A participação feminina na política brasileira cresceu nas últimas décadas. Há mais mulheres filiadas, mais candidatas e mecanismos legais criados justamente para ampliar essa presença nas eleições. Ainda assim, basta olhar para os espaços onde o poder é efetivamente exercido para perceber que os avanços formais não se traduziram, na mesma proporção, em representação.
As mulheres são maioria do eleitorado brasileiro, mas continuam minoria nos parlamentos, nos governos e nos principais espaços de decisão política.
Essa diferença deveria nos fazer olhar com mais cuidado para um indicador frequentemente usado como sinal de avanço: o número de candidaturas femininas.
A legislação eleitoral estabelece um percentual mínimo de candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais. A regra foi uma conquista importante e continua necessária. Sem ela, provavelmente o espaço destinado às mulheres seria ainda menor. O problema surge quando o cumprimento da cota se transforma em uma obrigação meramente burocrática para alguns partidos.
Quem já acompanhou de perto os bastidores da política sabe que nem toda candidatura nasce de um projeto político verdadeiro.
Quando comecei minha carreira no serviço público, presenciei situações em que mulheres eram convidadas a se candidatar sem trajetória política anterior ou intenção efetiva de disputar uma eleição. O convite era feito de maneira bastante natural e, entre os argumentos apresentados, apareciam inclusive vantagens relacionadas ao afastamento do trabalho durante o período de campanha.
Na prática, muitas vezes parecia importar mais conseguir o nome de uma mulher para completar a chapa do que construir aquela candidatura.
É uma situação que diz muito sobre a forma como ainda tratamos a participação feminina na política.
Uma mulher pode estar devidamente registrada como candidata e, mesmo assim, não receber estrutura, recursos, visibilidade ou apoio político semelhantes aos destinados a outros nomes escolhidos como prioritários pelo partido.
Os casos mais extremos são conhecidos. A Justiça Eleitoral já julgou inúmeros processos envolvendo candidaturas femininas fictícias utilizadas para fraudar a cota de gênero.
Mas existe uma realidade mais difícil de identificar e que não necessariamente aparece nos processos eleitorais: candidaturas que cumprem formalmente todas as exigências, realizam algum tipo de campanha, mas nunca foram tratadas internamente como candidaturas com possibilidade real de eleição.
É nesse ponto que os números podem criar uma falsa sensação de igualdade.
Não basta contar quantas mulheres aparecem nas listas partidárias. É preciso observar quantas recebem recursos competitivos, quantas têm espaço na propaganda, quantas participam das decisões internas das legendas e quantas são estimuladas a construir uma trajetória política antes de o partido precisar preencher uma chapa.
Durante muito tempo, a política brasileira se acostumou a procurar mulheres quando faltavam nomes para cumprir uma exigência eleitoral. O desafio agora é fazer com que elas também estejam presentes quando os partidos escolhem quem receberá investimento, visibilidade e apoio para vencer.
E isso não começa durante a campanha.
Começa dentro dos próprios partidos, nas direções municipais e estaduais, na formação de lideranças, na distribuição de recursos e nos espaços onde são tomadas as decisões que antecedem uma eleição.
Também passa por uma mudança cultural. Mulheres ainda enfrentam obstáculos que vão desde a divisão desigual das responsabilidades familiares até um ambiente político mais hostil, no qual sua aparência, vida pessoal e comportamento são frequentemente julgados de maneira diferente da aplicada aos homens.
Por isso, aumentar o número de candidatas é importante, mas é apenas parte do caminho.
Uma eleição pode apresentar percentuais expressivos de mulheres nas chapas e, ao final, devolver parlamentos praticamente iguais aos anteriores.
É preciso começar a medir a participação feminina não apenas pela quantidade de nomes registrados, mas pelo espaço que essas mulheres conseguem ocupar depois que as urnas são fechadas.
Mais mulheres candidatas representam um avanço.
Mais mulheres com condições reais de competir e chegar aos espaços de decisão representam algo maior: uma mudança na distribuição do poder.
E essa é a discussão que ainda precisamos enfrentar.
*Janda Nayara é jornalista, servidora pública, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing e está cursando especialização em Comunicação Política e Pública

Excelente artigo.
Parabéns pelo artigo! Tem excelentes reflexões! 👏