Um dos privilégios que tive ao longo da vida — e de que sigo desfrutando — é a oportunidade de conviver com pessoas muito inteligentes.
Outro dia, falando da minha viagem ao Acre, eu disse que o Rio Purus é barrento porque erode os Andes e carrega seus sedimentos. Fui corrigido por um amigo, o geólogo Edgardo Latrubesse, que é simplesmente um dos maiores especialistas em rios do mundo, e portanto um profundo conhecedor das águas da Amazônia. Ele me explicou que isso estaria correto se eu falasse do Solimões e seus formadores, ou do Rio Madeira e sua alta bacia. Situados entre os dois, entretanto, o Purus e o Juruá não têm cabeceiras andinas — drenam regiões mais baixas da Amazônia peruana e formam um extenso anfiteatro contornado pelas águas andinas a sul, oeste e norte, que correm para as bacias do Madeira e do Solimões. São rios com mínima variação de altitude e que, por isso, percorrem extensas planícies que lhes dão sua forma sinuosa e meandrante tão característica. Tudo isso está ligado a uma complexa história geológica anterior à formação dos Andes, que faz com que corram muito próximos às bacias ligadas à Cordilheira, mas não se misturem a elas.
Esse tipo de explicação — capaz de reconstruir histórias imensas a partir de vestígios mínimos — é um lembrete poderoso do quanto devemos a mentes excepcionalmente afiadas, capazes de olhar para a evidência truncada do presente e deduzir bilhões de anos de história do planeta. Faz pensar em Newton e Darwin, dois dos cérebros mais brilhantes da espécie humana.
O primeiro, praticamente sozinho, fundou a ciência moderna, criando ferramentas matemáticas inéditas e formulando leis universais capazes de explicar, com a mesma estrutura conceitual, fenômenos terrestres e celestes. Entre seus 22 e 24 anos, Newton criou o cálculo diferencial e integral, formulou as bases da gravitação universal, desenvolveu as leis fundamentais do movimento e compreendeu a natureza da luz. No restante de sua vida, aprofundaria e detalharia tudo isso, mas a essência do que produziu foi moldada ao longo dos três anos de isolamento durante a epidemia de peste bubônica na Inglaterra, entre 1665 e 1667. Possivelmente, nenhum outro cientista uniu, nos conhecimentos que produziu, tanta profundidade teórica, poder de unificação e eficácia prática.
Se Newton representa o ápice da unificação matemática da natureza, Darwin encarna um feito de outra qualidade: mostrar que ordem, complexidade e adaptação podem emergir sem plano, intenção ou direção pré-determinada — uma ideia profundamente contraintuitiva, talvez a mais difícil que a ciência já nos pediu para aceitar.
Afinal, como entender que a extraordinária complexidade e adaptação dos seres vivos possam surgir sem intenção, plano ou direção, apenas pela ação cumulativa de variações aleatórias filtradas por condições ambientais? Isso desafia a intuição humana, que tende a esperar causas grandes para efeitos grandes. Como compreender que essa variação não se orienta para adaptações futuras, ocorrendo de forma aleatória? E, o mais perturbador e revolucionário: como aceitar que os humanos não ocupam uma posição ontologicamente distinta — fazem parte do mesmo processo que produz qualquer outra espécie?
O próprio Darwin, como se sabe, passou pelo Brasil em sua viagem no Beagle. O que eu não sabia — e descobri recentemente — é o quanto ele se encantou com Salvador (e seria possível não se encantar?)
Entre os bons presentes de fim de ano, ganhei Cartas Brasileiras, livro organizado por Sérgio Rodrigues, que junta, em belíssima edição, correspondências históricas — de políticos, artistas, cientistas, pessoas comuns — que são uma inusitada e rica janela para nossa história e cultura.
Entre elas, há essa carta que Charles Darwin remeteu a seu pai quando o Beagle atracou em Salvador. Diz ele: “Ninguém poderia imaginar nada tão bonito quanto a velha cidade da Bahia, aninhada graciosamente numa mata luxuriante de belas árvores e situada numa encosta íngreme, comandando uma vista das águas calmas da grande baía de Todos os Santos (…) é uma das visões mais belas do Brasil”.
Ler Darwin descrevendo Salvador com assombro e encantamento é lembrar de um tempo em que a ciência ainda parecia, para muitos, somente uma aventura de descoberta do mundo — não um campo de disputa política e desconfiança.
Por isso, quis encerrar o ano celebrando a ciência.
Em 2025, falei muito aqui neste espaço, e em outros lugares, sobre a crise de confiança na ciência como uma das questões mais relevantes de nosso tempo. Essa crise tem um lado angustiante porque literalmente ameaça nos deixar no escuro, sem o esteio e farol que ampara e ilumina nosso lugar no mundo e a maneira pela qual o entendemos. Todavia, aponta também para a possibilidade de um tempo novo, onde vamos continuar celebrando a razão e o conhecimento, mas não a ideia de uma “Verdade” com V maiúsculo — um tempo onde a ciência terá descido do desnecessário pedestal onde foi colocada para legitimar essa ideia lamentável de “progresso” e de um destino único para a humanidade; um tempo onde ela se integrará de forma transparente a um diálogo democrático de construção do nosso mundo comum.
A ciência é, afinal, uma empreitada fantástica — um caminho para entendermos nosso lugar no universo que me dá, ao mesmo tempo, senso de responsabilidade e humildade. Quando conectada a uma ética que valoriza a vida e o mistério, ela se torna uma ferramenta poderosa para encontrar sentido e melhorar nossa jornada, ainda que, no fundo, saibamos sempre muito pouco.
P.S: Na próxima semana, a coluna faz uma merecida pausa para arejar as ideias. Voltamos no dia 5 de janeiro.