Nas espumas fabricadas por perfumados sais de banho eu mergulharia, após exaustivos e suarentos dias entre feras e, em seguida, sugaria a excessiva umidade de minha pele deslizante de réptil com felpudas toalhas brancas, que seriam trocadas a cada banho, assim como os lençóis (de 2 milhões de fios de algodão de egípcios faraós) a cada sono, não tendo eu uma pobre consciência que se preocupasse com o que representariam minhas pequenas extravagâncias para o destino do mundo e o armagedon (ora, a água do planeta não irá acabar por causa de minhas abluções e de meus sabões).
Assim atendida por uma diligente governanta, poderia me dedicar apenas às importantes lidas do espírito ou à gestão de minhas emoções desgovernadas. Certamente me sobraria mais tempo para chorar em paz e eu não teria que interromper a deliciosa atividade da escrita para acudir mais um chuveiro elétrico que explodiu, como acabou de acontecer agora.
Reconheço-me contaminada por muitos filmes de época (assisti praticamente a todas as adaptações para cinema dos livros da inglesa Jane Austen), viciada em muita literatura antiga (os autores do século XIX: Balzac, Flaubert, Stendhal, Tolstói são os meus preferidos); o luxo e o ócio com que viviam os personagens nessas obras retratados me divertem e fascinam.
Todavia, creio que uma vida sem trabalho é de absoluto tédio, pois a necessidade de caçar insetos é que dá sentido à existência dos sapos, que seriam porcos cevados, não sapos saltitantes e elásticos, se a comida lhes fosse dada de língua beijada.
Não precisariam confirmar presença e, ao chegar, encontrariam sempre uma iluminação e espelhos agradáveis, que lhes favorecessem os melhores e ângulos e traços, que lhes disfarçassem as imperfeições do rosto, as olheiras de exaustão; música cuidadosamente escolhida que não ferisse os tímpanos nem a sensibilidade; flores para agradar os olhos; iguarias e bebidas variadas para distrair o paladar; e sobretudo a companhia de outros, uns tantos seus iguais, uns tantos seus diferentes. Tudo naturalmente providenciado sob os cuidados de minha governadora de praticidades e realidades.
Eu não perderia também naturalmente a oportunidade de agir como uma daquelas velhas senhoras dos livros, que já tendo dobrado o Cabo da Boa Esperança de Novos Amores, se sentisse realizada vivendo um pouco dos amores alheios, desempenhando, portanto, prazerosamente, se não o papel de alcoviteira, de casamenteira.
Ah, porque afinal eu tenho tantos amigos coroas que desejam avidamente encontrar as caras metades. Quem sabe, portanto, ali, eu, um brinco sem par, pudesse lhes arranjar pares, grampeando-lhes os também desesperançados corações.
Para isso, sugeriria temas, formaria duplas de convivas que se afinassem, circularia pelas rodas animando-as com meus chistes, já que tenho descoberto tardiamente meu talento de humorista tragicômica (esta é a minha melhor piada, zombem de mim!) e zelaria para que fôssemos além da superfície das aparências e das conversas frívolas (empreitada dificílima, bem sei, já que esse foi sempre o mal de todos os salões de todos os tempos).
E mesmo nos dias em que eu estivesse indisposta, sentindo-me o farelo da bolacha desprezado no fundo do pacote, o pó do cocô do cavalo do bandido, e tivesse me recolhido aos meus aposentos, o salão de Condessa F. continuaria aberto, porque meus amigos precisam divertir-se e mutuamente consolar-se, e eu me sentiria assim mais nobre.
Como, porém, rica não nasci nem hei de tornar-me, consolo-me escrevendo e recebendo por aqui, embora de modo inconstante, às quintas, sem riquezas, nobrezas e grandezas, as visitas de seus poucos mas diletos e seletos olhos.