Carolina Pessoni
Goiânia – Em uma época em que Goiânia ainda dava seus primeiros passos como capital e o Brasil vivia os desdobramentos do fim da Segunda Guerra Mundial, um grupo de escritores decidiu transformar encontros informais em um movimento organizado de valorização da literatura. Daquelas conversas realizadas à sombra de um pequizeiro na Avenida Goiás nasceu uma das mais importantes instituições culturais do Estado: a União Brasileira de Escritores – Seção Goiás (UBE-GO).
A história da entidade remonta a abril de 1945, quando foi criada em Goiânia a Associação Brasileira de Escritores (ABDE), organização que décadas mais tarde se transformaria na atual UBE. A fundação ocorreu em uma sala do Jóquei Clube de Goiás e teve entre seus principais articuladores o pernambucano Cristiano Cordeiro, primeiro presidente da instituição, além de nomes fundamentais da literatura goiana, como Bernardo Élis e Bariani Ortêncio.
Segundo a secretária executiva da UBE-GO, Ana Luiza Serra Ferreira, a criação da entidade aconteceu em um momento de intensa mobilização política e cultural. Os escritores goianos buscavam um espaço de representação e convivência que fortalecesse a produção literária local. “Eles se reuniam, faziam planos, discutiam ideias, mas ainda não existia uma entidade formal. A fundação da associação foi o passo que transformou aquele grupo em uma instituição”, relata.
Um dos fatores decisivos para a consolidação da entidade foi a vinculação da então recém-criada associação à Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, concurso literário instituído pela Prefeitura de Goiânia em 1944 e considerado um dos mais antigos do país ainda em atividade. Desde então, a premiação mantém uma relação histórica com a instituição, atravessando gerações de escritores goianos.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Ao longo das décadas, a trajetória da UBE-GO foi marcada por desafios. Durante o período da ditadura militar, a entidade sofreu perseguições e viu parte de seu acervo ser destruída. Documentos e obras literárias foram queimados em ações motivadas pela associação, muitas vezes equivocada, entre produção intelectual e militância política.
Ana Luiza lembra que a repressão deixou marcas profundas no patrimônio da instituição. “Entraram onde a UBE funcionava e queimaram muita coisa. Por isso existe um vazio no nosso acervo. Parte da memória da entidade se perdeu naquele período”, relata.
Mesmo sem sede própria, a entidade resistiu. Durante anos funcionou em espaços improvisados, até conquistar, em 1978, uma sala no Edifício Vila Boa, na Avenida Goiás. A estabilidade definitiva viria apenas no início dos anos 2000, durante a gestão da escritora Maria Luísa Ribeiro Neves, primeira mulher a presidir a instituição. Após uma mobilização junto ao poder público, a UBE-GO recebeu do Governo de Goiás a casa onde funciona até hoje, na Rua 21, no Centro de Goiânia.

Nesta mesa, em 1944, o primeiro prefeito de Goiânia, professor Venerando de Freitas Borges, assinou a lei que criou a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos. O móvel e sua cadeira estão na posse do escritor e ex-presidente da UBE-GO, Luiz de Aquino (Foto: Hélverton Baiano/Reprodução)
“A UBE estava muito parada. Fizemos um recadastramento, reorganizamos documentos e começamos a trazer novos escritores. Foi um trabalho que começou naquela época e continua até hoje”, recorda Ana Luiza.
A relação da entidade com o Centro da capital é profunda. Não apenas porque a região abrigou suas diferentes sedes ao longo da história, mas porque foi ali que se concentrou boa parte da vida intelectual goiana durante décadas. Escritores, professores, jornalistas e artistas viviam ou circulavam diariamente pelo Centro, transformando-o em um grande ponto de encontro da produção cultural do Estado.
Hoje, a UBE-GO reúne cerca de 300 associados e continua exercendo o papel de espaço de acolhimento para escritores experientes e novos talentos. Uma das mudanças mais importantes ocorreu a partir da atualização do estatuto, que passou a permitir a entrada de autores que produzem e divulgam seus textos em diferentes meios, incluindo jornais, blogs e plataformas digitais. A medida ampliou a participação de jovens escritores e renovou o quadro da entidade.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Segundo a secretária executiva, a atualização do estatuto ampliou o acesso à instituição. “Antes a pessoa precisava ter um livro publicado. Hoje, se trabalha com literatura e publica seus textos em jornais, revistas ou plataformas digitais, já pode se associar”, explica.
Além de sediar lançamentos de livros, a UBE promove oficinas de escrita criativa, encontros literários, projetos de incentivo à leitura, exibições de cinema e outras atividades culturais. As oficinas de escrita, iniciadas na gestão do escritor Edival Lourenço, tornaram-se uma tradição no calendário cultural goiano e já trouxeram a Goiânia nomes de destaque da literatura nacional.
A biblioteca da instituição também permanece aberta à consulta pública, servindo de apoio a estudantes, pesquisadores e leitores interessados na produção literária goiana. Ao longo do ano, a sede recebe lançamentos, reuniões, debates e atividades promovidas pelos próprios associados.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
A convivência entre gerações é um dos aspectos que mais entusiasma. “Sempre que um escritor parte, outros chegam. Temos jovens participando, lançando livros e ocupando a casa. Isso mostra que a literatura continua viva”, destaca Ana Luiza.
Não por acaso, a UBE-GO ganhou um apelido carinhoso entre seus frequentadores: “Porto do Escritor”. A expressão sintetiza o espírito de uma entidade que, há mais de 80 anos, segue sendo ponto de chegada para quem escreve e ponto de partida para novas histórias.
