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Imagem do satélite Goes mostrando tempestade se formando sobre Goiânia (Fonte: CEMPA Cerrado).

O Hominídeo e o El Niño

Da savana africana ao Cerrado: por que ainda fugimos das probabilidades quando mais precisamos delas

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12.05.2026 - 14:41:25

Nossa inata dificuldade com o pensamento probabilístico e a relativa benevolência — até pouco tempo — do clima nos trópicos fazem com que o brasileiro se interesse pouco e desconfie muito da meteorologia.

A meteorologia tenta dar expressão concreta a uma dinâmica altamente incerta. Tomando uma longa história dos fenômenos atmosféricos, observa as condições vigentes hoje e calcula a probabilidade do que ocorrerá no futuro próximo. Por exemplo, diante dessas mesmas condições observadas, em 70% das vezes choveu em Goiânia, isto é,  a cada 10 vezes que essas condições ocorrem, chove em sete delas — portanto, há grande chance de chuva.

Todavia, nosso cérebro evoluiu para trabalhar com respostas binárias diante de incertezas e com causalidades diretas e únicas. Preferimos certezas falsas, mas que obrigam a uma decisão, do que incertezas reais que podem paralisar. Para o hominídeo na savana africana, era melhor fugir diante do barulho na vegetação, considerando que poderia ser um predador, do que pagar para ver, imaginando que fosse apenas o vento.

Há de fato uma dissonância entre a experiência vivida e a abstração das probabilidades. Vivemos experiências singulares e únicas, e não possibilidades delas. Por isso, tratar o futuro como uma distribuição entre classes de probabilidades é tão contraintuitivo. A singularidade da experiência vivida é o que nos leva também a tratar com tanta injustiça a meteorologia. Lembramos muito mais daquela vez em que a tempestade prevista não se realizou do que de todas as vezes em que a previsão acertou.

Queremos, além do mais, causalidades que expliquem narrativamente os eventos. “Meu tio fumou a vida toda e morreu aos 90 anos” ou “Falam que o planeta está mais quente, mas nunca nevou tanto como nos últimos dois anos” são afirmações usadas para contradizer o que a ciência e o senso comum sabem sobre os malefícios do tabagismo e o aquecimento global. Carregam um pressuposto de causalidade que lhes dá um peso de verdade. Se alguém morreu aos 90 fumando todos os dias, talvez o cigarro não faça tanto mal. Se tem nevado mais, é preciso questionar a certeza do aquecimento global. 

Afirmações assim são falaciosas, mas têm força no debate público justamente porque as probabilidades são contraintuitivas — enquanto a causalidade se encontra entranhada em circuitos profundos e antigos de nosso cérebro. Há, claro, uma diminuta probabilidade de que alguém viva até os 90 mesmo fumando quatro maços de Marlboro por dia, assim como a complexidade da dinâmica atmosférica leva de fato mais frio e neve a determinados lugares em certos momentos exatamente por que o clima está mudando, e não o contrário.

O clima em transformação vem trazendo uma frequência cada vez maior de eventos extremos para regiões onde antes sua estabilidade e caráter ameno nos permitiam simplesmente ignorar a meteorologia e suas probabilidades incômodas. A progressão por décadas é clara: foram 725 registros anuais de desastres climáticos nos anos 1990 no Brasil, 1.892 nos anos 2000; 2.254 nos anos 2010; e 4.077 anuais entre 2020 e 2023 — é o que mostra estudo liderado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica. Segundo o Observatório Sistema Fiep, além disso, nos últimos 30 anos, o número de ondas de calor quadruplicou no Brasil. E, em 2025, mostra o Cemaden, Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, eventos climáticos extremos impactaram diretamente mais de 300 mil pessoas no Brasil e geraram prejuízos da ordem de R$ 3,9 bilhões.

 

Registros anuais de desastres climáticos no Brasil (Fonte: Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica)

Por isso, vai ser cada vez mais importante, como parte de nossas estratégias de adaptação para as mudanças do clima, fazermos as pazes com as incertezas inerentes às previsões meteorológicas. Do lado dos cientistas, precisamos aprender a comunicar melhor esses resultados, buscando formatos que contornem a contraintuitividade do probabilismo, sem prejudicar a seriedade dos resultados. Nas escolas, cada vez mais, a educação meteorológica deve fazer parte dos currículos desde cedo. Do lado dos cidadãos, temos que nos acostumar a tomar decisões cotidianas em contextos de informações que contêm incertezas e, sobretudo, nos conscientizarmos de que os eventos extremos vieram para ficar. Os temporais de fim de tarde nas grandes cidades já são mais comuns e têm ocorrido em intensidades que colocam em risco pessoas e patrimônio. As secas no Cerrado vão ficar mais prolongadas e fortes, com aumento na quantidade de queimadas e da poluição atmosférica decorrente.

Nesse sentido, para o segundo semestre deste ano, a meteorologia já indica alta probabilidade de ocorrência de um El Niño dos  mais intensos já registrados. O El Niño, como se sabe, é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico tropical, que ocorre de forma irregular a cada dois a sete anos e pode durar de nove a doze meses. Ele altera os padrões de circulação atmosférica global, redistribuindo chuvas e temperaturas em escala planetária. No Cerrado, costumam se registrar temperaturas mais altas e períodos secos mais prolongados, criando condições propícias para incêndios

Esse El Niño que tem grande chance de acontecer é um bom exercício para aprendermos a lidar com as probabilidades da meteorologia. Como nosso ancestral na savana, não vale a pena pagar para ver diante de probabilidades tão altas. 

Não que a meteorologia, ao dizer que há alta probabilidade de um evento intenso no segundo semestre, esteja  prometendo uma catástrofe. Ela diz que as condições atmosféricas observadas hoje se assemelham, no passado, a situações que produziram secas mais prolongadas no Cerrado, ondas de calor e maior irregularidade das precipitações no período chuvoso. Se você é agricultor, a safra 2026/2027 enfrentará, portanto, riscos maiores, com possível atraso no início do período chuvoso e ocorrência de veranicos com potencial de gerar estresses hídricos, entre outros impactos sobre as lavouras. 

Diante da possibilidade de seca intensa, o poder público deve reforçar o planejamento e medidas de prevenção e combate a queimadas, bem como de prevenção e controle da poluição do ar. Goiânia, por exemplo, ainda não conta com um sistema adequado de monitoramento da qualidade do ar e emissão de alertas. O sistema de saúde precisa se planejar para uma provável sobrecarga de internações por doenças respiratórias. E você pode talvez antecipar a compra que vinha adiando de mais um aparelho de ar condicionado. Deve fazer bastante calor no segundo semestre.

Aprender a ler previsões meteorológicas é, no fundo, aprender a tomar decisões num mundo que não oferece certezas — o que, convenhamos, é o único mundo que existe.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / [email protected]

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