Carolina Pessoni
Goiânia – Elas chegam depois de romper o silêncio. Algumas deixam para trás a própria casa, outras fogem de ameaças de morte ou do tráfico de pessoas. Quase todas carregam marcas que não aparecem apenas no corpo. No Setor Norte Ferroviário, região central de Goiânia, encontram um lugar onde a proteção vem acompanhada de escuta, orientação e oportunidades para reconstruir a própria vida. É esse o trabalho desenvolvido pelo Centro de Valorização da Mulher Consuelo Nasser (Cevam), instituição que há 45 anos atua na defesa dos direitos das mulheres em Goiás.
Fundado em 20 de abril de 1981 por um grupo de feministas liderado por Consuelo Nasser, o Cevam nasceu em um contexto de mobilização nacional contra a violência de gênero. A entidade surgiu poucos dias após o assassinato da cantora Eliane de Grammont, morta pelo ex-marido, o cantor Lindomar Castilho, caso que se tornou símbolo da luta contra a chamada tese da “legítima defesa da honra”, utilizada durante décadas para justificar crimes contra mulheres.
Segundo a presidente do Cevam, Carla Monteiro, nos primeiros anos a instituição atuava como um espaço de articulação e defesa dos direitos das mulheres. “O Cevam ensinou Goiás a ouvir e respeitar as mulheres. Ao longo desse período, contribuiu para importantes conquistas, como a criação da segunda Delegacia da Mulher do Brasil, programas voltados à saúde da mulher, a primeira Secretaria da Mulher da América Latina e a ampliação da presença feminina em cargos de liderança”, afirma.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Ela explica que, em 1997, a entidade passou a acolher institucionalmente mulheres em situação de violência com a criação da Casa Abrigo. Desde o segundo semestre daquele ano, o Cevam funciona no imóvel localizado no Setor Norte Ferroviário, ocupado inicialmente após a saída da Companhia Feminina da Polícia Militar. Em 2000, a instituição recebeu a Permissão de Uso do espaço por meio da Lei Municipal nº 7.959, consolidando sua sede definitiva. Antes disso, a entidade funcionou em imóveis alugados e também na residência da própria fundadora.
Hoje, a estrutura dispõe de 30 vagas para acolhimento institucional e capacidade para atender até 177 mulheres em serviços de assistência. Atualmente, o Cevam abriga 19 mulheres e sete crianças, além de acompanhar outras 52 mulheres em situação de vulnerabilidade.
O ingresso na Casa Abrigo ocorre exclusivamente por encaminhamento de órgãos que integram a rede de proteção, como Tribunal de Justiça, Ministério Público, Defensoria Pública, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, Polícia Militar, Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e Conselhos Tutelares. “Por questões de segurança, não há possibilidade de entrada e saída ao longo do dia. Temos casos de mulheres juradas de morte e vítimas resgatadas do tráfico humano. Por isso seguimos protocolos rígidos de proteção”, explica Carla Monteiro.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Além do acolhimento, o Cevam oferece atendimento psicossocial, assistência jurídica, acompanhamento com assistente social, atendimento médico, psicoterapia e oficinas voltadas à autonomia econômica das mulheres. “Nosso objetivo é que elas deixem o Cevam em condições de reconstruir suas vidas também do ponto de vista financeiro”, destaca a presidente. Atualmente, em parceria com o Senai, a entidade oferece cursos de Assistente de Ambientes Digitais Integrados com Inteligência Artificial, Assistente de Desenvolvimento de IA, Auxiliar Administrativo e Assistente de Operações Logísticas 4.0, destinados às acolhidas e seus familiares.
De acordo com Carla Monteiro, desde a implantação da Casa Abrigo, mais de 37 mil mulheres, adolescentes e crianças passaram pelos serviços da instituição. Somente entre 2020 e junho de 2026, foram acolhidas ou assistidas 9.024 mulheres e 504 crianças.
A estrutura é mantida por uma equipe formada por seis funcionários e cinco profissionais voluntários, entre psicólogo, médico, advogada, contador e psicoterapeuta. Parte dos custos de água, energia elétrica e alimentação é custeada por meio de convênio com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds), renovado recentemente por mais 30 meses.
Ainda assim, a instituição enfrenta dificuldades financeiras. “Quando assumimos a gestão encontramos um passivo de quase R$ 1,3 milhão. Conseguimos reduzir esse valor em cerca de 58%, mas ainda precisamos quitar obrigações trabalhistas, encerrar ações judiciais e captar recursos para investir na estrutura e em projetos de prevenção à violência”, afirma Carla Monteiro.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Para manter as atividades, o Cevam depende também da solidariedade da sociedade. A entidade recebe doações de alimentos, produtos de higiene e limpeza, roupas, calçados, acessórios e contribuições financeiras. As peças arrecadadas abastecem um bazar permanente, cuja renda ajuda a custear despesas do dia a dia, como aquisição de gás e manutenção da horta.
Além das doações materiais, a presidente ressalta que o apoio financeiro continua sendo uma das principais necessidades da instituição para ampliar sua capacidade de atuação. “Precisamos de recursos que nos permitam concluir a reestruturação financeira do Cevam e investir em melhorias na sede, além de desenvolver ações educativas que ajudem a desconstruir a cultura da violência e promovam uma sociedade baseada na igualdade entre homens e mulheres e no respeito aos direitos humanos”, afirma.
Para Carla Monteiro, acolher vai muito além de oferecer proteção temporária. “Nosso trabalho é criar condições para que cada mulher rompa definitivamente o ciclo da violência, recupere sua autonomia e volte a acreditar em si mesma. É isso que o Cevam faz há 45 anos: transforma acolhimento em oportunidade de recomeço”, conclui.
