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História de quem mostrou como fazer boas composições e viver da arte

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21.11.2021 - 14:24:45

Profissional multimídia, atuando em diversas frentes de trabalho e sempre se destacando, pela sua alegria e simpatia, o escritor, jornalista e publicitário Iúri Rincon Godinho nos brinda com uma nova e interessante obra, de grande importância na construção da história de Goiânia e de Goiás.
 
Músico como todo adolescente e já buscando conhecer melhor cada área, ele participou da efervescência musical que tomou conta da cidade nos anos 1960 e 1970, com grandes festivais, primeiro contemplando os estudantes universitários e depois reunindo os secundaristas. Ganhou experiência e reuniu um farto material para se deliciar em relatar esses fatos e seus bastidores.
 
Com estilo próprio de escrever, informal, como se estivesse conversando com você, vai relatando os acontecimentos, dando sua visão de como tudo se desenrolou, opinando e abrindo um universo de informações ao leitor, que vai se encantando com sua narrativa e se envolvendo nos fatos descritos.
 
Ele coloca detalhes que enriquecem sua narração, despertando a curiosidade do leitor e tornando a leitura mais atrativa. É um formato agradável, que nos leva numa viagem no tempo para viver aquela lembrança que descreve com tanta facilidade e leveza, permitindo-nos conviver com pessoas e situações as mais diversas.
 
Assim é o livro “Fernando, João, Marcelo e a geração que fez da música goiana sucesso popular”, que Iúri acaba de lançar por sua editora, a Contato Comunicação.
 
Pesquisador atento e que vivenciou muito do que descreve, como compositor e participante de festivais de música, suas descrições ficam muito interessantes. Elas nos situam em determinado momento da cidade e que hoje nos parecem tão distantes, como o fato de ir ao posto da Telegoiás na rua 3, centro, para telefonar ao Rio de Janeiro, diante da dificuldade de fazer um telefonema para outros estados e cidades.
 
Em sua exposição, vai identificando os personagens que surgem e faz muitas referências históricas, como à Rádio Mundial, segunda emissora criada no país, em 1924, e que se chamava Rádio Clube do Brasil, na qual ouviu a música que João Caetano acabava de gravar.
 
O leitor passa a conviver com a rotina de cada um, ao falar do início da carreira desses músicos e sua participação no Festival Secundarista de Música Popular Brasileira (Comunica-Som). É a partir desse certame que começam a deslanchar suas carreiras musicais, ao abrir mais espaço e dar maior visibilidade aos vencedores da iniciativa, com divulgação nacional da música e dos músicos goianos.
 
Os pormenores vão chamando a atenção, ao relatar o surgimento do Comunica-Som, as conversas, os contatos, como se desenrolaram as atividades e como se deram as finais de cada edição, as gravações dos vencedores, a participação de músicos convidados etc.
 
O livro reúne fatos, momentos e situações de três décadas em Goiás, de 1960 ao final dos anos 1980, e fatos marcantes nessas mudanças, como a participação do cantor e compositor Ivan Lins, um apoio de grande significado, e a vinda do músico Antônio Adolfo para Goiás, passando uma temporada em Goiânia e buscando difundir entre os goianos o trabalho independente que realizava.
 
O capítulo à parte se refere ao Peninha, que não era músico e teve relevante presença nesse deslanchar de Goiás na área musical. Seu interesse começou curtindo, de longe, as canções tocadas nas casas que vendiam discos; depois, seu trabalho nessas lojas, a montagem de discoteca, seu envolvimento no setor, sua ida aos EUA e seu aprendizado na área. Na sequencia, sua volta a Goiânia e sua participação nesse momento, na implantação da rádio Araguaia, a primeira emissora FM da cidade, que muito valorizou, incentivou os músicos de Goiás e foi responsável pela explosão de sucesso desses artistas goianos.
 
O leitor entra em contato com o meio produtor de discos, o início dos estúdios na cidade, pequenos na época, e como cada um foi conquistando seu espaço.
 
O cantor João Caetano foi o primeiro a se apresentar no ‘Fantástico’, da TV Globo, programa que estava completando seu primeiro ano no ar e que era um sucesso estrondoso nas noites de domingo, e depois em novelas, com a música ‘Guardião’.
 
1982, como relatou, foi um ano inesquecível para os músicos goianos, com muitos lançamentos de CDs e compactos, e shows, marcando a ascensão definitiva de Fernando Perillo, Marcelo Barra e João Caetano, os primeiros a gravar LPs nesses 10 anos, 1971 a 1982. Mesmo assim, ainda eram sucesso só em Goiás.
 
Conforme Iúri, eles mostraram ser possível compor música boa e viver dessa arte, quando resgata a participação fundamental do maestro José Eduardo Morais, que estava em patamar acima e colaborou na ascensão da música goiana. Era instrumentista prestigiado no Rio de Janeiro, onde morava e trabalhava na TV Globo, sendo um músico mais de bastidores, pois não cantava e residia longe de Goiânia.
 
O trabalho se fixa na trajetória de Fernando, Marcelo e João, inclusive as turnês internacionais que fizeram, e na participação de José Eduardo. Ressalta também o universo de iniciativas na área, a partir dos pioneiros festivais universitários em Goiânia, que serviram de modelo, e passando por iniciativas no interior, como o Gremi, de Inhumas, GO, e a Festa do Compositor Goiano, de Paulo Magalhães, na capital goiana, que era mais informal, sem uma estrutura rígida como a dos festivais.
 
Recomendo. É leitura para quem gosta de história e da história, e quer mais informações da área, que vai encontrar aos montes.
 
Anotei dois pequenos senões, que não interferem no resultado final: na p. 65, cita a avó como sogra e na p. 68, se refere à AGT como Associação Goiana de Teatro, e não como seu nome original, com o A significando Agremiação.

 
*Jales Naves, jornalista e escritor, presidiu a Associação Goiana de Imprensa (AGI) em dois mandatos consecutivos (1985-1991) e integra a Academia de Letras e Artes de Caldas Novas (Cadeira nº 30), o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (Cadeira nº 34) e o Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado.
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por Jales Naves

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