A Odisseia é exatamente o que se espera de um filme de Christopher Nolan, sem tirar nem pôr, a ponto de poder se chamar “Nolan: o filme”. Todas as assinaturas estilísticas do cineasta estão aqui em abundância, em detrimento do próprio filme, cuja narrativa épica quase fica em segundo plano. O estilo se impõe: tem buzina de navio, trilha sonora intrusiva, ritmo acelerado de trailer, montagem fragmentada, repetições de quadros e didatismo narrativo.
Pelo lado bom, o cineasta merece louros pela ousadia de adaptar Homero no cenário hollywoodiano atual e ainda assinar o roteiro. Há mérito nessa empreitada de US$ 250 milhões, trazendo de volta para as telas o épico e a aventura, gêneros sumidos desde a trilogia O Senhor dos Anéis e fagocitados pela massa cinza dos filmes de ação e de herói das últimas décadas.
O virtuosismo se destaca: figurinos, cenografia, a insistência em efeitos práticos e navios navegáveis de verdade sendo arremessados por ondas furiosamente fabricadas. São elementos que reforçam o épico, mas que, infelizmente, perdem parte do valor conforme o próprio estilo do diretor, novamente, se impõe, invade e pilha o que poderiam ser ótimas cenas.
A escala monumental, em particular, sai prejudicada, com pouquíssimos planos abertos e um excesso de close-ups superfechados (uma questão que envolve o formato IMAX ultraespecífico em que o filme foi filmado), que não deixam o filme respirar. A isso se soma a montagem frenética, às vezes com cortes que não chegam a um segundo, mesmo em cenas básicas de diálogo, plano e contraplano, num temor de que a audiência vá se entediar mais rápido do que o filme pode jogar novos quadros na tela.
O que funciona melhor são certas escolhas visuais. Embora o filme siga a paleta de cores sem graça padrão do cinemão atual (tudo é cinza, branco ou preto e meio desbotado), tira-se vantagem disso, em particular, em cenas noturnas e sinistras, com grande efeito atmosférico.
Duas cenas se destacam: a da caverna do ciclope, facilmente a melhor do filme, e a da visita de Odisseu ao Hades. Outro destaque, por exemplo, é Agamenon e sua armadura intimidadora: alvo de chacota nos trailers, seu silêncio sepulcral e sua figura alta e escura se erguem ameaçadoramente em todas as cenas em que aparece, sempre mantendo seu rosto oculto.
O ponto mais fraco, porém, é o roteiro: Nolan não é um escritor primoroso e, ao tentar encarar uma adaptação tão complexa, entrega um texto, na melhor das hipóteses, básico. O melhor seria deixar as imagens monumentais falarem por si só, mas o diretor não se contém no seu didatismo: ele não pode arriscar que a audiência não entenda, então ele vai mastigar cada ação, cada cena, cada sentimento.
A pior cena vem na primeira meia hora, quando Odisseu quase literalmente conta a trama do filme para a tela: eu sou Odisseu, a esposa de Menelau, Helena, foi sequestrada por Troia, nós temos que ir pra guerra, esta é minha esposa Penélope, este são os pretendentes, etc, etc.
As atuações variam e boa parte do grande elenco tem pouco tempo de tela. Matt Damon segura a onda como Odisseu, mas não brilha: a interpretação recente de Ralph Fiennes no mesmo papel em O Retorno (2024) é muito superior. O melhor ator é Robert Pattinson, revoltante como Antínoo, o pretendente mais saidinho de Penélope. Já o mais fraco é Jon Bernthal, como Menelau: canastrão, o rei de Esparta claramente nasceu no Brooklyn.
Tematicamente, Nolan retoma o seu motif favorito, que é o tempo, presente em todos os seus filmes, aqui manifestado novamente por meio de uma estrutura não-linear e dos flashes repetitivos ao longo do filme e seus presságios e vírgulas visuais e auditivas (Odisseu estalando a corda do seu arco, por exemplo).
Além disso, há uma justaposição sutil como uma paulada na cabeça entre o tema do trauma da guerra em Troia com o trauma, os fantasmas e as consequências da Guerra ao Terror, como o ato de uma guerra injustificada e brutal destruiu algo precioso do imaginário e da identidade nacional, grega ou americana.
A Odisseia é uma adaptação receita de bolo: Nolan não se arrisca nem por um segundo fora dos próprios maneirismos. Seus méritos estão principalmente na construção de imagens e cenas fortes que reforçam e resgatam o épico há muito sumido das telas do cinema.
Caso queira ver uma abordagem mais experimental e interessante da mesma história, fica a recomendação de O Retorno.

Devo confessar que gostei da versão hollywoodiana até mais que as outras versões cults. Ouvi noutra crítica que Nolan humanizou o sentimento dos deuses, afinal, o que seriam Deles senão fosse por nós? Trilha sonora impecável! Valeu cada um dos 200 minutos sentada