Um termo muito utilizado por aí, mas que cabe perfeitamente para descrever Alpha, novo filme de Julia Ducournau, é “ousado”. O filme assume grandes riscos, realmente se joga, mas tem dificuldades em conseguir acertar todas essas apostas.
Disponível com exclusividade na Mubi, o filme acompanha a história da jovem Alpha, uma menina de 13 anos que toma um porre em uma festa e acorda com uma tatuagem da letra “A”, feita por outro colega bêbado com uma agulha suja. Isso já seria ruim, exceto pelo fato de haver também uma epidemia de uma doença terrível e letal, transmitida pelo sangue, que literalmente transforma as pessoas em pedra.
A partir daí, a cineasta explora temas recorrentes em seus filmes: família, pertencimento e preconceito. Mas ela também abre o leque para incluir subtramas e outros assuntos que acabam tumultuando e disputando espaço no longa-metragem: temas como vício, identidade, memória, perda e xenofobia se misturam aos demais, e é aí que amarrar essa coisa toda se torna difícil.
O problema se intensifica conforme o filme faz outra escolha arriscada: ele lentamente migra de uma estrutura realista e causal para uma conclusão mergulhada no simbólico e no sensível. É como começar a ver uma versão nova e interessante de Carrie, a Estranha e terminar em Estrada Perdida, de David Lynch. Muito se perde nessa transição.
Também não é possível dizer que o filme não é interessante nem relevante: os temas centrais estão lá e são perenes nas discussões atuais, mas se perdem no tumulto. A própria trama, que começa aparentemente como um possível terror corporal misturado com coming of age, logo vira um melodrama familiar intenso.
Ainda mais estranho: a própria Alpha, mais ou menos na metade do filme, desaparece da própria história, tendo o holofote roubado pela dor, pelo trauma e pela jornada de sua mãe, médica, e por seu relacionamento com o irmão viciado e doente terminal, Amin.
Pior ainda: a relação dos dois acaba sendo muito mais interessante do que a jornada de Alpha, que acaba relegada à condição de coadjuvante mesmo na conclusão onírica da trama, com o seu olhar se misturando ao olhar infantil que precisa encarar e lidar com eventos traumáticos.
Visualmente, o filme envolve e também vai ficando mais onírico conforme avança, misturando linhas do tempo, realidade e o simbólico. Esse visual é mais marcante na caracterização da misteriosa doença, uma óbvia alegoria à Aids, que, embora mate suas vítimas de forma brutal, também as transforma, na morte, em belas estátuas.
O elenco trabalha bem, em particular Golshifteh Farahani, como a mãe, e Tahar Rahim, como o tio Amin, que acabam sendo o verdadeiro núcleo dramático do filme. Mélissa Boros se sai bem como Alpha, sendo tão irritante e irresponsável quanto uma adolescente de 13 anos realmente é.
Enfim, Alpha arrisca, mas acaba sufocado pelo próprio volume. Há beleza e pertinência aqui, mas talvez sejam necessárias uma pá, uma lanterna e, principalmente, uma tesoura para encontrá-las.
