Carolina Pessoni
Goiânia – No traçado simbólico do Centro de Goiânia, onde a cidade foi pensada para existir e permanecer, há uma instituição que também se afirma como projeto de continuidade. A Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag), localizada no Setor Sul, região central da Capital, nasce, em 1969, não apenas como entidade cultural, mas como resposta direta a um silêncio imposto.
À época, mulheres eram formalmente excluídas da Academia Brasileira de Letras e, por consequência, das academias estaduais. “Em Goiânia, na área das letras, as mulheres não podiam entrar”, afirma a presidente da Aflag, Andréa Luísa de Oliveira Teixeira. Esse apagamento não era abstrato: ele delimitava quem podia escrever, publicar e, sobretudo, ser reconhecido.
A criação da Aflag, idealizada por Rosarita Fleury ao lado de outras intelectuais, rompe esse circuito. Mais do que ocupar um espaço, as fundadoras criam outro, com regras próprias, centradas na legitimidade da produção feminina. “Significava não só presença, mas protagonismo. A possibilidade de dizer, escrever, pensar e registrar a cultura a partir de si”, resume Andréa.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Essa ruptura dialoga com um momento paradoxal da história local. Enquanto as letras fechavam portas, a música abria caminhos: o Conservatório Goiano, liderado por mulheres, foi peça-chave na criação da Universidade Federal de Goiás, com nomes como Maria Lucy Veiga Teixeira mobilizando esforços até Brasília, junto a Juscelino Kubitschek. A Aflag surge, portanto, nesse entre-lugar: onde algumas portas começavam a se abrir, enquanto outras ainda permaneciam cerradas.
Hoje, mais de cinco décadas depois, a instituição mantém uma liturgia que é, ao mesmo tempo, tradição e gesto político. As cadeiras não são apenas símbolos, são linhas de continuidade. Quem as ocupa dialoga com quem veio antes e projeta novas possibilidades. Nos rituais de posse e nas homenagens, a visibilidade feminina deixa de ser exceção e passa a ser regra.
Ao longo do tempo, a cidade mudou, expandiu, diversificou suas linguagens, multiplicou espaços culturais. A Aflag acompanhou essas transformações, ampliando diálogos e incorporando vozes mais plurais. Mas há um eixo que permanece intacto: “o compromisso com a valorização da produção feminina e a construção de um espaço de legitimidade para a palavra das mulheres”, conforme sublinha Andréa.
Parte desse trabalho não aparece em atas nem registros oficiais. Está nos deslocamentos silenciosos que a instituição provoca. Mulheres que chegam com textos guardados por anos e, ali, encontram coragem para publicá-los. Professoras que levam essa experiência para a sala de aula. Escritoras que, após uma primeira leitura pública, passam a ocupar outros espaços. “É nesse movimento que a Aflag cumpre uma de suas funções mais profundas: abrir caminhos para que outras mulheres se autorizem a criar”, diz a presidente.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Entre essas trajetórias, surgem nomes que desafiam a lógica da visibilidade. Como Sinvaline Pinheiro, que aprendeu a escrever sozinha, na lida com a terra, e teve sua produção reconhecida por Manoel de Barros. Histórias que não cabem nos arquivos formais, mas sustentam a memória viva da instituição.
Se hoje o debate sobre representatividade avançou, a necessidade da Aflag persiste, talvez, em outra camada. “Ela segue sendo um gesto de resistência, não mais apenas contra a exclusão explícita, mas contra o esquecimento e a dispersão”, afirma Andréa.
Na região central da Capital onde a cidade respira sua história, a Academia não ocupa apenas um endereço. Ela se inscreve no território. Entre linhas art déco e fluxos contemporâneos, sustenta algo menos visível, mas essencial: a permanência da palavra feminina como parte estruturante da cultura goiana. E, como a própria Goiânia, continua sendo um projeto em movimento, escrito todos os dias.

Amei o texto, por exemplo: ” a permanência da palavra feminina como parte estruturante da cultura Goiana. E, como a própria Goiânia (*e Paráuna!*), continua sendo um projeto em movimento (*constante e inacabado*), escrito todos os dias”. [email protected].