Seres fantásticos, animais sagrados e amuletos da sorte sempre fizeram parte do imaginário coletivo desde os primórdios da humanidade. Intimamente conectados com a natureza, as civilizações antigas, e digo nossos ancestrais, observaram por gerações características cíclicas e regenerativas na fauna e na flora.
A simbologia do cervo, por exemplo, provido de exuberantes galhadas na cabeça, que, após completarem o ciclo de todas as estações do ano, o perdem para ganharem uma nova galhada, foi associada à renovação da vida, à fertilidade, força, autoridade, proteção e proximidade com a natureza, pois o chifre integrava a conexão entre o céu e a terra, tal qual uma antena.
Ao longo dos tempos, a humanidade e suas múltiplas manifestações culturais desenvolveram estratégias para interpretar, traduzir e ensinar a cada uma de suas comunidades as formalidades, os critérios morais, civis e religiosos. Curiosamente, no século IV, São Jerônimo, ao elaborar a Vulgata, uma tradução latina da Bíblia, empregou a expressão “cornuto esset faces sua”, que pode ser traduzida como “seu rosto era chifrudo”, referindo-se ao retorno de Moisés do Monte Sinai, depois de receber as Tábuas de Lei.
Um dos exemplos mais conhecidos dessa tradição encontra-se na escultura de “Moisés”, de Michelangelo Buonarroti (1513-1515). Séculos mais tarde, o pintor francês Marc Chagall (1887-1985) produziria uma série de pinturas retomando os episódios bíblicos de Moisés, adornando-o com chifres na cabeça. No entanto, a inequívoca tradução da expressão em hebraico seria “seu rosto estava com feixes de luz”.
Com a expansão do Cristianismo, estabeleceu-se uma oposição moral entre o divino e o demoníaco, o espírito e a tentação, a vontade e o pecado. Os chifres nesse processo adquiriram uma nova possibilidade de interpretação: a de sinalizar uma existência que estaria fora da ordem espiritual cristã na representação controversa de Lúcifer.
O símbolo do chifre não necessariamente mudou de forma, mas seu contexto de interpretação foi profundamente alterado. Uma lenda que ronda o catolicismo, por exemplo, a batalha de São Jorge contra o Dragão (Império Romano), personificaria o mal na figura mitológica da criatura híbrida.
O dragão pode ser representado com chifres, cabeça de leão, corpo de serpente, patas de pássaro e asas de morcego. No horóscopo chinês, o único signo que não é um animal é o dragão. Em outras civilizações, ele ganha contextos diferentes. Embora, em todas as narrativas, não seja totalmente benigno, o dragão representaria a justiça através de forças naturais poderosas e imprevisíveis, pois transita entre a terra, o ar e a água e, ainda, domina o elemento fogo, que pode queimar ou aquecer.
O fato é que, levando em conta as controvérsias das narrativas, os equívocos de tradução, as ambiguidades, sejam dos protagonistas bíblicos, sejam das criaturas fantásticas, há um sentido intenso que nos une permanentemente às imprevisíveis e dicotômicas forças da natureza. Um incidente contratual recente, por exemplo, ilustraria bem essa dicotomia humana.
A venda milionária de um garanhão quarto de milha, cujo nome, Inferno 66, foi quase rescindida, justificou-se pela incompatibilidade religiosa do comprador com o significado do termo, entrando em acordo jurídico para o rebatizar como Gênese 66.
Ora, se até o antigo proprietário, que foi quem mais teve lucro na história com o animal, entende que a testosterona do bicho é dos infernos, quem somos nós para negar tal equívoco!?
