Logo
O cofundador e CEO da Anthropic, Dario Amodei, e Theodore Kaczynski, o terrorista Unabomber (Fotos: Wikimedia)

Sem apocalipse ou redenção

Salvação ou danação pela tecnologia são visões espelhadas de uma mesma ilusão

WhatsAppFacebookLinkedInX
15.09.2026 - 08:35:24

A Inteligência Artificial ganhou novamente as manchetes essa semana com dois fatos em sequência: a demissão de Jacob Coxon da Anthropic, empresa responsável pelo Claude, e o texto de Dario Amodei, fundador da mesma empresa, alertando para a necessidade de diminuir o ritmo de avanço da IA.

Coxon já trabalhara na OpenAI, a fundação responsável pelo ChatGPT, e acusou as big techs de igonarem riscos de que têm consciência, dizendo que seus próprios desenvolvedores acreditam que a IA pode destruir a humanidade até 2030.

Coincidentemente, Amodei publicou, na sequência, seu texto em que defende uma redução no ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial para que haja tempo de se criarem, em paralelo, mecanismos capazes de mantê-la sob controle. Em resposta, Sam Altman, da OpenAI, Demis Hassabis, da Google DeepMind, e Elon Musk, concordaram com a necessidade de moderar o passo e fazer avançar a cibersegurança.

Diante do alívio generalizado, houve quem sugerisse que as big techs viram, no temor  aguçado pelas acusações de Jacob Coxon, uma oportunidade para aumentar o problema e lucrar ainda mais vendendo a solução.

Essa é, entretanto, uma narrativa que se repete com regularidade quase previsível. Surge um novo poder tecnológico que produz ansiedade generalizada. Intelectuais e ativistas traduzem a ansiedade em crítica civilizacional, não raro romantizando um passado perdido e fazendo previsões de colapso. É uma linhagem que vai de Rousseau e do mito do “bom selvagem”, passando  pela Escola de Frankfurt  — Adorno e Horkheimer viam o Iluminismo tecnológico como autodestrutivo —, por Heidegger (a tecnologia como modo de “enquadramento” que aprisiona o ser), e até por Theodore Kaczynski, o Unabomber. 

Curiosamente, do lado de lá do espectro, há outra narrativa que recorre de forma igualmente previsível: a do utopismo tecnológico. Nela, a tecnologia não vai nos destruir, mas nos salvar. Onde o pessimista romantiza o passado e vê a modernidade como degradação de uma autonomia humana perdida, ao tentar separá-lo da natureza, o tecno-otimista vê um futuro luminoso, em que a tecnologia trará a verdadeira libertação da humanidade de suas amarras — justamente aquelas que o agrilhoam à natureza.

Qualquer semelhança não é coincidência. Ambas são versões secularizadas de uma narrativa religiosa de salvação/danação — só que a divindade, Deus ou diabo, foi substituída pela tecnologia nos dois casos.

Ambos os polos trabalham com a mesma estrutura narrativa: a tecnologia tem agência própria e autonomia — não depende da vontade humana ou das contingências históricas; as duas apontam para um ponto de ruptura — fim da humanidade ou libertação definitiva da história; ambas têm um passado idealizado em que se ancoram, seja ele um Jardim do Éden perdido ou um purgatório de escassez, doença e violência. Por último, arautos dos dois lados discursam como profetas, não como analistas cautelosos diante das complexidades do real.

Problema maior nessa estrutura comum e nas duas narrativas: fecha-se todo o espaço para a agência humana e para a política. Não há nada a mudar, nada a negociar, nenhum espaço para transformar a sociedade, somente destinos inevitáveis opostos: catástrofe ou utopia. Para os anti-tecnológicos, a história é um caminho inevitável que leva da utopia à desgraça. Para os pró-tecnologia, em direção oposta, vamos do caos à salvação final. Em ambos os casos, pelas mãos da tecnologia.

Isso não significa dizer que não estejamos lidando com tecnologias potencialmente repletas de riscos. Não dá para dizer, entretanto, que estejamos fadados a desaparecer como espécie por efeito delas, nem que nos conduzirão à salvação. 

A ideia de uma ciência neutra e isenta, inseparável desse salvacionismo tecnológico, já serviu demais para legitimar a introdução de ideias e tecnologias que produzem grandes assimetrias de poder e geram desigualdades sociais. 

Não adianta, entretanto, inverter o sinal e passar a ver na ciência a fonte de todo o mal e da danação — é esse mal-estar que leva aos negacionismos que enfrentamos. Precisamos de visões mais humildes e cautelosas, que não se apavorem diante da complexidade do mundo e abram o  necessário espaço para uma democracia renovada, onde seguiremos levando adiante, de forma mais consciente, a complicada tarefa de construir o mundo, sem apocalipse ou redenção.

 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / [email protected]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
14.09.2026
Gusttavo Lima reúne milhares de goianienses no ‘Buteco Para Sempre’; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Gusttavo Lima se apresentou em Goiânia no último sábado (12/9) para comandar o festival Buteco Para Sempre, no estacionamento do Estádio Serra Dourada. O evento também contou com shows de Leonardo, Diego & Victor Hugo, Calcinha Preta e João Bosco & Vinícius. No repertório, o público entoou músicas antigas e novas […]

Curadoria Afetiva
13.09.2026
Práticas terapêuticas

A imagem que ilustra meu texto deste domingo são as obras esculpidas em argila pela caprichosa arquiteta, Fernanda Ogata. Seu design e delicadeza, que descendem da ancestralidade japonesa, destacam o impecável resultado de suas peças e a exímia habilidade nipônica, do fazer artesanal. Não há como não vangloriar também, a influência da tropicalidade brasileira explícita […]

Noite e Dia
11.09.2026
Beco da Codorna: quando a arte encontrou um lugar no coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há lugares que parecem existir à margem da cidade, escondidos entre fachadas, galerias e grandes avenidas. No Centro de Goiânia, alguns deles são os becos. Espaços estreitos, muitas vezes destinados originalmente a serviços e circulação, que ao longo das décadas ganharam diferentes usos e, em alguns casos, passaram a integrar a […]

Noite e Dia
10.09.2026
Evento para convidados abre Festival da Cachaça de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Um encontro para convidados marcou a abertura da primeira edição do Festival da Cachaça de Goiás, nesta quarta-feira (9/9). Realizado no Flamboyant Hall até domingo (13), o evento reúne uma série de programações ao longo de cinco dias, com entrada gratuita e atividades voltadas tanto para profissionais da cadeia produtiva quanto […]

Meia Palavra
09.09.2026
‘A Morte de Robin Hood’ mistura redenção com a desconstrução de um personagem clássico

Antes de ver este filme, a principal crítica que vi da audiência foi a de que era o filme “mais chato do mundo”, o que diz mais sobre o estado do público hoje do que sobre o filme em si. Em A Morte de Robin Hood, acompanhamos os momentos finais do famoso fora da lei, […]

Noite e Dia
08.09.2026
Desfile cívico militar marca comemorações do 7 de Setembro em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O tradicional Desfile Cívico-Militar em comemoração à Independência do Brasil foi realizado nesta segunda-feira (7/9), feriado nacional de 7 de Setembro, na Avenida Tocantins, no Centro de Goiânia. O evento atraiu famílias e autoridades, entre elas o governador de Goiás, Daniel Vilela, e o ex-governador Ronaldo Caiado. Realizada pela Prefeitura de […]

Curadoria afetiva
06.09.2026
Matéria-prima

Ultimamente, poucas futilidades me surpreenderam, no entanto, duas delas, ganharam minha atenção. A primeira foi a recuada, da rainha da bateria da escola de samba Grande Rio, de seu posto, após o desastroso desfile na Sapucaí. A segunda, foi o cancelamento pelo controverso John Galliano, à sua própria homenagem, no Met Gala deste ano. Decisões, […]

Joias do Centro
04.09.2026
Gameleiras de quase 70 anos resistem às transformações de Goiânia e viram parte da memória do Setor Oeste

Carolina Pessoni Goiânia – Há quase sete décadas, quatro gameleiras fazem sombra na Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, no Setor Oeste, conhecida pelos goianienses como Praça da Cirrose, na região central de Goiânia. As árvores cresceram junto com a cidade e se tornaram parte da paisagem de uma das regiões mais tradicionais da capital. Hoje, […]