Carolina Pessoni
Goiânia – Antes de se tornar uma das principais instituições representativas do comércio goianiense, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) nasceu de uma necessidade muito concreta e quase cotidiana de quem vivia o varejo na capital ainda jovem. Em 1961, Goiânia tinha seu comércio concentrado no Centro e em Campinas. As vendas aconteciam, em grande parte, no crediário, com pagamentos parcelados em carnês. Mas havia um problema evidente: como confiar?
“A novidade que surgia no país era o SPC, que vinha proporcionar maior segurança nas vendas efetuadas sempre na base do carnê de pagamentos”, relembram os ex-presidentes da entidade, Edson Abrão da Silva e Mário Lúcio Sobrosa. Foi nesse contexto que nasceu o então Clube de Diretores Lojistas de Goiânia, impulsionado por empresários que já percebiam que o crescimento da cidade exigia organização, informação e representação.
Mais de seis décadas depois, a essência permanece reconhecível. “A CDL nasceu da necessidade do comércio conseguir conceder crédito em Goiânia”, resume o atual presidente, Gustavo Henrique Marcelo de Faria.

Momentos históricos da CDL nos anos de 1963, 1972, 1982 e 1986 (Fotos: Arquivo/CDL)
Ao longo dos anos, a entidade não apenas acompanhou a evolução do varejo, ela ajudou a estruturá-la. Um dos primeiros marcos foi a consolidação física no Centro, com a aquisição da sede própria no Edifício Minas Bank, na Praça do Bandeirante.
Mas foi nos bastidores da operação que aconteceram algumas das mudanças mais decisivas. “A aquisição de moderno sistema de telefonia, passando de um PBX para um PABX, agilizou sobremaneira a tomada de informações no SPC”, apontam os ex-presidentes.
Na sequência, vieram avanços que hoje parecem óbvios, mas que, à época, eram revolucionários: consultas diretas a cheques dentro das lojas, informatização do sistema e, posteriormente, a interligação entre CDLs, com Goiânia se tornando referência na centralização de dados de crédito. Esse movimento consolidou a entidade como um eixo de modernização do comércio regional.

Galeria de ex-presidentes da entidade (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Há momentos, no entanto, em que essa trajetória extrapola o universo local. Em 1994, Goiânia recebeu a 35ª Convenção Nacional do Comércio Lojista, um evento que reuniu milhares de participantes e colocou a cidade no centro das discussões econômicas do país. “A mais importante Convenção Lojista daquelas até então realizadas”, registram Edson Abrão da Silva e Mário Lúcio Sobrosa.
Foi ali, inclusive, que se consolidou a mudança de nome para Câmara de Dirigentes Lojistas, mantendo a sigla que já carregava reconhecimento nacional.
Se a história da CDL se mistura à do comércio, ela também passa, inevitavelmente, pelo debate público. Ao longo dos anos, a entidade se posicionou como ponte entre o setor produtivo e o poder público. Edson Abrão da Silva e Mário Lúcio Sobrosa destacam que a Câmara sempre se colocou à disposição para a defesa dos interesses da classe empresarial, citando a criação do setor de Relações Institucionais e Governamentais.
Mas é na leitura contemporânea dessa trajetória que a instituição revela outro traço importante: a capacidade de se reinventar sem romper com suas raízes. A sede, que começou na Avenida Goiás e hoje está no Setor Oeste, passou por sucessivas atualizações, desde a infraestrutura à proposta de uso. “O prédio passa por atualizações sempre, mas há mais ou menos três anos construímos um hub, uma nova estrutura adequada aos novos tempos”, explica Gustavo.

Hub CDL veio para atender as novas necessidades da entidade e dos lojistas goianienses (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
A lógica acompanha as transformações do próprio comércio: coworking, educação, produção de conteúdo e novos formatos de negócio convivendo com a tradição institucional. Essa mesma visão se projeta para a cidade. “A gente busca manter a história sem que ela impeça a modernização”, afirma o presidente ao falar sobre o envolvimento da CDL em iniciativas de revitalização do Centro de Goiânia.
Mais do que uma pauta econômica, trata-se de uma escolha urbana. A entidade defende a reocupação da região central, a valorização da arquitetura art déco e a retomada da vida cotidiana no coração da cidade. “Ter um Centro pujante é importante, porque estimula até mesmo o turismo e resgata a nossa história”, completa.
Ao completar 65 anos, a CDL Goiânia carrega uma trajetória que não se limita à representação de uma classe. Ela revela como o comércio ajudou a desenhar a cidade e como, ainda hoje, continua participando das decisões sobre o seu futuro. Isso porque a história da CDL não está apenas nos arquivos ou nas atas. Ela está nas ruas onde o comércio nasceu e insiste em se reinventar.
