Logo

A reforma tributária e seus reflexos sobre o IPTU

WhatsAppFacebookLinkedInX
11.08.2023 - 10:09:17

A aprovação da reforma tributária (PEC 45/2019) na Câmara dos Deputados trouxe um misto de otimismo e insegurança para as áreas tributárias e, também, para a economia. Em que pese seja aguardada há décadas, o atropelo da discussão e a inclusão de novas matérias ao texto poucas horas antes de sua votação, acabaram trazendo certa desconfiança aos contribuintes. Uma delas é a proposta de emenda, aceita pelo relator e aprovada pelo plenário, que prevê uma nova forma de alteração da base de cálculo para o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), que se dará por meio de decreto dos executivos municipais e poderá se tornar um problema, no futuro, para os contribuintes. 
 
A reforma tributária, em seu texto base, visava substancialmente fazer uma mudança estrutural na forma em que hoje são recolhidos os tributos sobre o consumo em nosso país. Entretanto, a pedido da Confederação Nacional dos Municípios, o relator da PEC acatou uma nova forma de alteração da base de cálculo do IPTU nos municípios. Aprovada pelo plenário da Câmara, o texto atual prevê que os prefeitos, como chefes dos executivos municipais, possam alterar a base de cálculo do IPTU por meio de decreto, ou seja, sem que a proposta seja apreciada e votada pelas Câmaras Municipais. O texto diz ainda que esses decretos deverão observar “critérios gerais previstos em leis municipais”. 
 
Em síntese, isso significa dizer que os chefes dos executivos municipais terão maior discricionariedade (maior arbitrariedade e menor vinculação ao legislativo) para intervir em uma das principais fontes de arrecadação própria dos municípios brasileiros. Ou seja, caso o município queira aumentar a arrecadação ano após ano, basta que a prefeitura aumente a base de cálculo do IPTU por via de decretos. Isso, obviamente, deverá ser uma tendência caso o Senado também aprove o texto como está atualmente, o que significa dizer que os contribuintes poderão ter uma nova dor de cabeça para os próximos anos. 
 
No atual Código Tributário Nacional (CTN), no artigo 142, parágrafo único, diz que “a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória”, o que no campo do Direito significa dizer que, em matéria tributária, a autoridade administrativa, aqui incluído o executivo municipal, só poderá lançar tributos mediante critérios fixados pelo legislativo. Uma atividade “vinculada” em direito quer dizer que o chefe administrativo não tem autonomia para decidir sem a existência de uma lei anterior que o respalde. 
 
Essa regra taxativa do CTN obedece à Constituição Federal, que no artigo 150, parágrafo I, diz expressamente que é vedado aos entes federados, entre eles os municípios, “exigir ou aumentar tributos sem lei que o estabeleça”. Isso significa dizer, mais uma vez, que nem presidente da república, nem governadores e nem prefeitos possuem liberdade de criar novos impostos ou de aumentar impostos já existentes, sem que isso seja aprovado por lei nos legislativos, sejam eles federais, estaduais ou municipais. 
 
Parece claro, portanto, que a “emenda jabuti” incluída no texto da reforma tributária não está contemplada e abraçada por nossa vigente legislação, sobretudo, desobedece à nossa Lei Maior, a Constituição Federal. Não basta que os chefes dos executivos municipais obedeçam a “critérios gerais previstos em leis municipais”, critérios gerais não são taxativos e decreto não é lei. O risco de judicialização, caso a proposta seja validada pelo Senado, é alto, o que causará imensa insegurança jurídica e, sobretudo, imensa dor de cabeça aos contribuintes. 
 
*Rafael Cruvinel é advogado atuante em Direito Tributário
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Rafael Cruvinel

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]