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Rua de Jordão, estado do Acre (Foto do autor).

Os Patrões

O Acre profundo e a persistência do barracão

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02.12.2025 - 09:00:12

Chegar à sede do município de Jordão, no norte do Acre, só é possível pelo ar — em pequenos aviões, num voo de 1h40 a partir de Rio Branco — ou pela água, numa viagem de barco de no mínimo dois dias, geralmente a partir do município vizinho de Tarauacá, acessível pela BR-364, que conecta o Acre ao resto do país.

Para quem vem pelo rio, a aproximação da cidade se percebe pelo adensamento das pequenas casas de madeira sobre estacas, pelo gado que se aglomera para matar a sede na correnteza e, se o sol equatorial castiga, pelas crianças se banhando na água barrenta. Os varais carregados de roupas coloridas, o tom desbotado das casas, as embarcações precárias no porto e o lixo onipresente falam da dureza da vida em um dos municípios brasileiros classificados como “remotos” pelo IBGE.

Para quem chega pelo ar, são 450 km sobre um tapete verde interrompido apenas pelas pastagens ao redor de Rio Branco, por pequenas cidades no trajeto e pelas largas serpentes de rios como o Purus, que desce do Peru carregando os sedimentos dos Andes e dos planaltos que os cercam. Do alto, Jordão é uma malha modesta de poucas ruas de terra ou pavimentadas com tijolos. Impressiona como até o desmatamento para abrir espaço ao gado se assemelha a um esforço vão diante da floresta tropical que parece prestes a engolir tudo. A sensação não é a de que o ser humano avança sobre a mata, mas de que a mata reivindica de volta o que sempre foi seu.

É meio-dia de sábado, o céu está azul e o ar úmido não se move. A sensação térmica provavelmente ultrapassa os 35 graus. Caminhamos por ruas vazias, nos refugiando nas poucas sombras — é espantoso como as cidades amazônicas têm tão pouca vegetação urbana — em busca, sem sucesso, de um restaurante aberto.

Pergunto ao homem com a camisa do Palmeiras — é dia de final da Libertadores — se haveria algum lugar servindo almoço. Ele aponta uma casa mais à frente, mas, ao constatar que também está fechada, faz o convite:

— Mas não por isso. Vocês almoçam aqui em casa. Vamos entrando.

Constrangidos, sem alternativa e comovidos, seguimos para a casa simples de madeira, como quase todas. Maria, esposa de Francisco, nosso anfitrião, já frita ovos e esquenta as sobras do almoço: carne cozida, arroz e macarrão, acompanhados da indefectível farinha d’água, clara e de grãos duros.

Ao saber que regressávamos de uma área indígena, Maria conta que tem enorme carinho pelos índios, que compõem quase metade dos 9.200 habitantes de Jordão. A maior parte é da etnia Huni Kuin (também conhecida como Kaxinawá), distribuída por quatro terras indígenas que somam pouco mais de 60 mil hectares ao longo dos rios Tarauacá e Jordão.

— As pessoas aqui, na maioria, não gostam dos índios — ela diz. — Tratam mal. No nosso mercado, a gente sempre ajuda. Muitos cartões antigos dos programas sociais não têm chip, e aqui não existe caixa eletrônico pra eles sacarem o dinheiro. A gente pega o cartão, manda pra Tarauacá pra sacarem e entrega pra eles descontando o que compram. Explico que não podem gastar tudo, que têm que guardar um pouco. Gosto muito de ajudar, porque também tem gente que explora os índios.

O almoço era simples, mas muito saboroso. Impossível não admirar a hospitalidade brasileira — e amazônica — e não se afeiçoar àquela família. Francisco deixa o caixa do mercado e se junta a nós, resumindo sua vida: nascido em Cruzeiro do Sul, segundo município mais populoso do Acre, foi seringueiro por boa parte da vida, seguindo o ofício do pai. Mudou-se para Jordão, onde investiu suas economias numa “colônia”, como chamam os sítios de criação de gado, e no pequeno mercado que abastece a cidade. Por fim, relata seu recente infortúnio:

— Eu vendo gasolina, como vários outros comerciantes, porque o único posto daqui não dá conta da demanda. A polícia fez uma operação e apreendeu toda a nossa gasolina, mais de 10 mil reais de prejuízo. Disseram que era comércio clandestino e que oferecia risco. Levaram também os envelopes com os cartões e o dinheiro dos índios. Fui preso, tive que pagar fiança pra sair depois de dois dias.

Só ele e mais um comerciante tiveram a gasolina apreendida. Não houve qualquer advertência prévia.

— Se tivessem me procurado, eu teria me adequado. A cidade precisa do combustível. Se a gente não puder vender, vai faltar gasolina em Jordão.

— Mas Deus há de prover — emenda Maria —, porque a justiça Dele sempre prevalece. É como está dito em Romanos: “Não vos vingueis a vós mesmos, porque está escrito: A mim pertence a vingança; eu retribuirei”.

Pensava na complexidade da vida nas fronteiras econômicas, nas alianças improváveis — como aquela entre um casal evangélico e os indígenas que auxiliavam — e em como instituições do Estado, em lugares como aquele, acabam muitas vezes capturadas por forças políticas locais e usadas para avançar os piores interesses.

Saímos agradecidos, mas também condoídos com a injustiça que a família parecia ter sofrido.

De volta ao ar condicionado do hotel, uma busca rápida trouxe o título da notícia: “Operação da Polícia Civil do Acre combate exploração de indígenas em Jordão”.

“As investigações, iniciadas há cerca de dois anos, revelaram que comerciantes da região retinham cartões bancários e senhas de indígenas beneficiários do programa, realizando saques e repassando mercadorias a preços abusivos. O golpe se sustentava na vulnerabilidade das vítimas, que, em muitos casos, tinham baixa escolaridade e acreditavam que os débitos eram legítimos.”

 

Rua de Jordão, estado do Acre (Foto do autor).

O delegado responsável completa:

“Infelizmente, a retenção de cartões bancários e documentos de indígenas é uma forma contemporânea de exploração, com raízes históricas no antigo sistema do barracão dos seringais, ainda presente em partes do Acre.”

Daí o nome: Operação Patrão — “patrão” era o nome que designava os proprietários de seringais, que mantinham os funcionários presos a sistemas de escravidão por dívidas, contraídas na compra de gêneros básicos vendidos nos barracões das próprias fazendas.

Curiosa e diligente, Mara, minha companheira de viagem, conversa com outro casal de comerciantes, que revela mais detalhes:

— Duzentos reais por um frango — era o valor anotado numa caderneta apreendida pela polícia. O que eles faziam era ruim pra gente também. Como controlavam o dinheiro, os índios não podiam comprar direto na nossa loja. Eles compravam a roupa aqui e revendiam mais cara pros índios — explica a proprietária.

À noite, confirmamos com nossos amigos indígenas os detalhes. A operação parecia ter sido séria e direcionada apenas aos comerciantes que de fato exploravam indígenas através dos cartões. O combustível apreendido foi repassado para a saúde indígena.

Num cálculo grosseiro e conservador, se extrapolarmos para Jordão os 14% de beneficiários do Bolsa Família na população indígena brasileira, chegamos a cerca de 560 pessoas. Multiplicadas pelo valor médio de R$ 683,28 pago pelo benefício, chegamos a R$ 382.636,80 mensais. Mesmo que apenas parte desse dinheiro passasse pelos comerciantes, já seria suficiente para engrossar de forma significativa o lucro de um pequeno mercado num município como Jordão.

Num episódio pequeno, desses que se repetem diariamente sem que o país tome conhecimento, expõem-se com clareza as engrenagens das fronteiras econômicas: um projeto em que indígenas e outros grupos vulneráveis seguem atacados não só pelo grande poder econômico, mas por uma violência cotidiana e generalizada, legitimada por sua desumanização.

Como explica o sociólogo José de Souza Martins, uma das operações fundamentais das fronteiras econômicas reside justamente na distinção entre o humano e o não-humano. A desumanização do indígena e da floresta permite que o projeto “civilizatório” avance — seja pelas motosserras, seja por formas renovadas de servidão. Diante dessa linha divisória, destruir a floresta ou “integrar” o indígena passa a ser visto como missão virtuosa.

A retenção dos cartões do Bolsa Família pelos nossos anfitriões não é outra coisa senão essa mesma lógica — neste caso, revestida de orgulho cristão. A fronteira não avança apenas nos grandes gestos, como no extermínio de etnias inteiras ou na devastação maciça promovida pelo garimpo. Ela avança também nos pequenos crimes, como o do casal que tão bem nos recebeu.

Entende-se, assim, a enorme diferença que a presença — mesmo mínima — do Estado faz para os mais vulneráveis. O problema é que a própria lógica da fronteira consiste em chegar antes do Estado, ocupando o vazio político e institucional.

A simples instalação de um caixa eletrônico, facilmente realizável pela Caixa ou pelo Banco do Brasil, ou a substituição de cartões antigos por modelos com chip, que permitem pagamento direto no comércio, seria suficiente para fechar a brecha que possibilita esse tipo de exploração — que certamente ocorre em outros lugares.

Numa outra escala, quando o Congresso Nacional aprova propostas como o Marco Temporal, que reduz direitos territoriais indígenas, ou como a que enfraquece o licenciamento ambiental, o objetivo é precisamente reimplantar a lógica da fronteira em áreas onde ela já havia sido superada, ou facilitar sua expansão, na expropriação do patrimônio público e na exploração da pobreza brasileira, em novos lugares.

Os patrões seguem dando as cartas: em Jordão, pelas mãos de Joanas e Carlos; em Brasília, pelas de figuras como Sóstenes Cavalcante e Pedro Lupion.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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