Também acho cafona sapato de salto acrílico e calça mais justa que Deus, mas pra mim não existe cafonice maior do que querer ser quem a gente não é. Pra não dizer triste. Ter inveja da vida alheia, da bolsa de fulana, da beleza de não sei quem, da mansão no condomínio de cicrano, do carrão daquele conhecido.
Essa vontade de ser e ter o que é dos outros faz muita gente viver uma vida de aparências. Me lembra o título do novo filme do Almodóvar, A pele que habito, que ainda não fui ver, mas desse fim de semana não passa.
Habitar a própria pele e viver a própria vida nem sempre é fácil. Muitas vezes achamos a grama do vizinho mais verde do que a nossa – e talvez seja mesmo. E sendo a vida só uma até que se prove o contrário, acho um desperdício enorme fingir algo que não se é.
A gente não precisa viajar para Paris todo ano para ser feliz. Tem gente que pode e viaja. Ótimo. E come nos melhores restaurantes, bebe os vinhos mais caros e freqüenta as grifes mais desejadas do planeta.
Mas quem pode e vive assim não precisa sair por aí gritando aos quatro cantos como é lindo o glamour. Normalmente, esse povo da high é bem low-profile.
Por outro lado têm sempre uns que adoram comer ovo e arrotar caviar, como diz a sabedoria popular. Falando de vinhos caros, joias assinadas, jantares espetaculares em restaurantes e países em que nunca pisou o pé e tão cedo vai pisar do que levar uma vida normal, mas verdadeira.
Uma vida simples, mas gostosa como um prato de arroz, feijão, bife e batata frita. E um ovo frito com a gema mole para arrematar. De preferência acompanhado de uma coca-cola caçulinha. Porque a vida pode ser um PF muito saboroso.
É realmente uma pena que algumas pessoas só acreditem que o valor do ser está no ter. Gente que se endivida para pagar uma bolsa de grife, porque todas as amigas têm uma. E não estou falando de adolescentes querendo ser aceitas no grupo.São mulheres adultas e criadas, mas com pouco neurônio na cabeça e autoestima no pé (louco para calçar um Louboutin).
Muitas das melhores coisas da vida cabem naquele slogan da Mastercard, o dinheiro não compra. Receber os amigos e a família em casa para comer uma bela feijoada, tomar uma cerveja estupidamente gelada, falar besteiras e ser feliz é um bom exemplo. Poderia citar outros vários. Mas o mais importante com toda certeza é estar confortável na própria pele e com a própria vida.