A cineasta Karol Maia, filha da empregada doméstica Miriam, muitas vezes acompanhava a mãe no serviço em São Paulo e sempre se lembrou de que a coisa mais importante que devia fazer era passar despercebida. Foi inclusive assim que conheceu o mar: enquanto a mãe cuidava dos filhos da patroa na praia, ela explorava e pulava nas ondas, mas quietinha, em silêncio.
“Aqui Não Entra Luz”, seu primeiro longa-metragem, revela a vida invisível e relatos infelizmente familiares de empregadas domésticas de vários cantos do Brasil: locais diferentes, histórias de vida parecidas. O documentário também joga luz sobre a herança escravocrata que paira sobre esse tipo de trabalho, marcado por muitos anos por práticas ilegais e desumanas.
Se hoje o trabalho doméstico possui legislação própria e, em alguns Estados, até sindicato, foi graças às dores, ao sofrimento e à luta de mulheres como as que ilustram o filme. Os relatos se repetem sobre práticas que deviam causar estranhamento, mas que eram normais: meninas separadas da família, analfabetas ou semianalfabetas, que não podiam sair de seus quartinhos e da cozinha, muito menos frequentar a escola, sem salários, trabalhando todo dia a troco de comida e teto desde os seis, sete anos de idade.
Mulheres que não conheciam o mundo fora do quartinho, uma invenção brasileira, geralmente sem janela e frequentemente sem TV ou rádio: só um lugar para dormir e depois voltar ao trabalho. Mas o corpo e a mente querem mais e, apesar da dificuldade, o filme também mostra como essas mulheres, aos poucos, conquistaram sua liberdade, suas casas, suas famílias, inclusive ainda trabalhando como domésticas, mas agora donas de si.
E isso é bom, pois com relatos pesados, o filme podia cair num poço sem fundo de miséria, mas Karol evita o dramalhão: nada de música de fundo, choradeira, etc. As mulheres falam por si, dão suas entrevistas nas salas das próprias casas, abrem feridas doloridas apenas para mostrar que essa dor ficou no passado.
Em um momento em que se discute escala 6×1, pejotização e perdas de direitos trabalhistas, o filme se mostra relevante a partir do seu recorte específico sobre como a corda arrebenta sempre para o lado do mais fraco: afinal, essas mulheres lutaram tanto apenas para mais gente terminar aprisionada pelo próprio trabalho?
“Aqui Não Entra Luz”, distribuído pela Embaúba Filmes, estreia nos cinemas no dia 7 de maio.
*O colunista assistiu ao filme em cabine on-line disponibilizada pela Embaúba Filmes.
