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A Visão dos Ungidos

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15.07.2022 - 09:16:21

 
Aurangzeb reinou o Império Mogol de 1658 a 1707, sendo filho de Mumtaz Mahal e Shah Jehan (aquele que ordenou a construção do Taj Mahal em homenagem a ela). Mesmo herdando de seus pais vasto e estável domínio que abrangia quase a totalidade do subcontinente indiano, seu reinado iniciou o declínio da hegemonia islâmica que já durava mais de 200 anos na Índia. Ele era de dinastia persa e professava a religião muçulmana, enquanto seus súditos englobavam uma miríade de línguas e etnias e seguiam quase todos a fé hindu. Seus antepassados, cientes da tensão que isto causava, agiam com cautela, respeitando as tradições locais de cada região e confinando seu papel administrativo a eventual coleta de tributo. Embora a população indiana já estivesse aclimatada a ser governada por estrangeiros, ela reagia mal a qualquer sorte de interferência nos seus hábitos ancestrais.

Ascendendo ao trono Aurangzeb ignorou os ensinamentos de seu avô Akbar e tentou forçosamente converter o país inteiro à fé de Maomé, exigindo impostos extraordinários dos hindus, queimando seus templos e construindo mesquitas no lugar. Uma de suas mais famosas extravagâncias foi sequestrar recém-nascidos e realocá-los para uma casa especial, onde nenhuma pessoa poderia conversar com eles, para que a “língua natural da humanidade” pudesse ser “revelada” através deste experimento. Ainda, Aurangzeb substituiu as lideranças regionais por “homens letrados em jurisprudência islâmica” formados nas academias persas e impôs a sharia como nova lei da terra.

Os equívocos deste monarca foram fruto de sua soberba, esta vontade de ser maior do que nos é oferecido por Providência ou pela natureza. Estes erros desestabilizariam o Império e abririam caminho para que os britânicos conquistassem a Índia e ocupassem o vácuo político que os mogóis deixaram. Aurangzeb denunciava tudo e todos pelo fracasso de suas políticas, que soavam meticulosamente bem planejadas nas discussões que tratava com seus intelectuais nos palácios de Agra e Déli, ambientes irrestritos pelo feedback da realidade que parecia nunca colaborar com o rei. Em correspondência trocada com Luís XIV da França lamenta a ignorância camponesa e culpa-os por não “cooperarem” com sua nova ordem imposta.

A este tipo de personalidade o economista americano Thomas Sowell dá o nome de “ungido”, dedicando magnífico livro exclusivamente à análise deste tipo (The Vision of the Anointed – A Visão dos Ungidos, em tradução livre). Para Sowell, o ungido é aquele que se reputa membro de uma autoproclamada “elite intelectual”, ou intelligentsia em termos soviéticos, que promove uma particular visão de mundo forjada em ambientes impermeáveis à realidade fática. Para eles, sua ideologia os confere um estado de “graça divina”, pois deliram estar não somente corretos, mas ocupar um plano moral superior às massas ignorantes, visto que enquanto eles refletem sobre as grandes questões da humanidade, o povão está preso às banalidades do cotidiano.

A confiança dos ungidos em seu próprio intelecto tem como contraponto sua completa descrença nas instituições que atuam sem sua intervenção. Assim, a operação de um livre mercado é suspeita aos olhos ungidos, e o controle e regulação governamental da atividade econômica lhes parece racional, não importa quantas vezes este modelo tenha falhado no passado. Os ungidos acreditam que terceiros elegeriam prioridades melhores para as pessoas do que elas próprias, principalmente se estes terceiros forem eles mesmos.

Segundo Sowell, o que raramente constitui a visão dos ungidos é o conceito de pessoas comuns como tomadoras de decisões soberanas e livres para rejeitar sua ideologia, buscando seu próprio bem-estar através de processo social à sua escolha. Portanto, quando os ungidos falam da “família”, mesmo que apenas para dispersar a ênfase de seus adversários em valores familiares, eles percebem esta categoria tão-só como instituição recipiente de benesses e orientação governamental, ou como “patriarcal e opressiva”, ao invés de entidade soberana capaz de determinar por si só seus próprios valores e aqueles os quais incutirá em suas crianças. Nas palavras da ungida socióloga Marilena Chauí: “a família foi uma construção do capitalismo burguês para a manutenção da propriedade privada e a submissão feminina”.

Para o ungido o público serve não somente como objeto de desprezo, mas patamar por onde medir a sua sublime superioridade seja em gosto artístico, opinião política ou outros campos. Os meios de expressão que canalizam as visões e valores do povão devem ser contornados, enquanto os artistas prediletos dos ungidos devem ser financiados com recursos compulsoriamente extraídos do contribuinte. O que o povo quer ou não deve ser ignorado, e se ele rejeita a visão dos ungidos, estes dizem lhe faltar “consciência de classe” ou batizam-lhe de “pobre de direita”. Thomas Sowell diferencia a visão dos ungidos com o que chama de “visão trágica”, uma concepção aristotélica cujo raciocínio se fundamenta na tragédia da condição humana. Ele toma “tragédia” não como “infelicidade”, mas em seu sentido da Grécia antiga, um certo destino inescapável e inerente à natureza das coisas.

O ungido trata tradições e costumes populares como uma indesejável influência do passado, relíquia de era menos esclarecida, e não como a vivência de milhões de pessoas que enfrentaram infortúnios similares em outros tempos. Ademais, ele considera experiências passadas inúteis, devido às “grandes mudanças” ocorridas desde períodos mais simples. Aqueles com a visão trágica, contudo, não enxergam notável variação das capacidades intelectuais e morais dos homens desde o início de nossa trajetória histórica não importando o quão tecnologicamente avançados somos hoje. Enquanto os de visão trágica olham para o passado para não repetir os mesmos equívocos de seus ancestrais, os ungidos idealizam datas de inauguração do mundo: a revolução francesa, a revolução comunista da Rússia, os protestos socialistas do maio de 68 em Paris. Para a visão trágica, a barbárie não é um distante estágio evolutivo, mas uma ameaça sempre presente, pois a civilização não é herdada. Ela deve ser ensinada e conquistada por cada geração, uma vez que ela morre caso esta transmissão seja interrompida e retornaríamos à selvageria.

Entre as instituições sociais originadas espontaneamente estão os laços pessoais formados dentro das famílias ou de uma comunidade. Estes são tratados como fontes preciosas de motivação e coesão por aqueles com a visão trágica, que veem tais elos como um contraponto ao egoísmo inerente dos indivíduos. No entanto, esses mesmos vínculos despertam menos entusiasmo e até hostilidade por parte dos ungidos, para quem estas relações particulares são enxergadas como obstáculos para uma ampla reengenharia social ou mesmo para se declarar “um cosmopolita cidadão do mundo”.

Para a visão dos ungidos um novo mundo é possível, assim como um novo homem, desde que nós trogloditas os botemos no poder. E a principal exigência dos ungidos continua a mesma: seguir nunca arcando com as consequências de seus erros.
 
*Jales Naves Júnior é advogado.
 

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por Jales Naves Júnior

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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