Logo
Imagem do satélite Goes mostrando tempestade se formando sobre Goiânia (Fonte: CEMPA Cerrado).

O Hominídeo e o El Niño

Da savana africana ao Cerrado: por que ainda fugimos das probabilidades quando mais precisamos delas

WhatsAppFacebookLinkedInX
12.05.2026 - 14:41:25

Nossa inata dificuldade com o pensamento probabilístico e a relativa benevolência — até pouco tempo — do clima nos trópicos fazem com que o brasileiro se interesse pouco e desconfie muito da meteorologia.

A meteorologia tenta dar expressão concreta a uma dinâmica altamente incerta. Tomando uma longa história dos fenômenos atmosféricos, observa as condições vigentes hoje e calcula a probabilidade do que ocorrerá no futuro próximo. Por exemplo, diante dessas mesmas condições observadas, em 70% das vezes choveu em Goiânia, isto é,  a cada 10 vezes que essas condições ocorrem, chove em sete delas — portanto, há grande chance de chuva.

Todavia, nosso cérebro evoluiu para trabalhar com respostas binárias diante de incertezas e com causalidades diretas e únicas. Preferimos certezas falsas, mas que obrigam a uma decisão, do que incertezas reais que podem paralisar. Para o hominídeo na savana africana, era melhor fugir diante do barulho na vegetação, considerando que poderia ser um predador, do que pagar para ver, imaginando que fosse apenas o vento.

Há de fato uma dissonância entre a experiência vivida e a abstração das probabilidades. Vivemos experiências singulares e únicas, e não possibilidades delas. Por isso, tratar o futuro como uma distribuição entre classes de probabilidades é tão contraintuitivo. A singularidade da experiência vivida é o que nos leva também a tratar com tanta injustiça a meteorologia. Lembramos muito mais daquela vez em que a tempestade prevista não se realizou do que de todas as vezes em que a previsão acertou.

Queremos, além do mais, causalidades que expliquem narrativamente os eventos. “Meu tio fumou a vida toda e morreu aos 90 anos” ou “Falam que o planeta está mais quente, mas nunca nevou tanto como nos últimos dois anos” são afirmações usadas para contradizer o que a ciência e o senso comum sabem sobre os malefícios do tabagismo e o aquecimento global. Carregam um pressuposto de causalidade que lhes dá um peso de verdade. Se alguém morreu aos 90 fumando todos os dias, talvez o cigarro não faça tanto mal. Se tem nevado mais, é preciso questionar a certeza do aquecimento global. 

Afirmações assim são falaciosas, mas têm força no debate público justamente porque as probabilidades são contraintuitivas — enquanto a causalidade se encontra entranhada em circuitos profundos e antigos de nosso cérebro. Há, claro, uma diminuta probabilidade de que alguém viva até os 90 mesmo fumando quatro maços de Marlboro por dia, assim como a complexidade da dinâmica atmosférica leva de fato mais frio e neve a determinados lugares em certos momentos exatamente por que o clima está mudando, e não o contrário.

O clima em transformação vem trazendo uma frequência cada vez maior de eventos extremos para regiões onde antes sua estabilidade e caráter ameno nos permitiam simplesmente ignorar a meteorologia e suas probabilidades incômodas. A progressão por décadas é clara: foram 725 registros anuais de desastres climáticos nos anos 1990 no Brasil, 1.892 nos anos 2000; 2.254 nos anos 2010; e 4.077 anuais entre 2020 e 2023 — é o que mostra estudo liderado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica. Segundo o Observatório Sistema Fiep, além disso, nos últimos 30 anos, o número de ondas de calor quadruplicou no Brasil. E, em 2025, mostra o Cemaden, Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, eventos climáticos extremos impactaram diretamente mais de 300 mil pessoas no Brasil e geraram prejuízos da ordem de R$ 3,9 bilhões.

 

Registros anuais de desastres climáticos no Brasil (Fonte: Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica)

Por isso, vai ser cada vez mais importante, como parte de nossas estratégias de adaptação para as mudanças do clima, fazermos as pazes com as incertezas inerentes às previsões meteorológicas. Do lado dos cientistas, precisamos aprender a comunicar melhor esses resultados, buscando formatos que contornem a contraintuitividade do probabilismo, sem prejudicar a seriedade dos resultados. Nas escolas, cada vez mais, a educação meteorológica deve fazer parte dos currículos desde cedo. Do lado dos cidadãos, temos que nos acostumar a tomar decisões cotidianas em contextos de informações que contêm incertezas e, sobretudo, nos conscientizarmos de que os eventos extremos vieram para ficar. Os temporais de fim de tarde nas grandes cidades já são mais comuns e têm ocorrido em intensidades que colocam em risco pessoas e patrimônio. As secas no Cerrado vão ficar mais prolongadas e fortes, com aumento na quantidade de queimadas e da poluição atmosférica decorrente.

Nesse sentido, para o segundo semestre deste ano, a meteorologia já indica alta probabilidade de ocorrência de um El Niño dos  mais intensos já registrados. O El Niño, como se sabe, é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico tropical, que ocorre de forma irregular a cada dois a sete anos e pode durar de nove a doze meses. Ele altera os padrões de circulação atmosférica global, redistribuindo chuvas e temperaturas em escala planetária. No Cerrado, costumam se registrar temperaturas mais altas e períodos secos mais prolongados, criando condições propícias para incêndios

Esse El Niño que tem grande chance de acontecer é um bom exercício para aprendermos a lidar com as probabilidades da meteorologia. Como nosso ancestral na savana, não vale a pena pagar para ver diante de probabilidades tão altas. 

Não que a meteorologia, ao dizer que há alta probabilidade de um evento intenso no segundo semestre, esteja  prometendo uma catástrofe. Ela diz que as condições atmosféricas observadas hoje se assemelham, no passado, a situações que produziram secas mais prolongadas no Cerrado, ondas de calor e maior irregularidade das precipitações no período chuvoso. Se você é agricultor, a safra 2026/2027 enfrentará, portanto, riscos maiores, com possível atraso no início do período chuvoso e ocorrência de veranicos com potencial de gerar estresses hídricos, entre outros impactos sobre as lavouras. 

Diante da possibilidade de seca intensa, o poder público deve reforçar o planejamento e medidas de prevenção e combate a queimadas, bem como de prevenção e controle da poluição do ar. Goiânia, por exemplo, ainda não conta com um sistema adequado de monitoramento da qualidade do ar e emissão de alertas. O sistema de saúde precisa se planejar para uma provável sobrecarga de internações por doenças respiratórias. E você pode talvez antecipar a compra que vinha adiando de mais um aparelho de ar condicionado. Deve fazer bastante calor no segundo semestre.

Aprender a ler previsões meteorológicas é, no fundo, aprender a tomar decisões num mundo que não oferece certezas — o que, convenhamos, é o único mundo que existe.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / [email protected]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]