sem critério ao longo das décadas.
“O prédio estava com sérios problemas estruturais. Já tinham sido feitas intervenções irresponsáveis, com excesso de peso nas lajes e risco real de colapso”, explica o superintendente de Patrimônio Histórico e Artístico da Secult, Allysson Cabral.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
A obra, portanto, começou pelo invisível. Antes de qualquer acabamento, foi necessário reforçar as fundações e estabilizar a edificação, o que representou um desafio ainda maior por se tratar de um projeto original sem colunas estruturais. A solução encontrada foi a implantação de estruturas metálicas, discretas, que hoje sustentam o que o visitante dificilmente percebe.
Mais do que recuperar, foi preciso reconstruir. Partes da escada original, por exemplo, haviam sido demolidas e foram refeitas com a mesma técnica construtiva da época. No hall de entrada, o piso em ladrilho hidráulico — detalhado e característico — passou por um trabalho cuidadoso de restauração.
Elementos arquitetônicos perdidos ao longo dos anos também foram recompostos, sempre com base em critérios técnicos e validação do Iphan. “Não foi uma reforma. Foi um restauro completo, com respeito absoluto à arquitetura original”, resume Cabral.
A intervenção marca a etapa final da recuperação do conjunto art déco da Praça Cívica, considerado o maior da América Latina. Nos últimos anos, o entorno passou por uma sequência de obras que incluem o Museu Goiano Zoroastro Artiaga, o Centro Cultural Marietta Telles Machado, o Palácio das Esmeraldas e o Lyceu de Goiânia, todos recentemente restaurados ou requalificados.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Agora, o prédio entra em uma nova fase. A partir de abril, começam as adequações para uso: instalações elétricas, climatização, tecnologia e acessibilidade complementar. A previsão é que o espaço abrigue uma loja de artesanato, áreas expositivas e setores administrativos da Secretaria de Cultura. Também está em andamento um projeto de lei para que o edifício receba o nome da poetisa goiana Leodegária de Jesus.
Para além da obra entregue, o restauro levanta uma discussão recorrente no centro de Goiânia: a diferença entre recuperar e preservar. “Quando se perde algo em um edifício histórico, você não tem nunca mais. É possível reconstruir, no máximo, algo similar”, afirma Cabral. “Por isso, a prevenção é fundamental. O restauro não pode começar quando o prédio já está no limite.”
Entre reforços estruturais, recomposição de elementos e decisões técnicas, o antigo Fórum volta a ocupar seu lugar na Praça Cívica. Não apenas como mais um edifício restaurado, mas como evidência de um necessário de preservar o que ainda sustenta a memória arquitetônica da cidade.
