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Natal sem nostalgia

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16.12.2012 - 17:39:03


Zurique, Suíça – Nessa época, as minhas saudades ficam mais leves. Não desaparecem, marcam presença na noite de Natal, mas tornam-se bastante suportáveis devido ao Advento.  Em latim Adventus, que significa “o que está por vir” ou,  simplesmente,  o há-de-vir. É o período de quatro semanas que antecede o Natal, durante o qual são realizados nos países de cultura germânica, de forma intensa e acolhedora, rituais e comemorações pré-natalinas.  

Já em Novembro, quando os dias começam a ficar mais escuros e frios, diversas  festas de origem pagã, tomam conta do nosso dia-a-dia. A primeira é um desfile de crianças ao anoitecer, carregando um pequeno lampião feito por elas próprias. Para fazê-lo, usam um legume, que poderia ser descrito como um rabanete gigante.

A festa chama-se “Räbeliechtliumzug”.  Não se assustem com esse palavrão… “Räbe” é o nome do rabanete, “licht”, significa luz e “umzug” é desfile. Ou seja, “desfile com luz de rabanete”, nada mais óbvio. Alemão é pura objetividade, quase poesia concreta.

Nos primeiros anos,  ficava completamente frustrada e desesperada por não poder ajudar meus filhos a esculpir seus lampiões, como outras mães na escola, que produziam na maior rapidez pequenas obras de arte.  Na primeira vez, meu filho pediu que esculpisse um pinguin, um peixe e uma girafa.

Minhas mãos suavam frio, diante do seu olhar cheio de expectativa. O pinguim parecia uma baleia, o peixe,  um peixe mesmo e a girafa, algo como uma cadeira com rabo.  Para disfarçar minha falta de talento, rabisquei algumas estrelinhas em volta dos animais e ele saiu todo orgulhoso com seu lampião, passeando entre os coleguinhas.

Esse desfile, é uma festa muito bonita, arcaica. No meio da escuridão, pequenos vultos carregam suas luzinhas, balançando no vento frio da noite.  Algumas cenas são dignas do melhor romantismo do século XVIII. 

(Foto: divulgação/Räbelichtli)

Os lampiões, esculpidos com todo o cuidado, acesos por uma vela, atravessam ruas, praças,  parques, florestas. Em algumas regiões, são milhares de criança.

No final, acende-se uma grande fogueira,  faz-se um piquenique e as crianças cantam músicas anunciando a chegada do inverno, agradecendo a colheita do outono.

Depois disso, é o momento de se fabricar suas próprias velas. Algumas são feitas com cera de abelha e cheiram deliciosamente a mel. Em barracas de lona – montadas pelas associações de bairros e escolas – é possível criar velas de vários tamanhos e cores, que serão guardadas para o próximo Natal.

Também, nesse momento, o mais importante é a celebração coletiva. Os organizadores, normalmente pais das crianças, fazem bolos, chás e passam a tarde fugindo do frio em volta dos potes de cera quente.

É um trabalho que exige muita paciência. Um barbante amarrado no dedo é mergulhado repetidamente na cera até que atinja o tamanho e a forma desejada.

De tempos em tempos,  é preciso fazer uma pausa, sair da barraca e pendurar a vela para esfriar. Nesse momento, as crianças brincam de correr na neve, os adultos aproveitam para bater papo e também brincam de enfeitar suas velas com folhas, gravetos, flores. Mais uma vez, o trabalho simples e manual serve para enganar o frio e a escuridão precoce.

Essas festas são apenas um presságio do verdadeiro Advento. Exatamente quatro domingos antes do Natal, prepara-se uma guirlanda de ciprestes, decorada com fitas, pinhas, enfeites natalinos e quatro grandes velas. São as quatro velas do Advento. É o ritual mais importante de todos  –  a cada domingo uma delas será acesa, enquanto todos sentam-se a sua volta para cantar, ler estórias ou simplesmente conversar. 

O corpo e o espírito vestem-se para atravessar o inverno. Visita-se amigos e parentes, bolos e biscoitos são assados e oferecidos em saquinhos aos vizinhos e conhecidos, toma-se vinho quente com canela, frequenta-se feiras de Natal cheias de especiarias.  E no último domingo, quando a última vela é acesa, fecha-se um ciclo de quatro semanas de festas e confraternizações.

Dezembro  é também o mês do “Calendário do Advento”. Tanto adultos quanto crianças ganham um calendário especial, cheio de pequenas surpresa. Atrás de cada data, esconde-se  minúsculas imagens de estrelas, animais, jogos ou ainda, pequenos objeto de verdade, poemas, receitas, chocolates.

O calendário é normalmente ilustrado com cenas natalinas bem tradicionais. Mas algumas pessoas mais criativas fabricam seus próprios modelos, feitos com saquinhos de pano, caixas de fósforo, rolinhos de papel ,meias… Enfim, tudo é permitido

A verdadeira surpresa porém  acontece no dia 6 de dezembro, quando o Papai Noel  ou “Samichlaus”, sai de sua casinha na floresta,  acompanhado de um burrinho e seu ajudante.

Ele não traz presentes – isso é trabalho para o Menino Jesus no dia 24 – ele carrega apenas um saco de estopa cheio de antigas guloseimas, tangerinas, nozes, maçãs e chocolates. E para que nenhuma criança fique de fora, uma associação de voluntários, especialmente treinados,  visita a pedido dos pais, cada criança em sua casa.

No início das comemorações, centenas deles fazem um desfile no centro da cidade, orgulhosos de seu trabalho – uma tradição passada de pai para filho. Na frente, caminha o Rei dos Papais Noéis, o mais idoso deles, de barbas verdadeiramente longas e brancas.
 


(Foto: C. Di Guimarães©)
 
Hoje é mais um domingo de Advento e minha filha já passou o dia fazendo um dos rituais de que mais gosta – assar biscoitos de natal. Ela quer levar para sua melhor melhor amiga, segunda-feira na escola, um saquinho com “Guetzli” em forma de bonecos, luas, estrelas, alguns recheados com geléia e cobertos com glacê colorida. Ela é especialista nisso e produz biscoitos deliciosos na maior rapidez.  
 
A casa se enche com um cheiro de baunilha, canela, nozes, chocolate e vendo a neve cair, o dia se esconder mais cedo, sendo substituído pelo calor das velas, meu peito surpreso se aquece e penso estranhamente sem nenhuma nostalgia – que bom, o natal está chegando!
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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