Goiânia – Viver segunda pensando na sexta é mesmo um troço muito besta. Mas quantos de nós não vivemos assim, com o coração posto no dia seguinte e quando ele chega, no que ainda vai vir, como um pescador que colocasse diante de si a vara e, portanto, a isca, tentando pescar o próprio contentamento ou a si mesmo, e a cada dia adiantasse um pouco mais o barco, movendo-se sem assim avançar em direção a seu desejo.
Pois temos seguido desse modo despetalando os dias, trancafiados em nossas rotinas, do trabalho para casa, da casa para o trabalho. Por mais que eu viva, nunca irei me conformar de ter que trabalhar oito horas por dia, apertando os parafusos de engrenagens nas quais muitas vezes não vejo sentido.
O trânsito nos elevadores é lento.
O trânsito na burocracia é lento.
Só a vida é que passa depressa.
Tem gente que enche a boca pra dizer que é no trabalho que permanecemos a maior parte de nosso tempo. Que droga! – penso e me esvazio. O que há de bonito nisso? Pois se são esses mesmos que discursam que o que realmente importa é o convívio com a família e os amigos. Por mais gratificante que seja o trabalho – e olha que não é para a maioria – há centenas de coisas infinitamente melhores a se fazer do que trabalhar. Opa! Mas estamos proibidos de dizer isso. O trabalho dignifica. Num país em que não há emprego para todos, precisamos agarrar e mostrar que estamos extremamente gratos por poder roer o osso. Devemos ter um bonito discurso corporativo.
Pois se trabalhamos enquanto o sol brilha, o que nos resta? As noites em que nos encontramos tão exaustos, que só temos ânimo para consumir narcóticos chamados de entretenimento? Devemos nos contentar com os finais de semana para celebrar o sol e nos curar da exaustão? Sábado é o único dia para o repouso ou o fruir, a lassidão ou o extravasamento. Domingo já é depressão, a antevisão da eterna repetição que se reinicia. E seguimos consolados pela esperança das férias uma vez ao ano e pela recompensa final da aposentadoria?
Ultimamente, minha dose de narcótico tem sido os filmes de época sobre nobres que não necessitavam trabalhar – claro, havia quem trabalhasse por eles – e podiam seguir à cata de diversões e de coisas para ocupar o espírito. Ora esse subterfúgio, ora outro: ler livros de escritores como Henry Miller que optaram pela vida de vagabundagem naquela Paris ou naquela Nova York que já não existem, que sacrificaram status, conforto, segurança, em perseguição à ideia de arte e de liberdade. Mas também precisavam pagar um preço por isso. Mendigavam comida e favores. Ora comiam, ora não comiam. E morreram cedo e bêbados. E morrem cedo os livres.
Há quem me mostre, como nos livros, que tudo isso é uma questão de escolha, que podemos, se quisermos, não ter que trabalhar oito horas por dia. Podemos trabalhar uma hora, duas horas, hora nenhuma, só quando a fome bater, vender sanduíche na praia, ser um monge no Himalaia, fazer artesanato na calçada. Sim, somos nós, com nossas escolhas, que construímos as grades da nossa própria prisão, apegados aos bens e confortos que nossas rotinas propiciam. O que é matéria senão grilhão?
Em On the road, livro de Jack Kerouac, encontro um divertido trecho sobre essa opção pela vagabundagem:
"Na juventude eu estivera em alto-mar na companhia de um sujeito alto e esquelético de Ruston Louisiana chamado Big Slim Hubbard, William Holmes Hubbard, um vagabundo por opção; quando criança tinha visto um vagabundo se aproximar para pedir um pedaço de torta à sua mãe, e ela lhe deu, e quando o vagabundo sumiu na estrada o garotinho perguntou, 'Mãe, quem era esse homem?' 'Ora é um vagabundo.' 'Mãe, quero ser vagabundo um dia. 'Cale a boca, isso não é coisa para os Hubbards.' Mas ele jamais esqueceu aquele dia, e quando cresceu, depois de jogar futebol durante uma temporada na LSU, tornou-se de fato um vagabundo."
Às vezes olho para alguns desses indigentes que vivem nas ruas e penso se não há entre eles muitos que, como Big Slim, desistiram de torcer os parafusos da engrenagem, que saíram em perseguição à liberdade, que se fartaram da vida em sociedade. Mas eu, ai de mim, sou tão covarde, aprecio tanto o meu conforto: minha água quente, os pneus sobre os quais vou de um lugar a outro, o meu perfume francês, os meus sapatos de couro. Impressionante como as coisas de que a gente mais se queixa são aquelas que a gente não deixa de jeito algum: o meu, o nosso. Então, por ora, presa na gaiola que escolhi, vou fazendo a minha oração de passarinho:
Oh, Grande Pai de Todas as Aves,
não peço que por ora
me soltes deste cativeiro,
mas ao menos me liberta
desse ódio (ou será amor?)
que me acorrenta ao carcereiro.
Acho que é menos ódio do que amor.