Logo
Matt Damon como Odisseu (foto: divulgação)

‘A Odisseia’ entrega exatamente o que se espera de um filme de Christopher Nolan

WhatsAppFacebookLinkedInX
21.07.2026 - 09:15:20

A Odisseia é exatamente o que se espera de um filme de Christopher Nolan, sem tirar nem pôr, a ponto de poder se chamar “Nolan: o filme”. Todas as assinaturas estilísticas do cineasta estão aqui em abundância, em detrimento do próprio filme, cuja narrativa épica quase fica em segundo plano. O estilo se impõe: tem buzina de navio, trilha sonora intrusiva, ritmo acelerado de trailer, montagem fragmentada, repetições de quadros e didatismo narrativo.

Pelo lado bom, o cineasta merece louros pela ousadia de adaptar Homero no cenário hollywoodiano atual e ainda assinar o roteiro. Há mérito nessa empreitada de US$ 250 milhões, trazendo de volta para as telas o épico e a aventura, gêneros sumidos desde a trilogia O Senhor dos Anéis e fagocitados pela massa cinza dos filmes de ação e de herói das últimas décadas.

O virtuosismo se destaca: figurinos, cenografia, a insistência em efeitos práticos e navios navegáveis de verdade sendo arremessados por ondas furiosamente fabricadas. São elementos que reforçam o épico, mas que, infelizmente, perdem parte do valor conforme o próprio estilo do diretor, novamente, se impõe, invade e pilha o que poderiam ser ótimas cenas.

A escala monumental, em particular, sai prejudicada, com pouquíssimos planos abertos e um excesso de close-ups superfechados (uma questão que envolve o formato IMAX ultraespecífico em que o filme foi filmado), que não deixam o filme respirar. A isso se soma a montagem frenética, às vezes com cortes que não chegam a um segundo, mesmo em cenas básicas de diálogo, plano e contraplano, num temor de que a audiência vá se entediar mais rápido do que o filme pode jogar novos quadros na tela.

O que funciona melhor são certas escolhas visuais. Embora o filme siga a paleta de cores sem graça padrão do cinemão atual (tudo é cinza, branco ou preto e meio desbotado), tira-se vantagem disso, em particular, em cenas noturnas e sinistras, com grande efeito atmosférico.

Duas cenas se destacam: a da caverna do ciclope, facilmente a melhor do filme, e a da visita de Odisseu ao Hades. Outro destaque, por exemplo, é Agamenon e sua armadura intimidadora: alvo de chacota nos trailers, seu silêncio sepulcral e sua figura alta e escura se erguem ameaçadoramente em todas as cenas em que aparece, sempre mantendo seu rosto oculto.

O ponto mais fraco, porém, é o roteiro: Nolan não é um escritor primoroso e, ao tentar encarar uma adaptação tão complexa, entrega um texto, na melhor das hipóteses, básico. O melhor seria deixar as imagens monumentais falarem por si só, mas o diretor não se contém no seu didatismo: ele não pode arriscar que a audiência não entenda, então ele vai mastigar cada ação, cada cena, cada sentimento.

A pior cena vem na primeira meia hora, quando Odisseu quase literalmente conta a trama do filme para a tela: eu sou Odisseu, a esposa de Menelau, Helena, foi sequestrada por Troia, nós temos que ir pra guerra, esta é minha esposa Penélope, este são os pretendentes, etc, etc.

As atuações variam e boa parte do grande elenco tem pouco tempo de tela. Matt Damon segura a onda como Odisseu, mas não brilha: a interpretação recente de Ralph Fiennes no mesmo papel em O Retorno (2024) é muito superior. O melhor ator é Robert Pattinson, revoltante como Antínoo, o pretendente mais saidinho de Penélope. Já o mais fraco é Jon Bernthal, como Menelau: canastrão, o rei de Esparta claramente nasceu no Brooklyn.

Tematicamente, Nolan retoma o seu motif favorito, que é o tempo, presente em todos os seus filmes, aqui manifestado novamente por meio de uma estrutura não-linear e dos flashes repetitivos ao longo do filme e seus presságios e vírgulas visuais e auditivas (Odisseu estalando a corda do seu arco, por exemplo).

Além disso, há uma justaposição sutil como uma paulada na cabeça entre o tema do trauma da guerra em Troia com o trauma, os fantasmas e as consequências da Guerra ao Terror, como o ato de uma guerra injustificada e brutal destruiu algo precioso do imaginário e da identidade nacional, grega ou americana.

A Odisseia é uma adaptação receita de bolo: Nolan não se arrisca nem por um segundo fora dos próprios maneirismos. Seus méritos estão principalmente na construção de imagens e cenas fortes que reforçam e resgatam o épico há muito sumido das telas do cinema.

Caso queira ver uma abordagem mais experimental e interessante da mesma história, fica a recomendação de O Retorno.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

Um comentário

  1. Devo confessar que gostei da versão hollywoodiana até mais que as outras versões cults. Ouvi noutra crítica que Nolan humanizou o sentimento dos deuses, afinal, o que seriam Deles senão fosse por nós? Trilha sonora impecável! Valeu cada um dos 200 minutos sentada

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]