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A melodia

28.05.2017 - 12:40:23
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Semana nova chegava, toda semana, e tinha dia que Eliete acordava agonienta que só. De tremeliques, desde a hora de abrir os olhos pela manhã, nesses dias ela pulava da cama antes da mãe, e às vezes ficava até de sonho vindo da noite anterior. Encurtando a história: era o que era, “ansiedade boa”, ela mesma dizia. Espreguiçando-se, na cama ainda, ficava só de imaginações pelo dia-vindo, “Que bom que, num zás, dá logo a hora de ir, e nem vou ver passando o dia, lalalá, laralaiá…”.
 
Já de pé, tomava o rumo do corredor, cambaleante ainda. Passava o quarto do irmão mais velho, “Dorme tanto que nem vê”. E, claro, para completar, tropeçava no chinelo do irmão mais novo, “Sassenhora, viu?, ê Josiel que não emenda…”, e então o banheiro, o espelho, cabelo penteando-se, a água para lavar o rosto, escovar os dentes, e enfins… o dia no dia.
 
Na cozinha, enquanto fazia o café, ajeitava o leite, o pão-com-manteiga, e ia de lado a outro, praticamente em desvario, com tudo parecendo que ela-ali esperava algo fervorosamente, coisa de acontecimentos, e que chegasse logo de noite, “Já sei, já sei” — ela dizia de si para si — “o dia hoje vai ser longo, mas tudo bem”.
 
Trabalhava numa lojinha, shopping center da cidade. Nada muito diferente dos nossos tais perdimentos na vida: ganhando pouco, ajudando no sustento de casa, pai-e-mãe também com ordenado difícil… “Tempos de crise”, ouvia as pessoas dizerem quase sempre ao ir de casa para o trabalho, e deste para a escola — é que estava, ainda, em pelejas de terminar os estudos, de noite; gostava de contabilidade, às vezes muito exausta, sim, “uma luta”.
 
Numa dessas vezes, aliás, é que começou toda a história. E foi assim: o expediente finalizava às quatro da tarde, ela saía quase sempre depois, perto das cinco, e a aula principiando às sete, correria danada, pois-sim. Escola até perto de casa, “uma vantagem”, e então tomava o ônibus de frente para o shopping, e dava tempo certinho.
 
Mas nesse dia, uma quinta-feira, parecia que o mundo tinha-se arreliado com ela: patroa implicando sem motivo, cliente que chegava e maldizia, ela mesma chegando atrasada no serviço, “O dia inteirinho essa zica”. Resultado: saía para a escola-ali atrasadinha-da-silva, mas ia-porque-ia assim mesmo, nem que perdesse a primeira aula, faltar não convinha.
 
Entrou no ônibus — cheiinho. Sem jeito de passar a catraca, deu três passos em direção a ela, parou, olhou as pessoas, que estavam até alheias, e tudo dentro da normalidade…
 
Mas daí a danação: não foi avançar quinhentos metros, e o veículo puf, quebrou. “Tem que descer todo mundo, gente”, o motorista avisava, sem graça, mas firme… “Fazer o quê, né?” O primeiríssimo pensamento de Eliete a gente já até supõe: “Era o que faltava, deusdocéu!”.
 
E estava montada a celeuma: mais de sete da noite, as pessoas doidas para chegarem em casa, a gente entende, e ainda ali, no meio da rua esperando novo ônibus, a empresa já estava mandando, enfatizava o motorista, “Calma, gente, calma”. A maioria pegava os celulares, para distração ou notícia à família, sobre o atraso, o ocorrido. Alguns batiam foto, que iam-porque-iam fazer reclamação, e com razão, onde já se viu. E Eliete, pois-bem…
 
É que: na calçada, onde eles estavam ainda aguardando, tinha entrada para um prédio que ela nem-nunca reparara antes, assim, direitinho. Notícia sobre o que era, e tal-qual, ela já tinha até visto na televisão, mas atinar, atinar mesmo… E de lá, minhanossa!, vinha-vindo um som muito diferente, que Eliete não lembra de ter nunca ouvido. Ninguém cantava, era só melodia. Muita melodia: “um tanto de instrumento junto” — parecia. E ela olhava, e olhava, coisa de Circe-seduzindo… Até que: uma moça, funcionária do prédio, convidou:
 
— Vamos entrar, moça. Está já começando o concerto, só terminando de afinar as cordas…
 
— Entrar? O concerto? Começando? Quanto é que paga? 
 
— Paga nada, não. É, o concerto, a Filarmônica, vai começar, vamos? Toma aqui o programa — e a moça foi entregando um caderninho todo elegantoso para Eliete…
 
Titilava um mundaréu de perguntas-mais na cabeça dela, é lógico. Pois nunca que tinha visto-nem-ouvido um concerto antes, e aquela música que vinha lá de dentro era lindíssima, por que não?, e ela foi indo, claro que entraria. O próprio formato daquela “sala de música” era tão-assim… diferente.
 
Eliete entrou. Aconchegando-se, foi logo vendo as gentes também com o tal caderninho, programa na mão. Folheou, viu que tinha um repertório especial para a noite, os olhos iam e vinham, a todo momento, pelas paredes da sala, as pessoas, a cortina fechada, o palco.
 
Entraram os músicos. “Para mais de trinta!” Violino, cello, piano, trombone, flauta, flautim… Era instrumento que não acabava mais. Ela gostava do que via, ouvindo. Cortinas abertas, anunciaram a orquestra, e foram entrando.
 
Dali a pouco: todos sentados, só uma pessoa ficava à frente, em pé, e atenta a tudo, gesticulando, mostrando como devia ser, conduzindo os demais. Tinha hora que um violino se fazia principal. E, então, ressoava mais forte, harmonizando os outros instrumentos, guiando sintonias. Era estranho, encantável, conflituoso, uma pendenga tinha hora, interessante, diferente — tudo junto. A música, inebriante, do começo ao fim, parecia vertigem.      
 
E num momento, mesmo que só naquele zás, ela esquecia da aula, da casa, de tudo, até das zicas do dia…
 
____________________
 
Em Goiânia, a Filarmônica se apresenta semanalmente, com entrada franca, e a programação pode ser acompanhada por aqui. Foi numa dessas, inclusive, há alguns pares de anos, que me estive Eliete…

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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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