Logo

Deduzir o mundo

Uma celebração da ciência no fim do ano

WhatsAppFacebookLinkedInX
23.12.2025 - 09:00:56

Um dos privilégios que tive ao longo da vida — e de que sigo desfrutando — é a oportunidade de conviver com pessoas muito inteligentes.

Outro dia, falando da minha viagem ao Acre, eu disse que o Rio Purus é barrento porque erode os Andes e carrega seus sedimentos. Fui corrigido por um amigo, o geólogo Edgardo Latrubesse, que é simplesmente um dos maiores especialistas em rios do mundo, e portanto um profundo conhecedor das águas da Amazônia. Ele me explicou que isso estaria correto se eu falasse do Solimões e seus formadores, ou do Rio Madeira e sua alta bacia. Situados entre os dois, entretanto, o Purus e o Juruá não têm cabeceiras andinas — drenam regiões mais baixas da Amazônia peruana e formam um extenso anfiteatro contornado pelas águas andinas a sul, oeste e norte, que correm para as bacias do Madeira e do Solimões. São rios com mínima variação de altitude e que, por isso, percorrem extensas planícies que lhes dão sua forma sinuosa e meandrante tão característica. Tudo isso está ligado a uma complexa história geológica anterior à formação dos Andes, que faz com que corram muito próximos às bacias ligadas à Cordilheira, mas não se misturem a elas. 

Esse tipo de explicação — capaz de reconstruir histórias imensas a partir de vestígios mínimos — é um lembrete poderoso do quanto devemos a mentes excepcionalmente afiadas, capazes de olhar para a evidência truncada do presente e deduzir bilhões de anos de história do planeta. Faz pensar em Newton e Darwin, dois dos cérebros mais brilhantes da espécie humana.

O primeiro, praticamente sozinho, fundou a ciência moderna, criando ferramentas matemáticas inéditas e formulando leis universais capazes de explicar, com a mesma estrutura conceitual, fenômenos terrestres e celestes. Entre seus 22 e 24 anos, Newton criou o cálculo diferencial e integral, formulou as bases da gravitação universal, desenvolveu as leis fundamentais do movimento e compreendeu a natureza da luz. No restante de sua vida, aprofundaria e detalharia tudo isso, mas a essência do que produziu foi moldada ao longo dos três anos de isolamento durante a epidemia de peste bubônica na Inglaterra, entre 1665 e 1667. Possivelmente, nenhum outro cientista uniu, nos conhecimentos que produziu, tanta profundidade teórica, poder de unificação e eficácia prática.

Se Newton representa o ápice da unificação matemática da natureza, Darwin encarna um feito de outra qualidade: mostrar que ordem, complexidade e adaptação podem emergir sem plano, intenção ou direção pré-determinada — uma ideia profundamente contraintuitiva, talvez a mais difícil que a ciência já nos pediu para aceitar.

Afinal, como entender que a extraordinária complexidade e adaptação dos seres vivos possam surgir sem intenção, plano ou direção, apenas pela ação cumulativa de variações aleatórias filtradas por condições ambientais? Isso desafia a intuição humana, que tende a esperar causas grandes para efeitos grandes. Como compreender que essa variação não se orienta para adaptações futuras, ocorrendo de forma aleatória? E, o mais perturbador e revolucionário: como aceitar que os humanos não ocupam uma posição ontologicamente distinta — fazem parte do mesmo processo que produz qualquer outra espécie?

O próprio Darwin, como se sabe, passou pelo Brasil em sua viagem no Beagle. O que eu não sabia — e descobri recentemente — é o quanto ele se encantou com Salvador (e seria possível não se encantar?)

Entre os bons presentes de fim de ano, ganhei Cartas Brasileiras, livro organizado por Sérgio Rodrigues, que junta, em belíssima edição, correspondências históricas — de políticos, artistas, cientistas, pessoas comuns — que são uma inusitada e rica janela para nossa história e cultura.

Entre elas, há essa carta que Charles Darwin remeteu a seu pai quando o Beagle atracou em Salvador. Diz ele: “Ninguém poderia imaginar nada tão bonito quanto a velha cidade da Bahia, aninhada graciosamente numa mata luxuriante de belas árvores e situada numa encosta íngreme, comandando uma vista das águas calmas da grande baía de Todos os Santos (…) é uma das visões mais belas do Brasil”.

Ler Darwin descrevendo Salvador com assombro e encantamento é lembrar de um tempo em que a ciência ainda parecia, para muitos, somente uma aventura de descoberta do mundo — não um campo de disputa política e desconfiança. 

Por isso, quis encerrar o ano celebrando a ciência. 

Em 2025, falei muito aqui neste espaço, e em outros lugares, sobre a crise de confiança na ciência como uma das questões mais relevantes de nosso tempo. Essa crise tem um lado angustiante porque literalmente ameaça nos deixar no escuro, sem o esteio e farol que ampara e ilumina nosso lugar no mundo e a maneira pela qual o entendemos. Todavia, aponta também para a possibilidade de um tempo novo, onde vamos continuar celebrando a razão e o conhecimento, mas não a ideia de uma “Verdade” com V maiúsculo — um tempo onde a ciência terá descido do desnecessário pedestal onde foi colocada para legitimar essa ideia lamentável de “progresso” e de um destino único para a humanidade; um tempo onde ela se integrará de forma transparente a um diálogo democrático de construção do nosso mundo comum.

A ciência é, afinal, uma empreitada fantástica — um caminho para entendermos nosso lugar no universo que me dá, ao mesmo tempo, senso de responsabilidade e humildade. Quando conectada a uma ética que valoriza a vida e o mistério, ela se torna uma ferramenta poderosa para encontrar sentido e melhorar nossa jornada, ainda que, no fundo, saibamos sempre muito pouco.

P.S: Na próxima semana, a coluna faz uma merecida pausa para arejar as ideias. Voltamos no dia 5 de janeiro.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
23.10.2026
Goiânia em nove capítulos: marcas que ajudam a contar a história da capital

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia nasceu de um projeto de modernização, ganhou forma entre avenidas largas e edifícios de linhas geométricas e, ao longo de nove décadas, construiu uma identidade que ultrapassa os limites de seu plano original. A capital que completa 93 anos neste sábado (24/10) guarda, em suas ruas, praças, monumentos e instituições, […]

Noite e Dia
22.10.2026
Goianienses prestigiam noite de música, teatro e dança com o espetáculo “Pop Hits”; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Os alunos do curso de Teatro Musical e da Banda Sinfônica Jovem de Goiás, da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França, apresentaram o espetáculo “Pop Hits” nesta quarta-feira (21/10), no Teatro Escola Basileu França, em Goiânia. A apresentação reuniu música, teatro e dança, com interpretações de canções conhecidas […]

Noite e Dia
19.10.2026
OCB/GO homenageia lideranças por atuação em prol do cooperativismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO homenageou, na última sexta-feira (16/10), três personalidades de destaque nos cenários regional e nacional, pelas suas contribuições ao cooperativismo. O prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, a presidente-executiva do Sistema OCB Nacional, Tania Zanella, e o ex-ministro da Agricultura, ex-presidente do Sistema OCB Nacional e da Aliança Cooperativa Internacional, […]

Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]