Logo

A Visão dos Ungidos

WhatsAppFacebookLinkedInX
15.07.2022 - 09:16:21

 
Aurangzeb reinou o Império Mogol de 1658 a 1707, sendo filho de Mumtaz Mahal e Shah Jehan (aquele que ordenou a construção do Taj Mahal em homenagem a ela). Mesmo herdando de seus pais vasto e estável domínio que abrangia quase a totalidade do subcontinente indiano, seu reinado iniciou o declínio da hegemonia islâmica que já durava mais de 200 anos na Índia. Ele era de dinastia persa e professava a religião muçulmana, enquanto seus súditos englobavam uma miríade de línguas e etnias e seguiam quase todos a fé hindu. Seus antepassados, cientes da tensão que isto causava, agiam com cautela, respeitando as tradições locais de cada região e confinando seu papel administrativo a eventual coleta de tributo. Embora a população indiana já estivesse aclimatada a ser governada por estrangeiros, ela reagia mal a qualquer sorte de interferência nos seus hábitos ancestrais.

Ascendendo ao trono Aurangzeb ignorou os ensinamentos de seu avô Akbar e tentou forçosamente converter o país inteiro à fé de Maomé, exigindo impostos extraordinários dos hindus, queimando seus templos e construindo mesquitas no lugar. Uma de suas mais famosas extravagâncias foi sequestrar recém-nascidos e realocá-los para uma casa especial, onde nenhuma pessoa poderia conversar com eles, para que a “língua natural da humanidade” pudesse ser “revelada” através deste experimento. Ainda, Aurangzeb substituiu as lideranças regionais por “homens letrados em jurisprudência islâmica” formados nas academias persas e impôs a sharia como nova lei da terra.

Os equívocos deste monarca foram fruto de sua soberba, esta vontade de ser maior do que nos é oferecido por Providência ou pela natureza. Estes erros desestabilizariam o Império e abririam caminho para que os britânicos conquistassem a Índia e ocupassem o vácuo político que os mogóis deixaram. Aurangzeb denunciava tudo e todos pelo fracasso de suas políticas, que soavam meticulosamente bem planejadas nas discussões que tratava com seus intelectuais nos palácios de Agra e Déli, ambientes irrestritos pelo feedback da realidade que parecia nunca colaborar com o rei. Em correspondência trocada com Luís XIV da França lamenta a ignorância camponesa e culpa-os por não “cooperarem” com sua nova ordem imposta.

A este tipo de personalidade o economista americano Thomas Sowell dá o nome de “ungido”, dedicando magnífico livro exclusivamente à análise deste tipo (The Vision of the Anointed – A Visão dos Ungidos, em tradução livre). Para Sowell, o ungido é aquele que se reputa membro de uma autoproclamada “elite intelectual”, ou intelligentsia em termos soviéticos, que promove uma particular visão de mundo forjada em ambientes impermeáveis à realidade fática. Para eles, sua ideologia os confere um estado de “graça divina”, pois deliram estar não somente corretos, mas ocupar um plano moral superior às massas ignorantes, visto que enquanto eles refletem sobre as grandes questões da humanidade, o povão está preso às banalidades do cotidiano.

A confiança dos ungidos em seu próprio intelecto tem como contraponto sua completa descrença nas instituições que atuam sem sua intervenção. Assim, a operação de um livre mercado é suspeita aos olhos ungidos, e o controle e regulação governamental da atividade econômica lhes parece racional, não importa quantas vezes este modelo tenha falhado no passado. Os ungidos acreditam que terceiros elegeriam prioridades melhores para as pessoas do que elas próprias, principalmente se estes terceiros forem eles mesmos.

Segundo Sowell, o que raramente constitui a visão dos ungidos é o conceito de pessoas comuns como tomadoras de decisões soberanas e livres para rejeitar sua ideologia, buscando seu próprio bem-estar através de processo social à sua escolha. Portanto, quando os ungidos falam da “família”, mesmo que apenas para dispersar a ênfase de seus adversários em valores familiares, eles percebem esta categoria tão-só como instituição recipiente de benesses e orientação governamental, ou como “patriarcal e opressiva”, ao invés de entidade soberana capaz de determinar por si só seus próprios valores e aqueles os quais incutirá em suas crianças. Nas palavras da ungida socióloga Marilena Chauí: “a família foi uma construção do capitalismo burguês para a manutenção da propriedade privada e a submissão feminina”.

Para o ungido o público serve não somente como objeto de desprezo, mas patamar por onde medir a sua sublime superioridade seja em gosto artístico, opinião política ou outros campos. Os meios de expressão que canalizam as visões e valores do povão devem ser contornados, enquanto os artistas prediletos dos ungidos devem ser financiados com recursos compulsoriamente extraídos do contribuinte. O que o povo quer ou não deve ser ignorado, e se ele rejeita a visão dos ungidos, estes dizem lhe faltar “consciência de classe” ou batizam-lhe de “pobre de direita”. Thomas Sowell diferencia a visão dos ungidos com o que chama de “visão trágica”, uma concepção aristotélica cujo raciocínio se fundamenta na tragédia da condição humana. Ele toma “tragédia” não como “infelicidade”, mas em seu sentido da Grécia antiga, um certo destino inescapável e inerente à natureza das coisas.

O ungido trata tradições e costumes populares como uma indesejável influência do passado, relíquia de era menos esclarecida, e não como a vivência de milhões de pessoas que enfrentaram infortúnios similares em outros tempos. Ademais, ele considera experiências passadas inúteis, devido às “grandes mudanças” ocorridas desde períodos mais simples. Aqueles com a visão trágica, contudo, não enxergam notável variação das capacidades intelectuais e morais dos homens desde o início de nossa trajetória histórica não importando o quão tecnologicamente avançados somos hoje. Enquanto os de visão trágica olham para o passado para não repetir os mesmos equívocos de seus ancestrais, os ungidos idealizam datas de inauguração do mundo: a revolução francesa, a revolução comunista da Rússia, os protestos socialistas do maio de 68 em Paris. Para a visão trágica, a barbárie não é um distante estágio evolutivo, mas uma ameaça sempre presente, pois a civilização não é herdada. Ela deve ser ensinada e conquistada por cada geração, uma vez que ela morre caso esta transmissão seja interrompida e retornaríamos à selvageria.

Entre as instituições sociais originadas espontaneamente estão os laços pessoais formados dentro das famílias ou de uma comunidade. Estes são tratados como fontes preciosas de motivação e coesão por aqueles com a visão trágica, que veem tais elos como um contraponto ao egoísmo inerente dos indivíduos. No entanto, esses mesmos vínculos despertam menos entusiasmo e até hostilidade por parte dos ungidos, para quem estas relações particulares são enxergadas como obstáculos para uma ampla reengenharia social ou mesmo para se declarar “um cosmopolita cidadão do mundo”.

Para a visão dos ungidos um novo mundo é possível, assim como um novo homem, desde que nós trogloditas os botemos no poder. E a principal exigência dos ungidos continua a mesma: seguir nunca arcando com as consequências de seus erros.
 
*Jales Naves Júnior é advogado.
 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Jales Naves Júnior

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]