Logo

Calar

WhatsAppFacebookLinkedInX
19.10.2012 - 11:04:45
 

Zurique – Tudo muito. Tudo sufoca, a impressão de que os dias começam e acabam em um sopro, meio segundo. Que os dias passam sem passar, que as semanas pulam, de segunda a segunda, que os anos não esperam e os meses se embaralham e só o Natal marca, no espaço do tempo, sua bandeira inconfundível. De natal a natal, um sopro, ventania de dias que passam sem deixar marcas, mas arranham cicatrizes. Boas, ruins, tanto faz. Ela se pergunta se é a idade, o tempo, televisão, computador, que lhe deixam assim embaralhada diante da dinâmica do mundo, pessoal e coletivo. 

 
Será o sinal dos tempos ou apenas o seu sinal? O telefone, iPad, a porta. Tudo lhe engole, lhe invade, pede socorro, mas ele não vem, nem o silêncio lhe tira dessa. Fecha as portas, janelas, não atende ninguém e mesmo assim o barulho permanece ensurdecedor. O que fazer?  Fugir pela lateral, pela ribanceira, meu amor?
 
Não, nada disso adianta. Amores se foram, outros vieram, ficaram, amigos, parentes, vizinhos, filhos, jardineiro, até o carteiro bate na porta e lhe impede de sorrir, pois muitas são as perguntas, muitos, são os papéis a guardar, ordenar, recolher, pagar, esquecer, apagar, riscar, ousar, limpar, embrulhar, escrever, representar. Também as letras não lhe deixam em paz. Dizer, sempre dizer, mesmo sem palavras. Ousa o nada. Mas ele também exige atenção redobrada, s-o-s-s-e-g-o, do infinitivo sossegar – só cega o ar. Respirar.
 
Em cima da árvore ousava ficar só. Mas isso passou. O que diriam os vizinhos ao lhe ver trepar no tronco da castanheira e se acocorar em seus galhos para respirar. Respirar o horizonte. Nada mais. Uma vez se escondeu num mosteiro. Foi bom, silêncio obrigatório, maravilha. Mas isso também passou.
 
Seu coração vai aleijado, torto, cheio, adiposo, acima do peso das possibilidades. Afirma que ele é pequeno, não cabe o mundo e não acreditam. Tantas vozes, tantas mãos e quer todas, acariciar o gesto impávido ao longe. Dinâmica pura. Quer paz. Não quer comentar, discutir, apenas calar, de preferência na mesa do bar, cerveja, cachaça, vinho, tanto faz. Entender sem dizer, ouvir sem pretender. Enfim sossegar.
 
Pensa no tempo, no avião, globalização, mercado e virtual. Tudo pode! Tudo é possível! Mas não quer o possível. Gosta do impossível e seu gosto amargo-doce. Gosta do improvável, de cartas, selos, telegramas e fitas com furinhos, decifrando mensagens além-mar. Por favor, tragam-lhe de volta o impossível! Gosta mais.
 
Pensa no passado, presente, e se pergunta, estamos hoje mais rápidos, mais felizes. Pra quê? Ela se sente plena, excesso de peso, excesso de peso existencial. As notícias no jornal lhe atropelam, os livros, o cardápio do almoço, o remédio na farmácia, o cartão de crédito, a grama pra cortar, a revolução que passou, as contas a pagar. Quer leveza e laissez-faire. Mundo bandido, ingrato, injusto. Apenas mundo. Aceitar, nada mais.
 
Mas é preciso fazer esporte, museus, concertos, livros, bolas de lã, bordar palavras, fazer pães, plantar ervas, ouvir, cantar, assoviar e chupar cana, assoviar e mascar chiclete, chiclete não, só criança pode, criança sim, passear, viajar, ouvir o canto das sereias. Ao longe. Até quando?
 
O corpo pede ajuda, tosse, raspa a garganta, engasgado na multiplicidade binária digital emocional econômica politicamente correta e engraçada apesar de profundamente analiticamente desvairadamente biológica e esporte não faz, mas queria ontem quase que foi mas hoje não pode consulta no médico, pra quê? acha que o melhor é apagar a luz e ir dormir mais cedo sem dar adeus, sem conectar, sem curtir, ouvir as novidades que não têm fim que nunca terão que já serão velhas um minuto após o outro e você? E eu?  E o gato da vizinha, acordei sonhando de novo pra quê? Pra quê? 
 
A expectativa come, o consumo consome. Ter, ter, ter, saber, saber, fazer, parecer. Quer ouvir. E nem pensar. Sentar e ouvir as nuvens que passam no céu de olhos fechados. Sentar e passar as mãos no vento, na tempestade que vai chegar, no sol, raios oblíquos na parede. Calar.  
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]