“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.”
(Da tranquilidade da alma, Sêneca)
A palavra mal vem do advérbio latino male, que significa “de modo ruim” ou “erradamente”, derivado do radical malus, que significa “ruim”, “perverso”.
A própria palavra, inevitavelmente, foi subordinada e estigmatizada pelas múltiplas traduções da Bíblia, que eternizaram o conhecido jargão: “a luta do bem contra o mal”. Na arte, a literatura e o cinema desenham, nas entrelinhas, esse conceito, enfatizando pertinentes interpretações.
No filme Duna, de 2021, dirigido por Denis Villeneuve, há, por exemplo, uma cena intrigante em que o protagonista, um jovem brilhante, dono de um destino além de sua compreensão, caminha pelos arredores desérticos do palácio recém-ocupado por sua família e avista um serviçal regando regularmente majestosas palmeiras.
O empregado lhe confidencia que uma única palmeira consome a quantidade diária de água necessária para pelo menos quinze homens. O prodigioso herdeiro do trono questiona, então, a real necessidade de tamanho “desperdício” de água. A resposta, porém, é categórica: aquelas árvores são sagradas e permanecem ali há gerações, como testemunho de sua resistência.
As árvores, entidades silenciosas e detentoras de um saber misterioso, em sua tranquilidade, aparentemente estática, enraízam conhecimentos que atravessam dinastias. Sua permanência exige cuidados especiais e parece justificar, aos olhos dos homens, esforços que talvez não seriam dedicados a seres considerados menores, inferiores ou maus.
A jaqueira, por exemplo, é nativa da Ásia e produz a jaca, fruto de grande valor nutricional, que pode contribuir para a desnutrição por causa de seu alto valor substancioso. Trata-se do maior fruto do mundo produzido por uma árvore, podendo ultrapassar quarenta quilos.
Particularmente, confesso que nunca gostei dessa fruta. Curiosamente, porém, comi-a com muita satisfação durante minhas duas gestações. Naquele período, o prazer de degustá-la era semelhante ao de comer uma pera doce e macia, uma delícia! A estação da jaca começou, e seus frutos abundantes despontam nos longilíneos troncos das jaqueiras, que podem alcançar cerca de vinte metros de altura.
Sem dúvida, as árvores são seres vivos que se posicionam majestosamente diante da existência: resistem, permanecem e atravessam o tempo. Talvez esteja justamente aí uma de suas maiores lições. As árvores conseguem viver em harmonia com homens sábios e homens maus, sem precisar julgá-los. Permanecem silenciosas, enquanto os homens passam.