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Viver é muito perigoso

04.11.2013 - 09:15:25
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                                                                                             (Foto:Cartier Bresson)

Zurique – Cartas de amor são ridículas. Mas inevitáveis . Falam mais das impossibilidades, dos desencontros, das alegrias, das angústias  de que são feitas as relações, do que qualquer  telefonema, facetime ou a satisfação de um desejo desajeitado. E nem vou citar Pessoa para não cair no óbvio. Porque os sentimentos são feitos de impossibilidades, nada mais. Impossibilidade de voltar no tempo, impossibilidade de ser diferente, de esperar, de não desejar, de ter paciência, de acreditar no que ainda não existe, de não acreditar, de não querer e de não sofrer pelas mil e uma impossibilidades.

Recentemente me lembrei dos amores jovens, dos casais que conheci e acompanhei e escrevi: « Os amores jovens aos 20 anos me emocionam, são terríveis, puro desespero, marcam a ferro a memória, lindos e imperturbáveis, presos na tragédia cotidiana de nunca alcançarem, nem mesmo na banalidade espetacular de uma família feliz, suas promessas mais loucas de amor eterno e imensurável. Sangue e lágrimas jorram em pequenos apartamentos, carros emprestados, ônibus, cartas, canções, fugas, telefonemas, poemas, de tudo um pouco mais. Penso em mim, nos amigos, nos amores feitos e desfeitos, eternos na sua trágica pureza, de nunca alcançarem a si mesmo nem ao outro. »
 
E, por isso hoje me pergunto, existe amor maduro ? Existe amor tranquilo? Ou é sempre  essa conhecida urgência, essa impaciência, que não aceita limites, que não conhece a si mesmo, que promete o que não pode nem nunca poderá, a espera, a calma, a aceitação. É possível  ter controle quando a cabeça não manda mais? Quando se promete respeitar o tempo, mas o tempo nos atropela e desmente ? 
 
Não sei, e talvez ninguém nunca saberá. Pois é exatamente essa certeza que tira das paixões o que lhes é mais sincero, a incerteza. Mas deve ser possível sair do plano das dúvidas para algo além de uma realidade simples e desleal. Deve haver um caminho do meio, onde as dúvidas sejam substituídas por pequenas certezas diárias, buscadas e construídas com cuidado, sem fantasias, falsas esperanças ou bruscas despedidas. Entre o príncipe de cavalo branco e o ogro de terno e gravata, deve haver algo mais. Entre a princesa de lindos cabelos longos e a bruxa de avental, deve haver alguém real.

A construção de uma história de amor é algo muito delicado, exige urgência e devoção, risco e calmaria, ímpeto e paciência. Quem não aceitar tudo isso, que não se arrisque. Como dizia o grande Rosa, « viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é o que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. » E para a maioria de nós, vida sem amor não é vida. Independente da forma que ela assuma.
 
E muito das relações ainda é amizade, respeito pela distância, de se saber próximo, muito próximo, mas nunca o suficiente para determinar os limites do outro. Cada um define seus próprios limites e a aceitação das regras é necessária à sobrevivência da emoção. Respeitar o tempo do outro. O resto é risco. E disso ninguém tem controle, nem nunca deveria. Pois é a essência do querer, poder perder-se. Pular no precipício dos próprios desejos e medos mais profundos. Quem nunca arriscou?
 
Coitado daquele que nunca se desesperou. Não perdeu a hora nem o rumo, não quis apressar o passo e inverter a ordem das coisas. Coitado de quem nunca trocou cartas, bilhetes, mensagens tão incompletas quanto toda ausência. Toda espera é mérito. Toda distância é feita de dúvidas, o tempo de buscas, de ansiedades, da vontade de completar-se, da ânsia do encontro, sem nunca se ter certeza  do limite entre o possível e o impossível.
 
E mais uma vez, o velho Rosa, « Esperar é reconhecer-se incompleto. »
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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