Othaniel Alcântara
Em 1984, o filme
Amadeus estreava nos cinemas de vários países do mundo. O título desse drama ficcional é a versão latina do sobrenome “Theophilus” do famoso compositor nascido em Salzburgo, J
ohannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart (1756-1791).
O longa- metragem é uma adaptação da peça homônima escrita em 1979, pelo dramaturgo inglês Peter Shaffer, sucesso na Broadway em 1980, que por sua vez, foi baseada na obra Mozart e Salieri escrita em 1830, pelo romancista e poeta russo Alexandre Puskin (1799-1837).
Curioso observar que em 1830, já se falava da suposta rivalidade entre Mozart e o Antonio Salieri (1750-1825), então compositor oficial da Corte do Imperador José II (1741-1790), irmão de Maria Antonieta, aquela mesma, Rainha da França, decapitada em 1793 durante a Revolução Francesa (1789 a 1799). Mas, será que tal hostilidade existiu? E mais, o compositor italiano realmente matou ou teria tentado matar Mozart? Estas são algumas das várias perguntas que ouço sobre
Amadeus nas minhas aulas de “História da Música” e “Apreciação Musical” do Curso de Música da UFG.
Na vida real, é possível que tenha existido algum tipo de rivalidade entre os dois no campo musical. Entretanto, não há evidências que corrobore essa teoria. Nas duas biografias de Mozart que li até hoje, Mozart, Sociologia de um Gênio de Norbert Elias, 1991 e Mozart: vida, temas e obras de Nicholas Kenyon, 2005, lembro-me de apenas uma passagem que faz menção sobre este assunto. Trata-se de uma carta do pai de Mozart à filha Nannerl, datada de 1786, ano da estreia da ópera cômica Bodas de Fígaro: “Será de admirar se for um sucesso, pois sei que há poderosas cabalas contra teu irmão. Salieri e todos os seus apoiantes tentarão, de novo, mover céus e terra para rebaixar esta ópera.”.

Filme
Amadeus (1984)
Trecho do filme Amadeus (1984)
O relato acima deve ser analisado de forma contextualizada. Qual teria sido a motivação de Salieri para esta suposta “perseguição”? Então vamos lá! Apesar do filme Amadeus, à primeira vista ser visto como um filme sobre a inveja percebe-se, implicitamente, que Peter Shaffer utiliza-se desta cinebiografia para retratar um caso de contestação quanto às estruturas rígidas existentes na sociedade vienense do século XVIII.
Naquela época, especialmente na Áustria e na Alemanha, o músico ainda era muito dependente do patronado. Na verdade, não havia muitas opções. Para ser reconhecido e conseguir seu sustento e de sua família, tinha que conseguir um posto na corte e, consequentemente, submeter-se ao gosto, inclusive musical, da nobreza e dos círculos aristocráticos. Mozart tinha um temperamento irreverente e não se encaixava nesses padrões. Não se adequou de forma passiva a essas regras socialmente estruturadas em Salzburg e em Viena.
Sabemos que após a sua chegada à capital austríaca, em 1781, aos 26 anos, viveu dois ou três anos de sucesso. Mas, na sequência, a popularidade começou a entrar em declínio. Provavelmente, o ponto fulcral que desencadeou sua derrocada, tenha sido a controversa escolha do tema “Fígaro”, baseada na peça teatral de Beaumarchais, estreada em abril de 1784, em Paris.
Eram momentos delicados que antecederam a Revolução Francesa. A peça que incitava o ódio entre classes sociais havia desagradado profundamente o Imperador José II. O fato é que, nesta época, mesmo já sendo um “artista autônomo”, vivia num círculo bastante fechado. É natural que ao contrariar o Imperador, os músicos da corte, a maior parte satisfeita com seus empregos e boa parte da sociedade, também o tenha abandonado. Os finais todos já sabem: entrou numa profunda depressão, morreu na miséria e foi enterrado numa vala comum.
Gostaria de comentar neste texto, as demais perguntas dos meus alunos, afinal, o filme é bem intrigante e a vida do nosso personagem também. Por falta de espaço, vou apenas deixar algumas delas aqui: Mozart possuía uma personalidade excêntrica? Realmente tinha aquela risada bizarra? Quem encomendou o Réquiem e quem realmente terminou essa obra? Qual a verdadeira causa da morte do compositor? Etc. Talvez assuntos para futuros textos.
Voltando ao filme, gostaria de destacar que em 2002, o cineasta tcheco, naturalizado americano, Miloš Forman apresentou ao público a “versão do diretor” de “Amadeus”, filme que, além de quatro Globos de Ouro, venceu oito das onze indicações que recebeu ao prêmio Oscar de 1985, incluindo melhor filme, melhor ator (F. Murray Abraham, o Salieri que concorreu com Tom Hulce, no papel de Mozart), melhor direção de arte, melhor roteiro adaptado e melhor diretor; os dois últimos recebidos por Forman. Esta versão, remasterizada e restaurada digitalmente, inclui cerca de vinte minutos adicionais e algumas pequenas alterações na trilha sonora, toda ela composta de obras de Mozart.
Miloš Forman na cerimônia do Oscar (1985)
Ah! Um making of integra o box desta versão. Nele existem depoimentos sobre a concepção do filme, a conturbada relação de Miloš Forman e Peter Shaffer, que reescreveu sua peça para o cinema, ou ainda sobre a locação do Teatro da Ópera de Praga, onde Mozart estreou Dom Giovanni, em 1781. Cabe dizer que a Tchecoslováquia na década de 1980, fazia parte da parte oriental da “Cortina de Ferro”. Dá pra imaginar quantas histórias curiosas e divertidas, estão presentes neste documentário.
Filme
Amadeus (completo)
Áudio: espanhol
Requiem de Mozart dirigido por Sir Colin Davis, em 2004.