Zurique – Tudo muito. Tudo sufoca, a impressão de que os dias começam e acabam em um sopro, meio segundo. Que os dias passam sem passar, que as semanas pulam, de segunda a segunda, que os anos não esperam e os meses se embaralham e só o Natal marca, no espaço do tempo, sua bandeira inconfundível. De natal a natal, um sopro, ventania de dias que passam sem deixar marcas, mas arranham cicatrizes. Boas, ruins, tanto faz. Ela se pergunta se é a idade, o tempo, televisão, computador, que lhe deixam assim embaralhada diante da dinâmica do mundo, pessoal e coletivo.
Será o sinal dos tempos ou apenas o seu sinal? O telefone, iPad, a porta. Tudo lhe engole, lhe invade, pede socorro, mas ele não vem, nem o silêncio lhe tira dessa. Fecha as portas, janelas, não atende ninguém e mesmo assim o barulho permanece ensurdecedor. O que fazer? Fugir pela lateral, pela ribanceira, meu amor?
Não, nada disso adianta. Amores se foram, outros vieram, ficaram, amigos, parentes, vizinhos, filhos, jardineiro, até o carteiro bate na porta e lhe impede de sorrir, pois muitas são as perguntas, muitos, são os papéis a guardar, ordenar, recolher, pagar, esquecer, apagar, riscar, ousar, limpar, embrulhar, escrever, representar. Também as letras não lhe deixam em paz. Dizer, sempre dizer, mesmo sem palavras. Ousa o nada. Mas ele também exige atenção redobrada, s-o-s-s-e-g-o, do infinitivo sossegar – só cega o ar. Respirar.
Em cima da árvore ousava ficar só. Mas isso passou. O que diriam os vizinhos ao lhe ver trepar no tronco da castanheira e se acocorar em seus galhos para respirar. Respirar o horizonte. Nada mais. Uma vez se escondeu num mosteiro. Foi bom, silêncio obrigatório, maravilha. Mas isso também passou.
Seu coração vai aleijado, torto, cheio, adiposo, acima do peso das possibilidades. Afirma que ele é pequeno, não cabe o mundo e não acreditam. Tantas vozes, tantas mãos e quer todas, acariciar o gesto impávido ao longe. Dinâmica pura. Quer paz. Não quer comentar, discutir, apenas calar, de preferência na mesa do bar, cerveja, cachaça, vinho, tanto faz. Entender sem dizer, ouvir sem pretender. Enfim sossegar.
Pensa no tempo, no avião, globalização, mercado e virtual. Tudo pode! Tudo é possível! Mas não quer o possível. Gosta do impossível e seu gosto amargo-doce. Gosta do improvável, de cartas, selos, telegramas e fitas com furinhos, decifrando mensagens além-mar. Por favor, tragam-lhe de volta o impossível! Gosta mais.
Pensa no passado, presente, e se pergunta, estamos hoje mais rápidos, mais felizes. Pra quê? Ela se sente plena, excesso de peso, excesso de peso existencial. As notícias no jornal lhe atropelam, os livros, o cardápio do almoço, o remédio na farmácia, o cartão de crédito, a grama pra cortar, a revolução que passou, as contas a pagar. Quer leveza e laissez-faire. Mundo bandido, ingrato, injusto. Apenas mundo. Aceitar, nada mais.
Mas é preciso fazer esporte, museus, concertos, livros, bolas de lã, bordar palavras, fazer pães, plantar ervas, ouvir, cantar, assoviar e chupar cana, assoviar e mascar chiclete, chiclete não, só criança pode, criança sim, passear, viajar, ouvir o canto das sereias. Ao longe. Até quando?
O corpo pede ajuda, tosse, raspa a garganta, engasgado na multiplicidade binária digital emocional econômica politicamente correta e engraçada apesar de profundamente analiticamente desvairadamente biológica e esporte não faz, mas queria ontem quase que foi mas hoje não pode consulta no médico, pra quê? acha que o melhor é apagar a luz e ir dormir mais cedo sem dar adeus, sem conectar, sem curtir, ouvir as novidades que não têm fim que nunca terão que já serão velhas um minuto após o outro e você? E eu? E o gato da vizinha, acordei sonhando de novo pra quê? Pra quê?
A expectativa come, o consumo consome. Ter, ter, ter, saber, saber, fazer, parecer. Quer ouvir. E nem pensar. Sentar e ouvir as nuvens que passam no céu de olhos fechados. Sentar e passar as mãos no vento, na tempestade que vai chegar, no sol, raios oblíquos na parede. Calar.