Logo
Janda Nayara (Foto: reprodução)

Mulheres na chapa, homens no poder

WhatsAppFacebookLinkedInX
19.08.2026 - 10:50:30

A participação feminina na política brasileira cresceu nas últimas décadas. Há mais mulheres filiadas, mais candidatas e mecanismos legais criados justamente para ampliar essa presença nas eleições. Ainda assim, basta olhar para os espaços onde o poder é efetivamente exercido para perceber que os avanços formais não se traduziram, na mesma proporção, em representação.

As mulheres são maioria do eleitorado brasileiro, mas continuam minoria nos parlamentos, nos governos e nos principais espaços de decisão política.

Essa diferença deveria nos fazer olhar com mais cuidado para um indicador frequentemente usado como sinal de avanço: o número de candidaturas femininas.

A legislação eleitoral estabelece um percentual mínimo de candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais. A regra foi uma conquista importante e continua necessária. Sem ela, provavelmente o espaço destinado às mulheres seria ainda menor. O problema surge quando o cumprimento da cota se transforma em uma obrigação meramente burocrática para alguns partidos.

Quem já acompanhou de perto os bastidores da política sabe que nem toda candidatura nasce de um projeto político verdadeiro.

Quando comecei minha carreira no serviço público, presenciei situações em que mulheres eram convidadas a se candidatar sem trajetória política anterior ou intenção efetiva de disputar uma eleição. O convite era feito de maneira bastante natural e, entre os argumentos apresentados, apareciam inclusive vantagens relacionadas ao afastamento do trabalho durante o período de campanha.

Na prática, muitas vezes parecia importar mais conseguir o nome de uma mulher para completar a chapa do que construir aquela candidatura.

É uma situação que diz muito sobre a forma como ainda tratamos a participação feminina na política.

Uma mulher pode estar devidamente registrada como candidata e, mesmo assim, não receber estrutura, recursos, visibilidade ou apoio político semelhantes aos destinados a outros nomes escolhidos como prioritários pelo partido.

Os casos mais extremos são conhecidos. A Justiça Eleitoral já julgou inúmeros processos envolvendo candidaturas femininas fictícias utilizadas para fraudar a cota de gênero.

Mas existe uma realidade mais difícil de identificar e que não necessariamente aparece nos processos eleitorais: candidaturas que cumprem formalmente todas as exigências, realizam algum tipo de campanha, mas nunca foram tratadas internamente como candidaturas com possibilidade real de eleição.

É nesse ponto que os números podem criar uma falsa sensação de igualdade.

Não basta contar quantas mulheres aparecem nas listas partidárias. É preciso observar quantas recebem recursos competitivos, quantas têm espaço na propaganda, quantas participam das decisões internas das legendas e quantas são estimuladas a construir uma trajetória política antes de o partido precisar preencher uma chapa.

Durante muito tempo, a política brasileira se acostumou a procurar mulheres quando faltavam nomes para cumprir uma exigência eleitoral. O desafio agora é fazer com que elas também estejam presentes quando os partidos escolhem quem receberá investimento, visibilidade e apoio para vencer.

E isso não começa durante a campanha.

Começa dentro dos próprios partidos, nas direções municipais e estaduais, na formação de lideranças, na distribuição de recursos e nos espaços onde são tomadas as decisões que antecedem uma eleição.

Também passa por uma mudança cultural. Mulheres ainda enfrentam obstáculos que vão desde a divisão desigual das responsabilidades familiares até um ambiente político mais hostil, no qual sua aparência, vida pessoal e comportamento são frequentemente julgados de maneira diferente da aplicada aos homens.

Por isso, aumentar o número de candidatas é importante, mas é apenas parte do caminho.

Uma eleição pode apresentar percentuais expressivos de mulheres nas chapas e, ao final, devolver parlamentos praticamente iguais aos anteriores.

É preciso começar a medir a participação feminina não apenas pela quantidade de nomes registrados, mas pelo espaço que essas mulheres conseguem ocupar depois que as urnas são fechadas.

Mais mulheres candidatas representam um avanço.

Mais mulheres com condições reais de competir e chegar aos espaços de decisão representam algo maior: uma mudança na distribuição do poder.

E essa é a discussão que ainda precisamos enfrentar.

*Janda Nayara é jornalista, servidora pública, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing e está cursando especialização em Comunicação Política e Pública

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Janda Nayara

*

2 comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]