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Condessa F. recebe às quintas

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24.07.2014 - 18:29:13
Goiânia – Eu não gostaria de ser rica, apenas gostaria de poder desfrutar de pequenos luxos ou confortos, como  de uma daquelas antigas banheiras vitorianas com lindos  e curvos pés de metal cromado  instalada no meio de meu amplo quarto.

Nas espumas fabricadas por perfumados sais de banho eu mergulharia, após exaustivos e suarentos dias entre feras e, em seguida, sugaria a excessiva umidade de minha pele deslizante de réptil com felpudas toalhas brancas, que seriam trocadas a cada banho, assim como os lençóis (de 2 milhões de fios de algodão de egípcios faraós) a cada sono, não tendo eu uma pobre consciência que se preocupasse com o que representariam minhas pequenas extravagâncias para o destino do mundo e  o armagedon (ora, a água do planeta não irá acabar por causa de minhas abluções e de meus sabões).
 

Também gostaria de não ter que economizar na compra de requintados frascos de perfume, para poder variar as fragrâncias conforme o meu humor, que sofre muitas, muitas variações em intervalos curtíssimos de tempo. Seres multipolares certamente sempre deram muito lucro à indústria de perfumaria e  à de fármacos. 
 
Seria agradável também se tivesse ao meu dispor um daqueles funcionários faz-tudo, um tipo de secretária ou governanta que se ocupasse de todos os detalhes práticos da existência, miudezas como pagar as contas de telefone e energia;  brigar com as operadoras de cartão de crédito, planos de  saúde e telefonia; fazer e guardar as compras do supermercado; abastecer e calibrar os pneus do carro, despachar nos correios as "cartas que não te escrevi" e que teimosamente ainda escrevo, envelopes obstinadamente lacrados com cera e o brasão da milenar família Silva, destinadas a impossíveis destinatários.  

Assim atendida por uma diligente governanta, poderia me dedicar apenas às importantes lidas do espírito ou à gestão de minhas emoções desgovernadas. Certamente me sobraria mais tempo para chorar em paz e eu não teria que interromper a deliciosa atividade da escrita para acudir mais um chuveiro elétrico que explodiu, como acabou de acontecer agora.
 

Pensando melhor, até que me cairia bem ser rica, mas não cogitem que eu gostaria de ser uma madame ociosa, uma dondoca, a viver de rendas, e entre rendas e frufrus.

Reconheço-me contaminada por muitos filmes de época  (assisti praticamente a todas as adaptações para cinema dos livros da inglesa Jane Austen), viciada em muita literatura antiga  (os autores do século XIX: Balzac, Flaubert, Stendhal, Tolstói são os meus preferidos); o luxo e o ócio com que viviam os personagens nessas obras retratados me divertem e fascinam.

Todavia, creio que uma vida sem trabalho é de absoluto tédio, pois a necessidade de caçar insetos é que dá sentido à existência dos sapos, que seriam porcos cevados, não sapos saltitantes e elásticos, se a comida lhes fosse dada de língua beijada.
 

Não sei se me faço entender, mas digamos que da riqueza e da antiga nobreza eu inveje e deseje apenas algumas facilidades e frivolidades. Por exemplo, como gosto muito de receber meus amigos em minha casa, o que faço muitíssimo menos do que desejaria,  aliás nadíssimo ultimamente, por falta de  posses  (do dinheiro e do próprio tempo), gostaria de ser rica o bastante para ter um amplo salão, que seria sempre aberto às quintas-feiras (meu dia verde preferido) para um grupo dileto e muito seleto.
 
Se rica, gostaria de agir como uma daquelas baronesas ou condessas dos romances oitocentistas. Condessa F. recebe às quintas. Neste dia da semana,  religiosa e mundanamente, meus convidados saberiam que minha casa estaria aberta para eles.

Não precisariam confirmar presença e, ao chegar, encontrariam sempre uma iluminação e espelhos agradáveis, que lhes favorecessem os melhores e ângulos e traços, que lhes disfarçassem as imperfeições do rosto, as olheiras de exaustão; música cuidadosamente escolhida que não ferisse os tímpanos nem a sensibilidade;  flores para agradar os olhos; iguarias e bebidas variadas para distrair o paladar; e sobretudo a companhia de outros, uns tantos seus iguais, uns tantos seus diferentes. Tudo naturalmente providenciado sob os cuidados de minha governadora de praticidades e realidades.
 

Ao elaborar essa lista de convidados fixos,  eu iria selecionar pessoas que tivessem afinidade e aquelas também que se combinassem e encaixassem pela diferença. Para poupar-lhes de monotonia, a cada semana haveria uma meia dúzia de novos convidados eventuais, tipos singulares que colorissem e insuflassem um pouco de novidade no ambiente,  como costumava fazer "La comtesse" em algum romance,  invitando certo intelectual ou artista que fosse sensação naquela estação em Paris ou São Petersburgo.

Eu não perderia também naturalmente a oportunidade de agir como uma daquelas velhas senhoras dos livros, que já tendo dobrado o Cabo da Boa Esperança de Novos Amores,  se sentisse realizada vivendo um pouco dos amores alheios, desempenhando, portanto, prazerosamente,  se não o papel de alcoviteira, de casamenteira.

Ah, porque afinal eu tenho tantos amigos coroas que desejam avidamente encontrar as caras metades. Quem sabe, portanto, ali, eu,  um brinco sem par, pudesse lhes arranjar pares, grampeando-lhes os também desesperançados corações.
 

E nesse amplo salão sempre aberto às quintas, eu cuidaria que não se instalasse aquele silêncio constrangedor que observo em grande parte das festas, aquela falta de curiosidade e interesse humano que muitas vezes impede as pessoas de ser minimamente gentis, de entabular uma conversa ao menos por delicadeza.  

Para isso, sugeriria temas, formaria duplas de convivas que se afinassem, circularia pelas rodas animando-as com meus chistes, já que tenho descoberto tardiamente meu talento de humorista tragicômica (esta é a minha melhor piada, zombem de mim!) e zelaria para que fôssemos além da superfície das aparências e das conversas frívolas (empreitada dificílima, bem sei, já que esse foi sempre o mal de todos os salões de todos os tempos).
 

Não permitiria que se utilizassem dispositivos móveis, celulares e tablets, nos quais temos nos afundado, autistas, e iludidos pela perspectiva da grama virtual vizinha. Não tocaria tampouco músicas em volume tão alto que impedissem de ouvir a voz humana e de escutar as tempestades de nossa humanidade aflita.

E mesmo nos dias em que eu estivesse indisposta, sentindo-me o farelo da  bolacha desprezado no fundo do pacote, o pó do cocô do cavalo do bandido, e tivesse me recolhido aos meus aposentos,  o salão de Condessa F. continuaria aberto, porque meus amigos precisam  divertir-se e mutuamente consolar-se, e eu me sentiria assim mais nobre.

Como, porém, rica não nasci nem hei de tornar-me, consolo-me  escrevendo e recebendo por aqui, embora de modo inconstante, às quintas, sem  riquezas, nobrezas e grandezas, as visitas de seus poucos mas diletos e seletos olhos.

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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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